Meios anti-K já são agraciados na era Macri

Por Sylvia Colombo
O presidente Mauricio Macri, em imagem de campanha (Foto Clarín)
O presidente Mauricio Macri, em imagem de campanha (Foto Clarín)

Não é a primeira vez que isso acontece. Cada princípio de governo, na Argentina, começa com uma trégua entre meios de comunicação e o novo eleito. Não só porque se quer dar um pouco de ar para o principiante começar a gestão com calma. Também porque são nesses dois ou três primeiros meses que as principais empresas de comunicação do país se posicionam, não raro até estarem certas de que o presidente entrante as ajudará em algo, não necessariamente ilícito, mas favorecendo com relação a concessões ou fusões paradas, liberando algum impedimento levantado pelo governo anterior ou recalculando repasse de verbas estatais. Pois então, a história vem se repetindo.

Aconteceu com Carlos Menem, que no início da gestão, em 1989, aproximou-se do Grupo Clarín e alterou a lei de mídia da época para permitir que o grupo comprasse o Canal 13, da TV aberta. Também com os Kirchner, quando Néstor autorizou a fusão da Cablevisión (empresa do Grupo Clarín) com a Multicanal, com isso transformando o multimeios em hegemônico na área de TV a cabo. Os exemplos são muitos e marcam uma relação promíscua e antiga entre meios e poder na Argentina.

Cristina Kirchner com o empresário Hector Magnetto, do Clarín (Foto Clarín)
Cristina Kirchner com o empresário Hector Magnetto, do Clarín (Foto Clarín)

Primeiro, em geral, as empresas sentem o terreno, esperam obter simpatias, ou mesmo vantagens. Na maioria dos casos, isso vem acompanhado por uma linha editorial favorável ao novo presidente _como tem sido visto desde que Macri arrancou logo depois do primeiro turno. “Dura uns 100 dias”, contou-me um ex-secretário de Redação de um dos principais jornais.

Passada essa fase, em geral, a relação começa a esgarçar. Ou porque a situação econômica piora e prejudica empresas ligadas aos meios ou os próprios meios, ou porque os veículos passam a criticar aspectos dos quais o governante não gosta, ou porque deixa-se de favorecer um veículo em detrimento de outro, e tem-se o divórcio.

Menem começou muito vinculado ao “Clarín”, mas o jogo virou rápido, e ele acabou governando quase todo o resto do mandato, incluindo a segunda gestão, a partir de 1995, com a imprensa inteira contra, “Clarín” incluído. Já com os Kirchner, a lua-de-mel terminou em 2008, com a briga do governo com os ruralistas por conta do aumento dos impostos da soja.

Um pouco desse histórico está no excelente “Pecado Original”, da jornalista independente Graciela Mochkofsky, que conta que até Raúl Alfonsín, que começou festejado pelos meios pela euforia da redemocratização do país, em 1983, terminou muito duro com a imprensa. “Acusava o Clarín de ser da oposição e pressionou para calá-lo. Mandou, por exemplo, a Afip (Receita Federal) se instalar no jornal por meses”, contou a jornalista em entrevista à Folha em 2012.

Com Macri, a primeira etapa, a de troca de favores e simpatias, já começou. Por meio de DNUs, ou seja, decretos emergenciais que descartam a necessidade de passar pelo Congresso, o presidente tem tentado amenizar aspectos da Lei de Meios que desfavorecem o “Clarín”. Não entro no mérito sobre a lei ser boa ou má, mas num país em que as instituições funcionam normalmente, não é por meio de decretos que se altera uma legislação aprovada pelo parlamento, mas sim através do voto dos congressistas. Um dos decretos destituiu um órgão autárquico, portanto independente do Executivo, a Afsca, pela ENACOM, cuja tendência será permitir que o Grupo Clarín, que acaba de comprar a Nextel (responsável por 3% da linha de telefonia móvil do país) também possa comprar a Telecom, e tornar-se hegemônico também nessa área. As DNUs de Macri encontraram primeiro freio na Justiça, mas o caso segue.

Já o Grupo Perfil, que já havia se beneficiado por uma mudança da lei de zoneamento do bairro de Barracas, aprovada por Macri quando prefeito, permitindo que o Grupo aumentasse aí seu parque gráfico e redação, aguarda que, com ele agora presidente, duas concessões de TV barradas pelo kirchnerismo finalmente saiam. Disse à Folha Gustavo Gonzalez, diretor do “Perfil”, “a ENACOM está formalizando a marcha atrás nesses impedimentos e abrindo a porta para que se reveja a decisão do kirchnerismo de não outorgar os canais ao Perfil. Agora temos esperança de que nos próximos dias o governo nos confirme a concessão dos dois canais. Nos parece que esse passo é iminente.”

