E a Colômbia leva um susto com a própria beleza

Por Sylvia Colombo

Lembro-me da primeira vez em que fui à Colômbia, no começo dos anos 2000, e era impossível viajar por terra. Ou pelo menos assim me assustaram, e muito. “Vá a Cartagena de avião! Não visite os Llanos! Nem pense atravessar a floresta!”. A razão era que a guerrilha andava sequestrando gente que nada tinha a ver com sua luta contra o Estado colombiano. A mata estava cheia de celas com civis esperando resgate. Era um, dos muitos, modos de ganhar dinheiro das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e de outros grupos.

Alguns anos depois, continuei enfrentando problemas. Tive abortada no meio do caminho uma tentativa de ir ao sul, saindo de Bogotá, por medo do guia que dirigia o carro. Depois, numa viagem pela rota de Gabriel García Márquez (1927-2014) para conhecer Aracataca, a cidade que deu origem a Macondo, e o incrível parque Tayrona, tive de parar várias vezes em bloqueios militares, mostrar passaporte, explicar o que estava fazendo, etc.

O fato é que sempre valeu muito à pena. As cidades coloniais, a linda costa, a paisagem andina ou de verde abundante eram de encher a vista, mesmo se você não pudesse parar por muito tempo para ficar olhando a paisagem tranquilamente.

De uns tempos para cá, já não tem sido assim, e a perspectiva é que tudo melhore ainda mais caso o acordo de paz entre governo e as Farc chegue a um final feliz, em março de 2016. Longe de terminar com a desigualdade, a violência e o narcotráfico, as negociações podem colocar um fim a um conflito que se iniciou há mais de 50 anos, mas tem suas raízes ainda mais atrás, no começo do século 19. Quem leu “Cem Anos de Solidão” deve se lembrar da passagem que diz: “El Coronel Aureliano Buendía promovió 32 guerras civiles y las perdió todas”, e do enredo em que várias gerações vão revivendo os pesadelos dos antepassados. O conflito com a guerrilha é assim, muitos colombianos não se lembram de como era a vida antes disso e tem histórias de antepassados vinculadas à violência.

Cartaz de "Colombia Magia Salvaje" (Foto Divulgação)
Cartaz de “Colombia Magia Salvaje” (Foto Divulgação)

Já seria motivo suficiente para animar os espíritos. E é assim que se vê, de um modo geral, a Colômbia hoje. Com PIB crescendo a 2,4% em 2015 (menos que nos anos anteriores, mas mais do que muitos países da região), a seleção de futebol dando alegrias com uma nova geração, instituições políticas funcionando melhor que no passado. Não podia ser diferente com relação à produção artística.

Aqui menciono apenas dois exemplos. Voltei de Medellín há quatro dias, ainda impressionada com as imagens do filme “Colômbia Magia Salvaje”, recorde de bilheteria que já atraiu mais de 1,5 milhão de pessoas aos cinemas. Sim, é um filme tipo documentário sobre as belezas do país. Uma super-produção rodada em 85 locações no país, retratando 38 espécies (há condor, urso, baleia, etc) e diversos ambientes de floresta, planície, costa, montanha, filmadas em terra, ar e água.

E por que um filme sobre natureza leva multidões a comprarem ingressos? Simplesmente porque boa parte desse país estava proibida aos próprios colombianos até outro dia. Estavam ao lado dessas maravilhas, mas impedidos pela guerra e pela violência de ir vê-las. Obviamente há interesse dos órgãos que promovem o turismo na produção e na divulgação do filme, mas isso está longe de ser ruim, trata-se de um novo setor da economia que se vitaliza.

O outro exemplo nessa linha é o novo clipe do cantor popular Carlos Vives, um mito do pop folclórico nacional. Numa regravação de um antigo hit, “La Tierra del Olvido”, o artista visita outros pontos de imensa beleza natural e reúne artistas de várias gerações para propagandear o país.

Nos bicudos tempos atuais, é animador ver tanto entusiasmo tão pertinho de nós. As dificuldades que a Colômbia enfrentará nos próximos meses e anos não são poucas. Mas que essa euforia ajuda, não tenho dúvidas. Bem que podia ser contagioso!