Manguel volta à Argentina para ocupar posto que foi de Borges

Por Sylvia Colombo

Alberto_Manguel

Quando era adolescente, Alberto Manguel, 67, trabalhou na livraria Pygmalion, na avenida Corrientes, em Buenos Aires, dedicada a títulos em outras línguas. Como tinha acabado de voltar de um longo período no exterior (os pais eram diplomatas), falava muito bem inglês, e logo chamou a atenção de um célebre frequentador do espaço, o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986). O autor de “O Aleph”, já quase completamente cego, convocou então Manguel para ler para ele em voz alta os clássicos de poesia e prosa que ele já não podia mais revisitar sozinho. A experiência marcaria o rapaz para o resto da vida, e ele dela se lembraria sempre ao se transformar também num autor e bibliófilo.

Agora, as trajetórias de Manguel e Borges voltam a se cruzar. O escritor argentino, naturalizado canadense e com uma vida profissional e pessoal construída no exterior, volta a Buenos Aires para ocupar o posto que foi de seu mestre naqueles tempos. Manguel acaba de ser nomeado o novo diretor da Biblioteca Nacional argentina, uma das principais instituições culturais do país.

Leia, abaixo, a entrevista que Manguel concedeu ao blog.

Folha – Como um escritor apaixonado por livros, como recebeu a oferta para assumir a principal biblioteca da Argentina?

Alberto Manguel – Com alegria, orgulho e medo. Alegria diante da ideia de ocupar, ainda que seja fisicamente, o posto que foi de Borges. Orgulho pelo que o cargo significa depois de eu ter passado tantos anos escrevendo sobre bibliotecas, livros e leitura. E medo pelo imenso desafio que essa tarefa representa.

Folha – Você passou grande parte de sua vida em outros países. Como é, pessoalmente e para sua obra, voltar a Buenos Aires neste momento?

Manguel – Voltar a Buenos Aires é muito estranho para mim. Quando alguém deixa um lugar no qual viveu e onde aconteceram coisas importantes (minha adolescência), esse lugar se transforma, na memória, num cenário que pouco a pouco vai modificando-se para acomodar as lembranças que vamos fabricando para nos consolar. Acabamos imaginando esse lugar abandonado, como costumamos fazer quando nos lembramos de amores que ficaram distantes no tempo. E tanto mudamos essa geografia, como mudamos a cara da pessoa que alguma vez amamos, que quando voltamos a ve-la não a reconhecemos. 

Portanto, sinto que não volto a Buenos Aires, para a minha Buenos Aires, e sim que irei agora para uma cidade nova, que devo descobrir e aprender a querer.

Folha – Nos dias de hoje, qual acredita ser o principal papel de uma biblioteca moderna?

Manguel – Toda biblioteca, seja moderna o antiga, tem como função essencial ser a memória de seus leitores, e também o reflexo de sua identidade. Se somos o que lemos, o que lemos, por sua vez, nos reflete. A importância que damos a uma biblioteca em nossa sociedade define simbólicamente nossa relação com o ato intelectual.

Folha – Como é para você assumir esse cargo que foi de Borges, alguém com quem teve um forte vínculo quando era jovem? Borges lhe disse, naquela época, algo que vê como útil para aplicar nos dias de hoje?

Manguel – Não. Borges usava a Biblioteca Nacional como seu escritório. Quem atuava verdadeiramente no papel de bibliotecário era José Edmundo Clemente, o sub-diretor e autor de um livro muito interessante, “O Idioma dos Argentinos”.

Folha – Como vê o projeto de reocupação da antiga sede da Biblioteca Nacional, no bairro de San Telmo? A anterior gestão havia anunciado que voltaria a funcionar, reunindo livros de literatura e história argentinas. Segue sendo essa a ideia?

Manguel – Esse projeto está muito atrasado. Não decidi ainda que uso daremos a esse esplêndido edifício.

Folha – Nos últimos anos, a Biblioteca esteve sob o comando de um intelectual de muito relevo, Horacio González, mas também serviu como uma espécie de sede informal para o grupo de intelectuais que apoiaram o kirchnerismo, o Carta Abierta. Crê que agora a tendência é que o espaço de despolitize?

Manguel – Sob minha direção, a Biblioteca não alojará nenhuma entidade política-cultural específica, de modo que o Carta Abierta não existirá sob esse teto. Toda biblioteca é, necessariamente, uma entidade política porque existe na “polis”, na sociedade, e portanto atua dentro dela.

A Biblioteca se prestará, obviamente, ao diálogo, a fóruns, conferências, seminários, mas não da mesma maneira como se montou o grupo Carta Abierta.

Folha – Como pensa conciliar a escritura de seus livros com o trabalho na Biblioteca?

Manguel – Como puder. Nesses primeiros meses, me comprometi com cursos nos EUA, em Princeton e em Columbia. De modo que viajarei bastante entre Buenos Aires e Nova York. Creio que aprenderei a escrever nos aviões.

Folha – É possível criar sistemas de  bibliotecas digitais integradas na América Latina, com o Brasil e outros países da região, assim como existem a Digital Public Library of America, nos EUA, ou o projeto Europeana, na Europa?

Manguel – Sim, obviamente. Não somente é possível como é necessário. Continuar e ampliar o programa de digitalização nacional e internacional, com laços com outros países, Brasil incluído, será a minha prioridade.