Por que o papa citou um trecho do “Martín Fierro”?

Por Sylvia Colombo
Capa do livro "Martín Fierro", de José Hernandez (Foto: Reprodução)
Capa do livro “Martín Fierro”, de José Hernandez (Foto: Reprodução)

Causou furor entre os argentinos o fato de o papa ter citado uma famosa frase do clássico “Martín Fierro” (1872) nesta sexta (25), na ONU, em sua visita aos Estados Unidos. A obra é uma espécie de texto fundacional do país, com o qual as crianças argentinas têm contato desde cedo, e até a idade adulta continuam sabendo de cor várias partes desse longo poema épico.

Como quase tudo na Argentina é tema de debate apaixonado e muita discórdia, não há um consenso de que essa obra deveria ser assim tão valorizada. A disputa não se dá por conta de sua qualidade literária, mas pelo tipo de país que ela sugere. Mas por que?

 

O século 19, após a Independência, foi um momento de formação da identidade nacional e de formulação das propostas políticas que deveriam guiar o país. Muitos historiadores argentinos que se dedicam ao período enxergam aí o início da cisão social que se vê hoje. Naquele tempo de guerras, enfrentavam-se os partidários de um sistema tradicional de divisão de terras entre grandes proprietários, estruturado em torno de líderes carismáticos (os caudilhos) e que não queriam a implementação de ideias ou sistemas políticos europeus “modernos” nas Américas. Eram os chamados “federalistas”.

De outro lado, estavam os “unitários”, que queriam um país de economia liberal, menos rural e livre das amarras coloniais. Este país seria comandado com vigor por Buenos Aires, e as províncias teriam muito menos autonomia do que queriam os “federalistas”. Estavam entre os “unitários” intelectuais, políticos progressistas e integrantes da elite. Defendiam que o país tivesse também uma Constituição de inspiração Iluminista e voltada ao progresso.

O intelectual, político e filho de imigrantes José Hernandez, autor do "Martín Fierro" (Foto Arquivo)
O intelectual, político e filho de imigrantes José Hernandez, autor do “Martín Fierro” (Foto Arquivo)

O “Martín Fierro” é o livro que descreve os sentimentos da Argentina tradicional diante da chegada da modernidade. É, portanto, um texto conservador. O poema de José Hernandez conta a saga de um “gaucho”, tipo simples e camponês, que é tirado de suas terras, onde vivia numa pobreza resignada, para integrar o exército formado em Buenos Aires que viajaria ao distante Sul para levar a nova ordem, as novas leis, o que os “unitários” chamavam de “civilização. E por que “Martín Fierro” se transforma em herói? Justamente porque ele foge dessa obrigação, é um soldado desertor, porque não se conforma com a Argentina que vem pela frente e prefere a ordem e a tradição coloniais.

 

Obviamente, aqueles que olhavam para o futuro e sonhavam com um país mais aberto, recebendo imigrantes, urbanizado e industrializado, achavam o “Martín Fierro” o fim da picada. O livro que representava esse pensamento mais progressista era outro, escrito por um autor fantástico, Domingo Faustino Sarmiento, que depois seria presidente da República. Chama-se “Facundo” (1845) e se trata de um ensaio político em que o autor faz uma espécie de biografia de Facundo Quiroga, um caudilho tido como sanguinário que mantinha seu poder na base do terror e da temida “degola”. A ideia de Sarmiento no livro era retratar Quiroga como contra-exemplo. O caudilho aparecia como algo anacrônico, brutal e equivocado, uma verdadeira trava para a modernização. Deveria ser superado no processo de deixar para trás o mundo colonial. 

Os dois livros acabam traduzindo uma divisão política que atravessou o século 19, e transplantou-se para o 20. Com a chegada de Perón, a dicotomia se reacomodou, mas usando essas bases do passado. Em 1974, deprimido com a volta do general do exílio reassumindo a presidência, o anti-peronista Jorge Luis Borges disse que a canonização do “Martín Fierro” (1899-1986) tinha sido um erro fatal. “Nossa história seria outra, e seria melhor, se tivéssemos canonizado o ‘Facundo’ em vez do ‘Martín Fierro'”. Basicamente, o que o autor de “O Aleph” lamentava era que os argentinos ainda permanecessem divididos entre os que preferiam preservar uma ordem colonial e caudilhesca no lugar de abraçar a modernidade. Como ele, muitos intelectuais manifestaram que preferiam que seus compatriotas valorizassem o mundo das leis, das instituições e do progresso, sugeridos pelo “Facundo”, e não o das lideranças carismáticas e agarradas ao passado, como o “Martín Fierro”.

Voltando ao papa, sua origem é a ação da Igreja nas favelas e comunidades carentes de Buenos Aires, o mesmo espaço usado pelo peronismo construir sua base de apoio. Tanto os padres católicos que atuavam nessas áreas como Perón usavam o mesmo tipo de linguajar carismático e paternalista. Depois de eleito presidente, Perón se enfrentaria com a Igreja, mas até então usou os mesmos recursos para fundamentar seu poder, como mostra de maneira didática e bem argumentada o historiador Loris Zanatta, em “Perón y el Mito de la Nación Católica”.

Quando se discute hoje se Francisco é pró ou contra Cristina Kirchner, ou que pode apoiar ou não o candidato do governo nas eleições, apenas se toca na pontinha desse debate. Na verdade, talvez Francisco hoje esteja mais próximo do peronismo do que muitos políticos que se dizem hoje peronistas, como Cristina e os kirchneristas e também as diferentes vertentes desse bloco. O seu peronismo é praticamente “atemporal”, e é por isso que ele não se mete no xadrez da política nacional atual.

Não é por acaso, portanto, que Francisco citou o “Martín Fierro”, foi mais uma de suas pontuações sobre a que Argentina ele pertence e em qual dos dois modelos de país acredita. Também, um pouco, de que modo quer ser lembrado nas biografias.

Aqui, a citação do papa hoje na ONU.