“Há uma completa distorção do pensamento de Bolívar”, diz biógrafa

Por Sylvia Colombo
A historiadora e jornalista peruana Marie Arana, autora de Bolívar (Foto Divulgação)
A historiadora e jornalista peruana Marie Arana, autora de Bolívar (Foto Divulgação)

Nesta semana, entrevistei Marie Arana, 65, historiadora e jornalista nascida no Peru, mas radicada nos EUA desde os 10 anos de idade. Membro do conselho da Biblioteca do Congresso, em Washington, ela dedicou seus últimos anos ao estudo de um dos personagens mais famosos e controversos da América Latina, Simón Bolívar (1783-1830). A reportagem sobre o livro, lançado aqui pelo Três Estrelas, está na Ilustrada de hoje.

Abaixo, o que não coube no papel da conversa com a autora.

Folha – Esquerdistas e direitistas hoje discutem o “bolivarianismo” de forma equivocada?

Marie Arana – Sim, “bolivarianismo” se transformou num termo apelativo para a direita e para a esquerda contemporâneas, ainda que nem direita nem esquerda professem nada remotamente similar ao que poderiam ser chamados de pensamentos ou ideais bolivarianos.

A Alba (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra America), criada por Hugo Chávez (1954-2013), está comprometida com o socialismo. Chávez entendeu a noção de pan-americanismo de Bolívar como sendo uma aliança da América Latina contra os grandes poderes. Principalmente os EUA.

Mas Bolívar não era um esquerdista em nenhuma maneira que remotamente possa estar representada no atual espectro político. Ele considerou a si mesmo como um liberal.

Acreditou nos direitos do homem, no impulso democrático, nos princípios da liberdade. Mas ele também frequentemente se apoiou em políticas conservadoras: num Exército forte, numa Igreja forte,  numa ditadura forte quando o caos ameaçou se instalar.

E creio que ele renunciaria de forma veemente aos ideais marxistas como são conhecidos hoje.

“Bolivarianismo”, em seu sentido verdadeiro _no sentido que Bolívar imaginaria em seu tempo_, dificilmente é um sinônimo para a esquerda contemporânea.

Tampouco estaria alinhado com a direita como a conhecemos hoje. O termo “bolivarianista”, como vem sendo usado nas discussões políticas de hoje na América Latina, é simplesmente errado e anacrônico. Uma completa distorção das crenças de Bolívar.

Busto de Simón Bolívar (Foto Reuters)
Busto de Simón Bolívar (Foto Reuters)

Folha – Há mais de 2 mil biografias e estudos sobre Bolívar. Por que acredita que a América Latina valoriza tanto esses próceres? É uma região que precisa mais de heróis políticos do que outras?

Arana – O mais importante episódio vivido pela América Latina até hoje foi sua revolução contra o poder espanhol. Algo que até hoje é difícil de superar, mesmo com 500 anos de história depois disso.

Continuamos a viver com o legado colonial. A colonização nos ensinou, por exemplo, que o branco é melhor. Que ser negro era um problema. Que latino-americanos não deveriam compartilhar uma identidade. Que não deveriam comunicar-se. Que não deveríamos ser um poder econômico independente.

Na imaginação ibérica, éramos uma raça inferior.

As guerras de Independência deveriam ter nos livrado de tudo isso. Deveriam ter varrido esse passado e nos levado a um modo distinto de pensar nossa América. Mas elas não o fizeram. Então, do modo como vejo, a revolução na América Latina foi incompleta. Ainda engatinha. E, obviamente, revoluções precisam de heróis.

É por isso que ainda estamos discutindo se Bolívar merece ser um, até hoje.

Folha – Seu livro trabalha muito com a questão racial. Como Bolívar foi mudando de opinião a respeito do assunto?

Arana – Quando a revolução ia pela metade, Bolívar percebeu que havia muita raiva contra os brancos, que os brancos poderiam ser massacrados (como ocorreu no Haiti) e varridos inteiramente do mapa. No começo, havia mais brancos do que negros ou indígenas lutando pela revolução. Essa dinâmica mudou, obviamente, mas a raça foi um item definidor das guerras latino-americanas de independência.

Diferentemente da revolução norte-americana, onde “igualdade” era apenas para brancos. Diferentemente da revolução na França, onde a questão racial nem teve importância.

Raça foi sempre aquilo que caracterizou o caráter singular das lutas na América Latina. Somos a maior população mesclada do mundo. Mas ainda temos problemas em aceitar isso.

Folha – Quão difícil foi para você estudar Bolívar quando esse assunto é muitas vezes interpretado apenas de maneira ideológica?

Arana – Foi muito difícil porque as opiniões sobre ele continuam sendo muito apaixonadas. Às vezes de modo irracional.

Folha – Em seu país, aliás, o Peru, ele não é nada querido…

Arana – Bolívar foi odiado no Peru porque ele era da Venezuela, portanto um “sambo” _oposto de um mestiço ou um indígena, como a maioria dos peruanos. Também porque reduziu o que era antes a principal e mais rica colônia espanhola (o Vice-Reino do Peru) a um país muito menor e menos importante.

Na Colômbia e no Equador, era odiado por ser um estrangeiro que não respeitava essas nações. Ele queria total unidade da América.

E na Espanha, obviamente, os historiadores também são muito parciais quanto a Bolívar.

Encontrar meu caminho num meio tão ideologizado foi muito complicado. A minha pesquisa se baseia em documentos primários. E em nada que foi escrito depois disso.

Folha – Como Bolívar se relaciona com o conflito entre “civilização” e “barbárie” que alimentou o debate de ideias em outros lugares do continente no século 19? Esse conflito ainda existe na discussão sobre a época?

Arana – É uma questão absolutamente atual. Nas discussões sobre nossos problemas, ainda exste a noção de que uma “tradição” latino-americana é um obstáculo para a “civilização”.

A região ainda luta com a modernização, com a ideia de que tem de adotar noções ocidentais de democratização e medidas globais de sucesso econômico.

Estou esperando pelo líder latino-americano que irá sair dessas definições e construir nossa própria estrada para o progresso.

Bolívar esteve perto disso, mas sua visão de longo prazo ficou nublada por problemas de curto-prazo.

Esse tem sido nosso dilema por muito tempo.

Folha – Qual a principal dificuldade de explicar a América Latina para os norte-americanos?

Arana – Eu nasci no Peru, mas aos 10 anos me mudei para os EUA. Obviamente, como dizia Gabriel García Márquez, nossos corações e mentes são moldados quando temos 8 anos, então eu cheguei nos EUA como uma pessoa muito latino-americana.

Sempre me espantei com a falta de compreensão entre Norte e Sul do continente. O Sul entende o Norte bem melhor, porque lidamos com o Norte todo o tempo. Mas o Norte não entende o Sul, porque norte-americanos nunca foram ensinados a pensar no que há ao sul da fronteira. Isso ainda não mudou. Está mudando, por conta da imigração, que está fazendo com que o Norte fique mais sulino a cada minuto.

Se há algo que um jovem cidadão dos EUA precisa entender, é a identidade latino-americana, a possibilidade latino-americana, o futuro latino-americano.

Foi isso que tentei explicar ao longo da minha carreira.