“Plebiscito pelo fim da guerra com as Farc terá de apelar a emoções”

Por Sylvia Colombo
Uma das campanhas publicitárias pela desmobilização dos guerrilheiros, usando mães dos combatentes (Foto Divulgação)
Uma das campanhas publicitárias pela desmobilização dos guerrilheiros, usando mães dos combatentes (Foto Divulgação)

Nesta última segunda-feira (8), o presidente colombiano Juan Manuel Santos decidiu que o acordo de paz entre o governo e as Farc, cuja assinatura está prevista para dia 23 de março, em Havana, terá mesmo de ser validado por meio de um plebiscito. Havia dúvidas quanto ao método usado para colocar as medidas (que incluem alterações na Constituição, no sistema Judiciário e em outros campos) em vigor. Enquanto Santos sempre preferiu um método de aprovação via urnas, a guerrilha se dividia, mas preferia uma mudança realizada por meio de uma Assembleia Constituinte. O temor das Farc, que também corresponde a um risco assumido por Santos, é que os colombianos simplesmente não aceitem o acordo e, votando “não” no plebiscito, joguem por terra três anos de negociações, em que tanto o Estado quanto a facção criminosa fizeram concessões. O “não” significaria, também, a continuação desse conflito que já dura mais de 50 anos, já fez mais de 250 mil vítimas fatais e obrigou 6,4 milhões de colombianos (segundo a ONU) a abandonarem suas casas e buscarem refúgio nos arredores de grandes centros urbanos ou campos improvisados pelo país.

O que vem por aí, portanto, é ainda muito debate e divisão de opiniões. Se o acordo for mesmo assinado em 23 de março, a data do tal plebiscito deve ser estabelecida para daí a dois ou três meses depois. Serão tempos de campanha, mas diferentes de uma campanha eleitoral normal. O governo não poderá usar recursos públicos para pedir o voto pelo “sim”, portanto conta com empresários e membros da sociedade que se engajem voluntariamente pela causa. Também estarão em campanha pelo “sim”, outro grupo de representantes da sociedade não alinhados a partidos políticos, mas interessados na paz. Por outro lado, espera-se que lidere o “não” os partidos e lideranças de oposição a Juan Manuel Santos. Se não Uribe literalmente, certamente seus apoiadores).

Na semana passada, conversei com José Miguel Sokoloff, presidente da Lowe Global Creative Council and Co., uma agência empenhada na campanha do “sim”, que já realizou ações de muito sucesso. As campanhas de Sokoloff incluíram, por exemplo, iluminar por meio de globos os rios que adentram áreas onde a guerrilha está instalada, pedindo a desmobilização dos combatentes, ou a iluminação de árvores de Natal. Na mais tocante delas, envolveu as mães dos guerrilheiros, que mandaram mensagens aos filhos por meio de fotos antigas, mostrando-os como crianças: “antes de ser um guerrilheiro, você é meu filho”. As campanhas projetaram o trabalho da agência e o nome de Sokoloff, que já as explicou longamente em palestras, inclusive na TED no Rio, em 2014.

“A campanha com as mães, muitas delas que não viam os filhos há mais de 20 anos, teve imenso impacto. Porque levamos à selva fotos deles crianças que apenas eles reconheceriam, e com uma mensagem delas. É difícil resistir a isso. Penso que a campanha pelo ´sim´ agora, terá muito que levar em conta a emoção, mostrar o aspecto humano do que significa o fim dessa guerra para todos nos”, diz Sokoloff à Folha.

 

Apesar de feliz com o sucesso de suas ações e de outros grupos da sociedade que conseguiram, nos últimos 8 anos, colaborar para a redução do número de combatentes, de cerca de 15 mil para os atuais entre 6 e 8 mil, Sokoloff vê muita desinformação no debate e muita resistência na aceitação do acordo. Nos últimos anos, os pontos mais polêmicos para os colombianos sempre foram o de uma criação de uma Justiça especial _que dará indultos a quem cometeu crimes menos graves e reduzirá penas de quem fornecer informação sobre crimes_ e a concessão de acesso de ex-guerrilheiros ao Congresso. Esses pontos ainda têm muita rejeição e podem levar a uma alta votação do “não”.

“Os que se opõem não manejam informações precisas e usam um discurso de que, se aceitarmos o acordo estaremos ‘entregando o país’, e essa ideia é equivocada”, diz Sokoloff, que aponta, por exemplo, para uma necessidade de regular financiamento de campanhas eleitorais nos Estados. “A ideia de que a guerrilha não está na política e que, se o acordo passa, vai poder estar, é errada. A guerrilha e o narcotráfico já estão metidos nos governos regionais. O problema, aí, tem de ser combatido de outra forma. Não será derrubando o acordo. Derrubar o acordo vai ser continuar uma guerra que está destruindo a Colômbia. Pertenço a uma geração que nunca viveu num país sem guerra”, diz o publicitário, assim como as Farc, também nascido nos anos 1960.

 

Uma das ideias que a agência de Sokoloff tentará reforçar é que “paz” não é o mesmo que “segurança”. Por muitos anos, especialmente na década de 90 e durante a gestão de Álvaro Uribe (2002-2010), o discurso do governo era de que as Forças Armadas enfrentariam com força a guerrilha, e garantiriam a “segurança”. Com esse discurso, a população também acabou aceitando a realidade da formação dos paramilitares, aliados ao governo. “Falava-se de ´segurança’, não se falava de convívio e de reconciliação, e isso é a ´paz´. Essa é a mensagem que deve ser remarcada hoje. “É preciso lembrar que soldados e guerrilhas não são diferentes, somos o mesmo país”.

Para Sokoloff, é uma triste ironia ver, nas pesquisas, que a maior rejeição à paz vem de classes altas, da elite bogotana, dos mais privilegiados, e não de áreas que estão sendo afetadas mais diretamente. “Para quem teve metade da família morta, tudo o que quer é que esse pesadelo acabe e que a outra metade não morra. Como podemos ser surdos ao que eles estão nos pedindo. Nós, que temos mais conforto e uma situação mais privilegiada”, diz. “Essa guerra precisa acabar”.

Já o governo está trabalhando na construção de um discurso sobre o pós-conflito, ou seja, o que será de ex-guerrilheiros, ex-paras, ex-vítimas, ex-desplazados quando o conflito estiver terminado. Parte da resistência ao acordo vem um pouco daí. Pessoas que estiveram envolvidas e temem revanches, acertos de contas e novas guerras num cenário em que estarão desprotegidos por já terem entregado as armas. Pessoas que perderam suas casas e não sabem para onde ou se devem voltar a seus departamentos de origem. Haverá infra-estrutura onde a guerrilha destruiu postos de saúde e estradas? Haverá empregos? A tarefa do pós-conflito é muito mais difícil, porque envolve custos e planejamento que apenas o Estado pode realizar e garantir.

Santos, que até aqui tem tido aparência de imensa paciência, agora começa a mostrar inquietação. Os próximos meses darão o veredicto sobre seu governo. No cargo desde 2010, reeleito em 2014, tem até 2018 para vencer a principal batalha a que se propôs, a paz com as Farc. Mesmo tendo colocado o país num bom caminho em tempos de crise econômica, com investimentos em infra-estrutura e boa performance de crescimento do PIB ainda em tempos bicudos, Santos não será considerado um presidente de sucesso se não colocar um ponto final nessa guerra.