Dez anos sem Juan José Saer

Por Sylvia Colombo
O escritor argentino Juan José Saer (Foto Divulgação)
O escritor argentino Juan José Saer (Foto Divulgação)

Pensei em Juan José Saer (1937-2005) em duas ocasiões em menos de uma semana. A primeira, porque visitei pela primeira vez Rosario, cidade em que passou a infância e parte da adolescência, e que ele dizia tê-lo influenciado muito. A segunda, após os ataques a Paris, quando tentei adivinhar o que teria pensado o autor de “O Enteado” sobre essa barbaridade desde o apartamento em que vivia na capital francesa desde 1968, no bairro de Montparnasse.

A morte de Saer acaba de completar 10 anos. Aqui na Argentina, muita coisa voltou a ser editada, e a Seix Barral lançou pela primeira vez vários de seus ensaios, escritos nos primeiros 15 anos de sua carreira. Os volumes de “Borradores Inéditos” são irregulares, pois possuem desde ensaios acabados a “drops” de pensamentos agregados de forma aleatória. Mas, como o autor não escreveu uma biografia, eles acabam cumprindo esse papel.

No volume 4, o mais recente, por exemplo, Saer fala do exílio em várias de suas formas, e assim parece, ao mesmo tempo, se definir. Conta o exílio do pai, imigrante sírio católico na Argentina, o exílio dele próprio, deixando a Argentina muito jovem, e relata também o que considerava ser o “exílio interior” no qual ele acreditava que viviam todos os intelectuais argentinos. É uma reflexão que vale muito para os dias de hoje: “Os que se rebelam são vítimas de discriminações, de censura, de conspirações de silêncio. Pode-se dizer que todo intelectual responsável e todo artista rigoroso sofreram sempre um verdadeiro exílio interior e que suas obras tiveram uma influência crescente, apesar dos obstáculos impostos pelo poder”.

Também há belas recordações de Rosario e Santa Fe, que ajudam a entender as particularidades dos chamados “escritores do litoral”, que não estavam diretamente influenciados pelo mundo intelectual e literário de Buenos Aires.

No Brasil, os principais romances de Saer foram publicados, como “O Grande”, “As Nuvens” (ambos pela Companhia das Letras) e “O Enteado” (Iluminuras). Porém, no Brasil, a obra deste que é considerado um dos grandes autores latino-americanos do século 20, ecoa pouco.

Talvez a melhor explicação seja o fato de que sua obra não se encaixa num conjunto de estereótipos com os quais se costuma definir um “autor argentino”. Seus temas não passam pelas preocupações do porto de Buenos Aires, nem se relacionam com a cultura tangueira ou borgeana. Quando aborda traumas nacionais como as ditaduras militares, o faz de forma deslocada, sem nomea-las, sem descreve-las, e colocando-as no enredo como uma grande presença silenciosa e terrível (é o caso de “Nadie, Nada, Nunca”, sua principal obra).

Não sei se os “Borradores Inéditos”, que a Seix Barral lançou aqui, estão no radar de alguma editora brasileira, mas seria uma ótima notícia.