Daniel Scioli, Mauricio Macri e Jorge Fontevechia, na inauguração da nova Redação do "Perfil" (Foto Perfil)
Daniel Scioli, Mauricio Macri e Jorge Fontevechia, na inauguração da nova Redação do “Perfil” (Foto Perfil)

Outro ponto estratégico que vem se desenrolando é o da transmissão do futebol. Antes da guerra entre kirchnerismo e Clarín, as partidas eram exibidas pelo canal esportivo do Grupo Clarín (a cabo, portanto, pago), num acordo milionário entre este e a AFA (a CBF argentina). Com Cristina, esse acordo foi interrompido, e o futebol, estatizado, passando a ser exibido pela TV pública, e gratuitamente. Agora, o novo responsável pelo Fútbol para Todos, Fernando Marín, cedeu aos canais Telefe (Telefonica), Canal 13 (Clarín) e América as partidas dos grandes times, Boca Juniors, River Plate, Independiente e San Lorenzo.

O cenário parece mesmo ser de troca de lados. Enquanto no império de imprensa montado pelo kirchnerismo há demissões massivas, publicações fecham e empresários dispersam, os meios que eram antes inimigos do poder se transformam em órgãos, senão alinhados, simpáticos ao governo. Ainda que pelo menos nessa primeira fase.

Conversei com Martín Becerra, o maior especialista em mídia no país, crítico do kirchnerismo e apartidário, professor da Universidade de Buenos Aires, sobre essas mudanças. Em suas palavras, “O ´La Nación´ virou o que antes era o ´Página 12´ (governista no governo Cristina), um ‘house organ’ do governo Macri”, afirma.

Leia a entrevista.

Folha – O “Perfil” está próximo de conseguir os dois canais antes barrados pela administração Kirchner. Isso vai comprometer sua linha editorial?

Martín Becerra – Acho que o “Perfil” foi discriminado pela administração Kirchner, que negou essas licenças de forma indevida. É bem provável que as obtenha agora. Vamos ver como isso impacta na linha editorial do “Perfil”. Por ter uma tradição de ser um jornal “liberal ” e pelo perfil de Jorge Fontevecchia (o proprietário), acho que é difícil que passe a ter um alinhamento automático com o governo Macri. Alinhamento este que venho observando ocorrer com o “La Nación” e o “Clarín”.

Folha – Você diz que ao “Clarín” não convém alinhar-se demais a Macri, como isso se relaciona com os interesses da empresa?

Becerra – Uma vez que o Grupo Clarín atua em inúmeros ramos das indústrias de comunicação e visa consolidar-se e expandir-se (via telefonia celular, por exemplo), considero que é um erro seu alinhamento editorial atual com o governo, assim como foi um erro alinhar-se antes a Néstor Kirchner em seu primeiro mandato, em troca de ampliar suas companhias de cabo. 

Nem a política (Macri, neste caso) nem aos grupos multimeios lhes convêm fundir-se a médio prazo, porque embora possam ter uma aliança “tática”, essencialmente, seus objetivos e práticas são diferentes. Confundi-las, como a história recente da Argentina mostra, acaba saindo caro. Neste sentido, os efeitos da ruptura das relações entre o principal multimeios (Grupo Clarín) e Cristina Kirchner, a partir de 2008, é um exemplo eloquente do que acontece quando tanto os interesses entre política como os das empresas de mídia se confundem.

Folha – Você acredita que ao governo vai interessar desmembrar o Fútbol para Todos para obter apoio das TVs?

Becerra – No Fútbol para Todos há empresas mais visíveis, como o Clarín com seu canal de cabo TyC Sports ou com sua operadora Cablevisión, a quem convém uma mudança do modelo de gestão do FpT, mas há empresas menos conhecidas e intermediárias que também buscam a possiblidade de realizar novos negócios com a redefinição do FpT. Isso não significa que eu apoie o modelo passado do FpT (o do kirchnerismo), pois considero que possui enormes problemas, mas a gratuidade das trasmissões (oferecida pela estatização) foi uma mudança tremenda nessa matéria, que hoje está em discussão. Obviamente, o governo atual –como já fez o governo anterior- usará a ferramenta do futebol em seu proveito.