Em Buenos Aires, J.M. Coetzee critica mediação de editoras

Por Sylvia Colombo
O escritor sul-africano J.M. Coetzee, em Buenos Aires (Foto La Nación)
O escritor sul-africano J.M. Coetzee, em Buenos Aires (Foto La Nación)

Quem se lembra do sisudo e calado J.M. Coetzee que esteve na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2007 não reconheceria o autor sul-africano nos dias de hoje. Na última quinta-feira (24), o autor de “Desonra” (Companhia das Letras) participou de um animado debate sobre as conexões entre as literaturas do Sul, ao lado dos escritores argentinos Hernán Ronsino e Matilde Sánchez, e dos também sul-africanos Ivan Vladislavic e Zoë Wicomb. No auditório do Malba (Museo Latinoamericano de Buenos Aires), os convidados apontaram pontos em comum entre a temática e o formato usados nas letras de países “sulistas”, como a Argentina, a Austrália e a África do Sul. O encontro integrou a programação do Festival de Literatura de Buenos Aires, que ocorre até domingo na capital argentina, em Montevidéu e em Santiago.

Como não poderia deixar de ser, o papo começou com uma citação de Jorge Luis Borges (1899-1986), em que o autor do “Aleph” critica a ideia de que existisse uma literatura nacional. Ronsino concordou, citando a exagerada obsessão de autores argentinos de perguntar-se o que é a tradição literária e a identidade cultural típica do país. Coetzee foi um pouco mais incisivo, abrindo o leque da discussão. “A ideia de uma literatura nacional é algo que pertence à Europa do século 19, quando havia a necessidade de que os países tivessem uma língua nacional, um hino nacional, um herói nacional e uma literatura nacional. Depois, essa ideia teve continuidade durante o processo de descolonização, em que as novas nações da América e da África também queriam ter língua, hino, literatura próprias, como forma de legitimar sua independência. Isso tende a se dissolver, concordo com Borges quando diz que as literaturas ditas nacionais tendem a se dissolver. Os escritores devem se libertar, faz parte do processo de globalização. O sentido forte de pertencimento a um lugar é algo dos quais os autores vão passar a se distanciar.”

Já Sánchez chamou a atenção para o fato de esse processo não ser tão rápido e de serem necessários mais intercâmbios. Afirmou que não apenas é de se lamentar que a literatura sul-africana seja pouco conhecida por aqui, mas que também há uma dificuldade de autores latino-americanos de conhecerem a si mesmos. “Não sabemos o que está sendo publicado no Uruguai, que está a uma hora de barco daqui, ou no Chile ou na Colômbia”. Coetzee pegou carona no comentário para fazer uma crítica ao mercado e à indústria do livro. “O fato de a literatura latino-americana não estar conectada, de que autores colombianos sejam pouco conhecidos na Argentina ou que chilenos não sejam lidos no Uruguai não se refere a uma questão cultural. Isso é uma questão comercial. Temos um problema que é depender demais das editoras, que definem quem vai ser lido aqui ou ali, quem vai ser transportado, quem vai ser traduzido.”

Coetzee caminha entre estandes da Feira do Livro de Buenos Aires, em abril (foto Divulgação)
Coetzee caminha entre estandes da Feira do Livro de Buenos Aires, em abril (foto Divulgação)

 

Como questões em comum, os autores apontaram uma semelhança nos temas de hoje, que voltam a se referir aos anos difíceis tanto da África do Sul, durante o “apartheid” (1948-1994), e a Argentina, durante a ditadura militar (1976-83). Enquanto no país africano, como explicaram os autores presentes, foi comum a literatura de protesto naquele período, no pós-apartheid a literatura se despolitizou, dando lugar a um “boom” de ficção comercial. Agora, disseram os panelistas, há um retorno ao tema da segregação, de maneira menos engajada e mais poética. No caso da Argentina, concordaram os locais, ocorre algo parecido. A ditadura sendo revisitada hoje por outras vias menos maniqueístas. “O que não temos, definitivamente, é nada que tenha sido deixado pelo ‘outro lado’, nenhum monumento literário daqueles que perpetraram a segregação”, concluiu Coetzee, ao que Matilde Sánchez concordou. “Aqui também, não há literatura, cinema, nada, daqueles que estavam do outro lado, o da repressão”. Ao que Coetzee arrematou dizendo: “excelente”, levantando aplausos e risos da plateia.

Coetzee tem vindo seguidamente a Buenos Aires, só para o Filba, é a segunda vez. Neste ano, além de participar da Feira do Livro, em abril, também coordenou uma cátedra sobre as “literaturas do sul”, do Centro de Estudos Latinoamericanos da Escola de Humanidades da Unsam (Universidade de San Martín).