Na Bolívia, Evo quer ser infinito e Sandra Bullock roda comédia

Por Sylvia Colombo

A atriz Sandra Bullock é a estrela de “Our Brand is Crisis”, uma versão ficcional de filme homônimo de 2005, de Rachel Boynton. Tratava-se de um interessante documentário sobre a campanha do candidato Gonzalo Sánchez de Lozada, em 2002, realizada por um escritório norte-americano. A tarefa, então, era virar um jogo difícil, Goni (como o chamam os bolivianos) estava a mais de 20 pontos de diferença atrás do hoje presidente Evo Morales. A entrada dos marqueteiros dos EUA foi essencial na vitória do candidato liberal _Morales só se elegeria na disputa seguinte.

O trailer da nova versão (link acima), que conta também com Billy Bob Thorton e tem produção de George Clooney, acaba de ser lançado e sugere uma comédia comercial, com uma Bolívia meio caricata como cenário (as rodagens foram feitas em La Paz, Los Angeles e Porto Rico), bem diferente do documentário nervoso e cheio de suspense original. A produção vai ao festival de Toronto antes de estrear.

Enquanto isso, na Bolívia real, a sucessão presidencial voltou a ser assunto. No começo da semana, Morales afirmou que aprova a convocação de um plebiscito para que se altere a Constituição, concedendo a ele a oportunidade de disputar um quarto mandato. No poder desde 2006, Morales promulgou uma nova Carta em 2009, que só permitia uma reeleição. Em 2010, venceu novamente. Depois, obteve aprovação da Suprema Corte para disputar uma terceira vez, em 2014, com o argumento de que sua primeira eleição havia sido antes da aprovação da nova Constituição. Agora, seu partido (o MAS) e movimentos sociais indígenas estão na campanha de “Evo infinito” e ele manifestou seu apoio. “O povo saberá decidir. Não há que se temer o povo. O mais democrático é fazer o referendo.” Acrescentou, ainda, que empresários o haviam procurado para perguntar: “O que será da Bolívia sem você?”.

A oposição contesta a nova estratégia, mas Evo tem mais de 2/3 do Congresso, portanto mesmo sem o referendo possui maioria para mexer no texto. Analistas dizem que o presidente busca fazer isso logo, enquanto sua aprovação popular ainda é alta. O governo teme um desgaste uma vez que o país terá um crescimento menor neste ano e sua economia está sofrendo o impacto das crises brasileira e argentina _seus principais compradores de gás.

A três dias da eleição presidencial de 2014, entrevistei Morales no Palácio Quemado, sede do governo boliviano, em La Paz. Perguntei se seria candidato outra vez. “Eu vou obedecer a Constituição”, limitou-se a responder. Só não disse se era a Constituição vigente ou a que pode alterar a qualquer momento…

O presidente boliviano Evo Morales (Foto Reuters)
O presidente boliviano Evo Morales (Foto Reuters)