Milagro Sala tem de estar presa?

Por Sylvia Colombo
A líder jujenha Milagro Sala (Foto Clarín)
A líder jujenha Milagro Sala (Foto Clarín)

O presidente argentino Mauricio Macri irritou-se com a pergunta, feita por um jornalista durante sua viagem a Davos. Feliz com a boa recepção que teve a “nova Argentina” que o mandatário foi apresentar, mais aberta aos mercados e aos investimentos estrangeiros, Macri não esperava ser incomodado com uma questão de política e disputa interna. O jornalista questionou se a atual prisão da ativista Milagro Sala, em Jujuy, poderia ser comparada à da prisão de Leopoldo López, na Venezuela.

Ou seja, se Sala seria a primeira “presa política” dos tempos de macrismo.

A comparação faz sentido, mas apenas em parte. Do ponto de vista concreto, é absolutamente injusta.

Vejamos. Como López, Sala está detida sob acusação de incitar a violência e a desordem pública, crimes de difícil interpretação e decisão, uma vez que contam com dose alta de subjetividade e de motivação política. Se seguir apoiando seu encarceramento com base nesses argumentos, o presidente estará cometendo um erro.

Mas isso não quer dizer que Sala não mereça enfrentar a Justiça por acusações, muitas delas bastante mais sérias, que se acumularam contra ela nos últimos anos. Como disse outro dia o influente Jorge Lanata, “não se pode comparar Milagro Sala com Joana D´Arc”. Não se pode mesmo. Sala representa uma forma antiga, antidemocrática e muitas vezes ilícita de se fazer política na Argentina.

Omissa será a Justiça argentina se deixar de levar adiante os casos pelos quais Sala deve, sim, responder e, caso seja confirmada sua culpa, ser condenada.

Para os que chegam agora ao debate. Milagro Sala é uma ativista de 52 anos, da afastada e empobrecida província de Jujuy, no Norte argentino, onde Macri fez seu encerramento de campanha em novembro, na tentativa de amealhar votos num reduto fiel ao kirchnerismo.

Em poucas palavras, Milagro Sala é uma espécie de governadora informal de Jujuy, chefe de um verdadeiro para-Estado. Fiel ao kirchnerismo e apoiadora incondicional de Cristina, recebeu, durante os anos do anterior governo, quantias volumosas de dinheiro, destinadas oficialmente a financiar moradias públicas e distribuir planos sociais aos pobres. Pois bem, muito dessa verba está “desaparecida”, outra, pode-se ver materializada nas amplas e bonitas casas de Sala e de sua família em Jujuy. Se não as comprou com dinheiro público desviado em favor próprio, precisa explicar como fez, porque de fato não se conhecem as fontes de suas entradas legais de dinheiro.

Estão registradas na Justiça acusações de que Sala fez ameaças seguidas aos governadores do Estado (inclusive de explodir bombas), e que estaria envolvida em tráfico de drogas e em encobrimento de crimes. Em tempos de eleições,  acionava exércitos de “punteros” para pedir votos ao kirchnerismo. Sua organização, a Tupac Amaru, possui armas e é uma espécie de milícia de cidadãos comuns, ao estilo “autodefesas” e “vigilantes” que se espalham pela América Latina, em rincões onde o Estado não chega. As autoridades oficiais jujenhas nada podem contra as milícias de Sala.

Há um par de anos, a equipe do jornalista Jorge Lanata tentou retratar a Jujuy de Sala. Houve momentos de tensão profunda (veja vídeo abaixo). Jornalistas acuados, equipamentos confiscados e intimidação aberta. Sala recebeu Lanata para uma reunião, enquanto do lado de fora, a população, armada de paus e levantando bandeiras, xingava os jornalistas da capital e gritava “nós somos bons”, “nós somos bons”. Para milhares de jujenhos, Sala é uma defensora do povo, mãe dos pobres, no estilo típico do populismo argentino.

Jujuy é uma espécie de terra sem-lei, um faroeste encravado num do países mais ricos da América Latina.

É animador que a nova gestão de Mauricio Macri queira desmontar esse modo ilícito de fazer política e de desviar verba destinada a planos de assistência à população carente. Colocar Sala, e outros líderes como ela, no banco dos réus, é alvissareiro e será um sinal positivo de que o novo presidente, de fato, preocupa-se com a normalização democrática do país.

Há aspectos da prisão de Sala, porém, que tornam essa tarefa um pouco mais complicada, e podem colocar o mandatário em contradição com seu discurso conciliatório. Primeiro, esse processo em Jujuy não pode se deixar colorir de cores políticas. O kirchnerismo tentará fazer de Sala um mártir popular, o que é praticamente uma aberração.

O governo precisa ignorar essa provocação e deixar que a Justiça faça seu trabalho de modo independente. As acusações contra Sala cabem ao foro da Lei, e não a decisões de cúpula de Estado. Macri deveria pedir ao governador do Estado, Gerardo Morales, que tem uma agenda pessoal contra Sala, que se afaste do processo e deixar que ele se desenrole pelas vias institucionais. O pior que pode acontecer ao caso é que ele se pareça com uma ação de vingança política, e não com uma grave situação criminosa.

Além de correr o risco de parecer anti-democrático, politizar o processo é insuflar tensão em regiões onde o macrismo não é maioria e em que muitas organizações, algumas armadas, seguem fieis ao kirchnerismo _Salta, Tucumán, Santiago del Estero e Mendoza.

Macri elegeu-se com um discurso valente e de difícil execução, o de conciliar, dialogar e diminuir a tensão entre polos políticos. Milagro Sala pode ser seu primeiro desafio. Pelo bem da Argentina, que o presidente tenha sorte nesse caso e tome decisões acertadas.