Em centenário, Rubén Darío tem obra jornalística e ensaística redescoberta

Por Sylvia Colombo
O poeta e cronista nicaraguense Ruben Dario (Foto Divulgação)
O poeta e cronista nicaraguense Ruben Dario (Foto Divulgação)

O centenário da morte de Rubén Darío (neste 6 de fevereiro) vem sendo celebrado em vários países da América Latina e da Europa, não apenas por sua importância literária e política, mas porque ter estado em tantos cantos e capitais, ter-se aberto a várias culturas e correntes de pensamento, ter fomentado intercâmbios entre intelectuais latino-americanos e europeus foram a essência de sua personalidade. O nicaraguense Rubén Darío foi, nada mais nada menos, que o fundador do modernismo hispano-americano. No Brasil, sem me surpreender a essa altura, a data passa em brancas nuvens.

A novidade nesta efeméride é que Darío não vem sendo lembrado desta vez apenas por sua poética, que de fato o fez famoso e figura central dos meios literários dos países onde mais tempo passou, Argentina, Chile, França e Espanha. O que vem surgindo à tona com força é sua prosa ensaística e sua produção jornalística, bastante intensa. Muita dessa movimentação editorial tem ocorrido em Buenos Aires, cidade que o escritor adotou por longo período e para o qual produziu muito de sua prosa de não-ficção, principalmente para o jornal “La Nación”, ainda um dos mais importantes do país. É na capital do país-vizinho que vem saindo coletâneas e livros que analisam a produção de Darío para além de sua poética.

Nascido em janeiro de 1867, em Metapa, hoje chamada Ciudad Dario, um pequeno vilarejo no sul da Nicaragua, Darío teve uma vida inquieta e cheia de excessos e dificuldades. Sua prosa para jornal surge, justamente, dessa necessidade de escrever para manter um sustento. Vivia muito, estava sempre metido em intrigas amorosas, não se cuidava, viajava intensamente. Morreu aos 49 anos, mas deixando um legado volumoso assim como intenso, como quem escreve contra o relógio _o que, a vida o provaria, era verdade.

Assim como o cubano José Marti (1853-1895), Darío é visto hoje como dessas vozes que refletiam a urgência de refletir sobre a virada do século e as transformações políticas que viriam. Não era um intelectual radical em suas visões. Um nacionalista e um anti-colonialista, certamente, mas com uma pegada mais liberal que muitos de sua geração. Atuou como diplomata pela Nicaragua em diversos países, na América Latina e na Europa.

Seus críticos elogiam, em suas obras, entre outras coisas, a mescla de influências literárias que vinham da poesia e da prosa americanas às leituras que realizou na Europa, aos românticos alemães, a Flaubert e Zola, além da produção em inglês, principalmente de Walt Whitman. As biografias de Darío causam certa vertigem, ele parece ter estado em todas as partes e lido de tudo.

Edição antiga de "Azul", sua primeira obra a ganhar grande projeção internacional (Foto Reprodução)
Edição antiga de “Azul”, sua primeira obra a ganhar grande projeção internacional (Foto Reprodução)
Antes tomada como uma produção realizada meramente com fins de garantir seu sustento, suas crônicas jornalísticas e material produzido como correspondente do "La Nación" na América Central e em outras viagens hoje têm sido vistas como fonte essencial de experiências que alimentaram sua poética. Um verdadeiro laboratório de experiências, inclusive com a linguagem.

É uma pena que, na Nicaragua de hoje, a celebração de seu centenário de morte esteja focalizada apenas em seu anti-imperialismo, bandeira do atual presidente Daniel Ortega. É de se comemorar que outros países pelos quais passou, como a Espanha e a Argentina, o estejam relendo agora com uma nova abordagem e descobrindo em sua produção de não-ficção aspectos enriquecedores de sua obra.