Leia entrevista com Cabrera Infante um ano antes de morrer

Por Sylvia Colombo
O escritor cubano Cabrera Infante (Foto Divulgação)
O escritor cubano Cabrera Infante (Foto Divulgação)

Neste sábado, publiquei uma reportagem na capa da Ilustrada sobre os inéditos do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005). Aproveito a ocasião para republicar, abaixo, entrevista que fiz com o autor de “Três Tristes Tigres”, em 2004, um ano antes de sua morte. Foi publicada no extinto caderno “Mais!”

 

O SONHO DA DEMOCRACIA EM CUBA

Sem publicar romances há mais de uma década, Guillermo Cabrera Infante, 75, diz estar “entusiasmado” com “La Ninfa Inconstante”, trabalho de ficção iniciado em meados dos anos 90 cuja conclusão está próxima.
Autor de clássicos como “Três Tristes Tigres” (1967) e “Havana para um Infante Defunto” (1979), o escritor cubano segue observando a partir de Londres os rumos da política cubana. Ferrenho opositor de Fidel Castro, torcendo para que o fim de seu governo ditatorial ainda venha em tempo para que possa realizar o sonho de um dia poder votar em Cuba.
A partir da capital inglesa, cidade que um dia chamou de “uma versão de “O Ano Passado em Marienbad” [de Alain Resnais] ao ar livre”, Cabrera Infante acompanha o desenrolar da intervenção americana e britânica no Iraque, movimento que tem seu apoio desde o princípio. De lá, ele conversou, por telefone, com o Mais!.

Há pouco mais de um mês os EUA manifestaram intenção de intervir na sucessão cubana, o que causou uma forte reação de Fidel e de seus apoiadores. O que o sr. achou disso?
Bush fez isso pensando nas eleições de novembro, nada mais. As declarações até podiam ser sérias, mas não creio que as intenções caminhem para uma decisão real nesse sentido. E o que fez Fidel foi, mais uma vez, provocar um alarme considerável para aproveitar-se da situação.

No princípio, o sr. apoiou a intervenção americana e britânica no Iraque. Qual sua opinião sobre o que está acontecendo lá agora?
Eu estava a favor da guerra desde o princípio, porque pensava que qualquer situação era melhor do que a permanência de Saddam Hussein no poder. Depois a situação fugiu do controle. Não é que eu tenha mudado de opinião sobre a intervenção bélica, não mudei, mas acho que não se administrou bem a situação a partir daí. Penso que a política americana fracassou em relação ao Iraque.

O sr., então, também é a favor de uma intervenção americana em Cuba?
Sim, claro. Qualquer coisa que nos livrasse de Fidel Castro seria bem-vinda.

Mesmo se o preço fosse ter de enfrentar conseqüências como as que vemos hoje no Iraque?
É muito duro admitir, mas sim. Pelo menos poderíamos apostar em um futuro melhor. Mas não creio que se criaria uma situação tão hostil e tão absolutamente terrível como é a situação no Iraque hoje.

Como o sr. vê a sucessão em Cuba hoje?
Creio que a solução se dará a partir de uma situação interna, vinda mais do Exército do que de qualquer outro grupo armado em Cuba.

O presidente Lula foi criticado no Brasil por não ter feito menção à questão dos direitos humanos em visitas a Cuba e à China. O que acha disso?
Não o entendo, absolutamente. Creio que deveria ter se pronunciado em algum momento, sobretudo com respeito a Cuba, mais do que em relação à China, que é uma situação mais distante e complicada. A atuação de Lula me pareceu bastante tíbia.

O sr. está preparando um novo romance?
Sim. Mas é um livro que, a princípio, não quero chamar de romance, ainda que possua alguns elementos de ficção. Vai se chamar “La Ninfa Inconstante”. Trata-se de um casal que foge junto, que tenta escapar por uma cidade, e o que então ocorre com eles. Estou escrevendo com muito entusiasmo.

A literatura latino-americana hoje parece se afastar do já desgastado realismo mágico e optar pelo que já está se chamando de realismo urbano, a partir da obra de alguns autores mexicanos, colombianos e outros. O que acha desse novo caminho?
Seguramente o caminho do realismo mágico se fechou completamente. A partir de certo momento, inclusive certos escritores que o cultivavam, como o próprio García Márquez, o abandonaram. Penso que o realismo urbano é uma situação que responde a elementos muito concretos da realidade de cada país. Enquanto o realismo mágico se pretendia uma espécie de escola literária, o realismo urbano tende a ser algo particular, e não um movimento.

Em “Delito por Dançar o Chá-Chá-Chá”, um dos personagens diz não gostar de autobiografias por não lhe agradar a idéia de um “striptease histórico”. O sr. pensa em escrever sua biografia?
Por enquanto ainda não, tenho outras coisas para contar. E não estou muito entusiasmado com minha vida, de maneira que acredito que, assim, não iria fazer um relato interessante.

O sr. já vive há muitos anos no Reino Unido. Se interessa pela política local?
Sim, mas, na verdade, ainda tenho esperança de poder votar em Cuba um dia, pois nunca o fiz. Eu tinha idade para votar quando veio o golpe de Estado de [Fulgêncio] Batista e fui impedido. Desde então, estou ansioso para um dia poder votar em Cuba. Mas já não sei se conseguirei.