Livros voltarão às estantes vazias da biblioteca de Borges

Por Sylvia Colombo
O escritor Jorge Luis Borges, na antiga sede da Biblioteca Nacional (Foto Arquivo)
O escritor Jorge Luis Borges, na antiga sede da Biblioteca Nacional (Foto Arquivo)

Dava um aperto no coração entrar no lindo edifício da antiga sede da Biblioteca Nacional, na rua México, no bairro de San Telmo. A última vez em que estive ali, há uns anos, para fazer uma matéria sobre os locais de Jorge Luis Borges (1899-1986) em Buenos Aires, o responsável pela segurança me disse: “Prepare-se, geralmente as pessoas ficam angustiadas quando olham para as paredes.” De fato, era difícil evitar o aperto no coração ao ver as estantes, do chão ao teto, salão após salão, todas vazias. Ao lado delas, ainda continuavam ali as placas que indicavam os temas das seções “História”, “Literatura Moderna”, e assim por diante.

Pois na última semana, o diretor da Biblioteca Nacional (que desde 1992 funciona em outro edifício), Horácio Gonzalez, e a ministra de Cultura da Argentina, Teresa Parodi, anunciaram que o local voltará a receber livros do acervo. O episódio é apenas mais um da novela da difícil relação entre Borges e os governos peronistas.

O autor de “O Aleph” era um ferrenho crítico do governo de Juan Domingo Perón (1895-1974). Nos anos 40, durante o primeiro mandato do general, Borges perdeu seu emprego na biblioteca Miguel Cané e designado, de maneira humilhante, inspetor de galinhas e coelhos.

Quando Perón foi derrubado do poder por um golpe militar, em 1955, Borges foi então indicado pelo novo regime para dirigir a Biblioteca Nacional. A ironia é que, aos 56 anos, o autor já estava cego. E escreveria sobre aquela “magnífica ironia” de Deus, que lhe havia dado, “de uma só vez os livros e a noite”.

Poder apenas adivinhar os títulos das lombadas não o impediu de estar à frente da instituição por quase 18 anos. Em 1973, com o retorno de Perón à Presidência após longo exílio, Borges perdeu novamente o emprego. Enquanto isso, o imenso acervo da Biblioteca começava a se mudar. Hoje, a instituição funciona num novo edifício, por sua vez erigido no local onde antes havia sido a residência de Perón e Eva e que os militares que o sucederam destruíram, com medo de que virasse um local de peregrinação.

As estantes vazias do edifício da Biblioteca Nacional, rua México (Foto Arquivo)
As estantes vazias do edifício da Biblioteca Nacional, rua México (Foto Arquivo)

Ao edifício da rua México, restou ser utilizado por outros órgãos culturais, como a escola de dança, que adaptou seus salões para os ensaios das bailarinas. Durante o atual governo peronista, o legado de autores que foram críticos a Perón, como Cortázar e Borges vinha sendo tratado com discrição _as efemérides, por exemplo, receberam tratamento apenas burocrático.

Portanto, é um bom sinal que, neste fim de ciclo kirchnerista, algumas contas pendentes sejam acertadas. Devolver os livros para a Biblioteca Nacional, lugar icônico da Buenos Aires de Borges, é prestar uma homenagem merecida ao autor. Nas velhas estantes cabem mais ou menos 100 mil livros. O diretor da instituição, Horácio González, diz que serão privilegiados títulos de história, literatura e pensamento argentinos.

É possível que Borges torcesse o nariz para a transformação do local num monumento apenas patriótico, ele que sempre foi um escritor tão universal. Mas certamente o escritor apreciaria ver o local cheio de livros outra vez. Tomara que seu acesso seja fácil e livre e dê vida nova ao local.

Fachada da antiga sede da Biblioteca Nacional, no bairro de San Telmo (Foto Reprodução)
Fachada da antiga sede da Biblioteca Nacional, no bairro de San Telmo (Foto Reprodução)