Mulheres de Argentina, Bolívia e Peru também gritam por direitos

Por Sylvia Colombo

 

Grupos feministas pedem leis de proteção na Bolívia (Foto Mujeres Creando)
Grupos feministas pedem leis de proteção na Bolívia (Foto Mujeres Creando)

Os protestos das mulheres em São Paulo, na última semana, contra Eduardo Cunha e a proposta de restringir o acesso ao aborto, assim como a campanha #meuprimeiroassédio, por sorte, não são fato isolado na América Latina. Nos últimos meses, surgiram manifestações, campanhas e denúncias contra a persistência de comportamentos machistas e seus efeitos, em especial a violência contra a mulher. Em alguns casos, como o do Peru, debate e legislação avançaram no Congresso. Noutros, mais patriarcais, como a Bolívia, de forma mais lenta o tema surge na pauta. Na Argentina, em plena época eleitoral, uma onda de protestos contra crimes contra mulheres levou multidões às ruas, mas o retrocesso foi vocalizado por nada menos que um dos favoritos a vencer a próxima eleição presidencial. Em entrevista a uma rádio, o direitista Mauricio Macri posicionou-se contra a proposta de criminalizar os “piropos” (cantadas, “elogios” com conotação sexual), que considera sem propósito: “Todas as mulheres gostam de ‘piropos’, ainda que sejam grosseiros, como quando lhes dizem: ‘que linda bunda você tem’.”

A movimentação é muita, os avanços são poucos e vagarosos, mas não deixam de ser boa notícia em um continente em que a cultura machista se impõe nas relações familiares, profissionais e afetivas de um modo geral. Sinal de que algo está mudando. Aqui, uma pequena lista de exemplos recentes.

Na Argentina, o assunto está latente pelo menos desde abril. Começou com a adolescente Aixa Rizzo, 20, que publicou no Youtube um vídeo (acima) contando o assédio que vinha recebendo por parte de um grupo de trabalhadores de uma obra no quarteirão em que vivia. As “cantadas” começaram como de costume, “apenas” com comentários grosseiros toda vez que ela passava, até que um dia os homens armaram uma emboscada, da qual só se livrou porque trazia gás pimenta na bolsa e jogou na cara deles. Na delegacia, como de costume, não quiseram registrar sua queixa, por se tratar apenas de um “piropo” (elogio, cantada). Com a repercussão do vídeo na internet (hoje com mais de 800 mil visualizações), o delegado mudou de ideia.

O caso de Aixa acendeu uma flama, logo crimes terríveis contra mulheres passaram a ganhar espaço, como o da professora María Eugenia Lanzetti, de 44 anos, que apesar de ter obtido na Justiça uma ordem de restrição para impedir a aproximação do ex-marido, não pôde evitar que ele entrasse em sua sala de aula e a matasse diante de seus alunos. Teve início, então, a campanha Ni Una Menos, encampada por alguns políticos e vários artistas e intelectuais, e que levou centenas de milhares de pessoas às ruas de Buenos Aires e de grandes cidades do interior. Apesar de ter aprovado nos últimos anos leis liberais sobre direitos civis, como o matrimônio gay e a morte digna, o aborto segue sendo um tabu. A atual presidente, Cristina Kirchner, vem colocando todo o tipo de impedimento para que o tema não avance no Congresso. Hoje, na Argentina, só se pode abortar em caso de mal-formação do feto e estupro. Os grupos de defesa dos direitos da mulher também pedem a aprovação do feminicídio e a criminalização do assédio verbal.

No Peru, alguns grupos feministas levantaram o assunto. Mas quem se destacou mesmo foi a ex-jogadora de vôlei e técnica da seleção nacional, Natália Málaga, que gravou um vídeo em que levava mães disfarçadas de mulheres mais jovens e usando roupas sexy, fazendo com que provocassem uma cantada dos próprios filhos. Vários caíram na armação. Ao serem desmascarados, os homens levavam um choque. A campanha se chamava “Assobie para a sua mãe” e junto à Marcha das Putas e campanhas de grupos como Alfombra Roja fizeram pressão para que o Congresso aprovasse, em março, uma lei de prevenção e punição do assédio nas ruas.

Na Bolívia, atua o Mujeres Creando, grupo liderado pela cineasta e ativista María Galindo (cujo trabalho foi exibido na última Bienal de São Paulo). Ali, o trabalho é bem mais difícil, devido à forte herança patriarcal que vem dos tempos da Colônia e das tradições indígenas, que colocam a mulher em posição de submissão. Galindo é uma ferrenha crítica das políticas de assistência do governo Evo Morales, pois estas quase que exclusivamente premiam e apoiam apenas mulheres que têm filhos e que levam uma vida comunal, resignadas sob a autoridade dos caciques locais, em geral nas povoações afastadas de La Paz. Galindo, que vive na capital boliviana e viaja pelo mundo levando a causa das mulheres em seu país, também acusa e registra denúncias contra comportamentos machistas de Morales _famoso por suas piadas depreciando mulheres_ e de membros de seu governo. A mais séria foi a de um estupro cometido por um membro de um governo local contra uma empregada de limpeza de um edifício público. A Bolívia é o país em que mais mulheres morrem todos os dias devido à violência doméstica. Galindo também é conhecida por ações mais folclóricas, como invadir o palco de concursos de beleza para denunciar a “coisificação das mulheres” ou de fazer perguntas incômodas a políticos.

O grito está no ar, e aparente as brasileiras que foram à Paulista na última semana não estão sozinhas.