Vovô Salvador Allende

Por Sylvia Colombo
Cartaz do filme "Allende, mi Abuelo Allende" (Foto Divulgação)
Cartaz do filme “Allende, mi Abuelo Allende” (Foto Divulgação)

Festejado em Cannes e exibido no último Festival do Rio (ainda sem data para estreia comercial), o filme “Allende Mi Abuelo Allende” é um exemplo da particularidade do caso chileno no que diz respeito à reflexão da sociedade sobre os efeitos da longa ditadura militar (1973-90). Diferentemente da Argentina, por exemplo, onde a investigação e o julgamento dos crimes da repressão foram muito mais rápidos, o Chile de um modo geral optou por um silêncio que para alguns soa conciliador, para outros cúmplice.

Agora, mais de 40 anos após o golpe, há um novo movimento da sociedade. Histórias ocultas têm vindo à tona, algumas em forma de delações e rompimentos de pactos de segredo, julgamentos têm sido retomados ou levados adiante, e uma nova produção de livros e filmes humaniza os personagens, oferecendo leituras e releituras ao debate.

Um filme como “Allende Mi Abuelo Allende” talvez não fosse possível se seu autor não tivesse um olhar estrangeiro. Para a neta do ex-presidente, Marcia Tambutti Allende, que cresceu no exílio, no México, era difícil entender porque seus familiares no Chile jamais falavam da vida pessoal do avô. Fica evidente o fato de ter-se formado num país mais aberto e plural que o conservador país andino. E é com essa inquietação que ela volta à terra-natal, em 2007, inquirindo, por vezes com certa agressividade, os familiares.

 

No princípio, fica a sensação de que não sairá muita coisa dos relatos tímidos e das fotos amarelas que vão sendo mostrados. Aos poucos, porém, mesmo com poucas palavras, os familiares vão revelando as contradições e segredos do clã. As principais a se colocarem na defensiva são a avó de Marcia, Hortência (“Tencha”), mulher de Allende, e uma de suas filhas, a hoje senadora Isabel. Ambas tentam fazer com que a documentarista pare de perguntar sobre as (muitas) infidelidades do avô. Ou que não vá tão a fundo na busca por saber como a morte repentina e motivada por questões políticas de Allende impactou no espírito de cada um de seus filhos e netos.

O que incomoda Marcia, porém, não parece ser nem a questão moral nem a política, mas sim a resignação e o silêncio dos familiares com relação àquilo que os fazia sofrer. Para exemplificar de forma trágica o que pensa, surgem as histórias dos suicídios de alguns deles, o da irmã, da filha e do neto de Allende _este último ocorrido durante a gravação do filme.

Além das cenas em família, Marcia reuniu fotos pouco conhecidas de Allende com filhos e netos, ou na casa em que visitava uma das amantes, além de cenas históricas, como o comovente enterro de Estado que o ex-presidente teve ao fim da ditadura. As cenas finais, que mostram uma conversa entre todos os sobreviventes do clã, ainda travados, mas soltando aos poucos lembranças e mesmo piadas, revelam que Marcia avançou, ainda que devagar, em seu propósito. Tornou visível, ainda, a razão cultural pela qual o Chile vem fazendo de forma tão lenta a revisão de seu passado.