A luta de Ricardo Piglia pela própria memória

Por Sylvia Colombo
O escritor argentino Ricardo Piglia (Foto Divulgação)
O escritor argentino Ricardo Piglia (Foto Divulgação)

Soube que Ricardo Piglia estava doente há cerca de um ano, quando o escritor Edgardo Cozarinsky, um amigo em comum, me disse que o autor de “Respiração Artificial” finalmente tinha ido ao médico para investigar o que era aquela “coceirinha” que sentia no braço. A esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa de tipo neuromuscular que vai limitando a pessoa aos poucos, começaria então a causar uma terrível devastação no corpo do mais importante escritor argentino da atualidade. Nos últimos dias, um abaixo-assinado reunindo mais de 80 mil assinaturas de amigos e intelectuais conseguiu finalmente obter do plano de saúde do escritor a garantia de que bancaria o tratamento com o medicamento GM604, ainda em fase experimental nos EUA e cuja dose custa, individualmente, US$ 120.000. O abaixo-assinado foi organizado pelo sociólogo Roberto Jacoby, e firmado por Juan Sasturain, Juan Cruz, Tununa Mercado, Patricia Walsh, Claudia Piñeiro, Natu Poblet, Daniel Divinsky e Margo Glantz, entre outros. Segundo a mulher de Piglia, Beba Eguía, o autor vem melhorando sensivelmente.

Trata-se de uma trágica ironia que, assim como Jorge Luis Borges (1899-1986), que passou importante parte de sua carreira enfrentando a cegueira, agora seja a vez de Piglia, 74, um generoso escritor e professor, de uma erudição imensa em temas de literatura latino-americana, tenha de trabalhar agora com ajudantes para a escritura e lutando contra o esquecimento sobre o que já leu. Quando fui a Buenos Aires especialmente para perfila-lo, em 2011, para a Ilustríssima (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2011/04/903298-piglia-o-criador-de-constelacoes.shtml) ouvi alguns de seus ex-alunos, na Argentina e nos EUA, que contaram que Piglia se envolvia a fundo na pesquisa de cada um, sugeria livros e repartia indicações de leituras relacionadas às pesquisas. Quando o entrevistei em seu escritório, na rua Marcelo T. de Alvear, numa passagem barulhenta do Barrio Norte, foi a mesma coisa. Interessado na pesquisa sobre vida intelectual da Argentina no século 19, me emprestou livros e fez recomendações.

O mais interessante, porém, tem sido o modo como Piglia tem lidado com a doença, que certamente limitará cada vez mais sua relação com os livros. Começou a tirar dos caixotes onde estavam guardados há muito tempo os cadernos em que escreveu um diário, desde 1957, quando ainda era um adolescente. A princípio, achava difícil confrontar-se com as memórias. Mas, aos poucos, decidiu que é ele mesmo quem tem de fazê-lo e não deixar que os volumes sejam publicados postumamente. Com uma ajudante, começou a passa-lo todo a limpo. Com o cineasta Andrés Di Tella, documentou o processo, pontuando as passagens mais significativas com comentários e lembranças que estão no belo documentário “327 Cuadernos”, ainda inédito no Brasil. Os escritos começaram a sair neste ano. Serão três volumes, mas não trarão Piglia como protagonista. Ele decidiu chamar suas memórias de “Diários de Emilio Renzi”, seu alter ego nas principais obras, propondo um talvez último jogo literário a seus leitores. Ali, fala de suas leituras e experiências de vida, e aponta o princípio de sua vocação literária como sendo a viagem que fez com os pais de Adrogué a Mar del Plata. A conturbada história da Argentina no século 20 percorre todo o volume.

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