A América Central vive sua “primavera”?

Por Sylvia Colombo
Manifestante protesta na Guatemala (Foto Reuters)
Manifestante protesta na Guatemala (Foto Reuters)

Alguns analistas vêm chamando o que começou a ocorrer nos últimos meses nos países da América Central de “primavera”, evocando o termo utilizado para designar o grito e as manifestações dos países árabes, em 2011. A própria prestigiada revista britânica “The Economist” levantou a discussão há duas semanas, ao tratar dos protestos contra a corrupção do governo em Honduras e na Guatemala.

Mas não só esses dois países que passam por momentos de tensão social e política na região. Em El Salvador, há uma inquietação crescente devido ao aumento do número de assassinatos, e na Nicaragua, um movimento de indignação da população indígena e rural por conta das obras para a construção de um polêmico canal atravessando o país e de ambientalistas. Abaixo, um breve resumo das tensões, e porque elas podem se transformar num processo de mudança maior.

Guatemala, a maior economia da região, é um país de 15 milhões de habitantes, vive uma crise política sem precedentes. A uma semana da eleição presidencial, o atual mandatário, Otto Pérez Molina, enfrenta a possibilidade de sofrer um “impeachment”, processo já iniciado com a autorização da Corte Suprema para que perca a imunidade. Junto com outros membros da cúpula do governo, Pérez Molina é acusado de envolvimento com um esquema que desviava 50% dos recursos aduaneiros do país. Há semanas, os guatemaltecos lotam a Plaza de la Constitución pedindo sua renúncia.

Manifestantes em Tegicucalpa, Honduras (Foto La Prensa)
Manifestantes em Tegicucalpa, Honduras (Foto La Prensa)

Honduras, o país de 8 milhões de habitantes vive desde maio uma onda de protestos causados pela denúncia de um jornalista de que o presidente, Juan Orlando Hernández, estava vinculado a um esquema de corrupção que cobrava propinas e desviava verbas do sistema de saúde nacional, num valor de mais de US$ 300 milhões. Como na Guatemala, as manifestações começaram a ser chamadas pelas redes sociais, e pedem a saída do presidente.

Já El Salvador, país de 6 milhões de habitantes, vive um processo mais lento e amedrontado. Nos últimos meses, passou Honduras em índices de violência e já é o país onde mais pessoas morrem assassinadas no mundo, excetuando-se os que vivem guerras. Isso se deve ao enfrentamento de gangues formadas por salvadorenhos deportados dos EUA e que por muito tempo mantiveram uma trégua, agora rompida. Em agosto, o país teve seu mês mais sangrento, com 750 pessoas mortas, uma média de 27,7 por dia. Há alguns meses, a beatificação do monsenhor Romero, morto durante a guerra civil, reuniu centenas de milhares de pessoas, que também saíram a reclamar da violência que jamais desapareceu, mesmo com o fim do guerra civil.

Protesto contra a construção do canal na Nicaragua (Foto ABC)
Protesto contra a construção do canal na Nicaragua (Foto ABC)

Na Nicaragua, onde vivem 6 milhões de pessoas, o presidente Daniel Ortega, após empregar parentes na alta cúpula do governo, assinou acordo com uma empresa chinesa para a construção de um canal para competir com o do Panamá. O contrato foi recebido com resistência pela oposição e, principalmente, por moradores das áreas que serão destruídas no interior do país. Manifestações e corte de estradas passaram a ser comuns. Também os ambientalistas saíram à público, apontando o caráter que consideram destrutivo da obra, como o provável fim do lago Nicaragua, principal provedor de água potável do país.

Se esses quadros podem evoluir juntos por uma transformação regional na direção de uma democracia mais madura e menos corrupta, não sabemos, mas que há uma inquietação presente e cada vez maior na região é evidente.