Por que Donald Trump deveria temer Jorge Ramos?

Por Sylvia Colombo
Capa da revista "Time" com Jorge Ramos (Foto Divulgação)
Capa da revista “Time” com Jorge Ramos (Foto Divulgação)

O pré-candidato presidencial Donald Trump expulsou um jornalista que lhe fazia perguntas que considerou impertinentes (o vídeo está ao fim do post) durante uma entrevista coletiva em Iowa, na última terça. Poderia este ser apenas mais um episódio que revela o comportamento intolerante com o qual Trump vem pavimentando seu caminho na disputa pela vaga republicana na eleição. Quando anunciou sua candidatura, Trump disse que os imigrantes vindos do México para os EUA eram, em sua maioria, “estupradores” e “assassinos”, causando reação negativa imediata dentro e fora da comunidade hispânica.

Desta vez, porém, Trump pode ter calculado mal o alvo. O jornalista a quem respondeu agressivamente, e que ao fim mandou que saísse da sala, é nada menos que uma das figuras mais influentes dentro do eleitorado latino nos EUA _que corresponde a cerca de 16 milhões de votos.

Aos 57 anos, Jorge Ramos nasceu no México, migrou para os EUA ao 25 e hoje é cidadão norte-americano. Âncora da Univisión, apresenta o telenoticiário mais visto por esse público em todo o país. No ano passado, foi incluído na lista das personalidades mais influentes do mundo realizado pela revista “Time”, ao lado de chefes de governo como Obama, Merkel e Xi Jinping.

Os vídeos abaixo são um exemplo do tipo de jornalista que Ramos é.

A primeira entrevista com Hugo Chávez (1954-2013) foi realizada antes das eleições de 1998, e ficou conhecida como a “entrevista das três mentiras” do venezuelano. Nela, o líder disse que entregaria o poder ao final de seu mandato, que não estatizaria nenhuma empresa e que respeitaria os meios de comunicação. Todos sabemos que não foi bem assim. Na segunda, um Chávez já bastante mais agressivo tenta constranger, sem sucesso, Ramos em uma conversa marcada para um povoado distante, e cercada de apoiadores e militares.

Abaixo, duas de suas entrevistas que ficaram famosas. Na primeira, em 2009, Ramos pergunta ao então pré-candidato mexicano Enrique Peña Nieto qual era a razão da morte misteriosa de sua primeira mulher, jamais explicada de forma clara até então. Peña Nieto se atrapalha e não consegue dizer o nome da doença que ela sofria. Na segunda entrevista, Ramos refere-se ao fato e pergunta se são certos os rumores de que ele poderia ter participado em sua morte. Peña Nieto mais uma vez mostra seu despreparo em comunicar-se, que seria futuramente confirmado em episódios também trágicos, como o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa. Ambos viralizaram nas redes.

 

No caso da entrevista da última terça, o episódio ganha relevo por tratar do sensível tema da imigração, em período pré-eleitoral. Um assunto com o qual Ramos vem se envolvendo há vários anos. O jornalista já havia conseguido que Obama prometesse reformar as leis na área, para que fosse possível regulamentar os mais de 11 milhões de imigrantes ilegais hoje nos EUA. Até hoje, Ramos o cobra publicamente disso. Em 2014, atravessou a nado o Rio Grande, para mostrar quais eram os perigos e as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes que chegam aos EUA.

As perguntas que Ramos fez a Trump tinham como objetivo que explicasse concretamente como ele pretendia colocar em prática o que vem prometendo: construir um muro na fronteira do México com os EUA e deportar os ilegais. Entre as medidas apresentadas pelo bilionário, Ramos apontou que algumas não eram possíveis de acordo com a Constituição. Trump usou ironia: “Sou um construtor, claro que posso construir um muro”. Depois, acrescentou que achava injusto que “uma mulher atravesse grávida a fronteira, tenha o bebê aqui e nós temos de cuidar dele por 80 anos?”.

A expulsão de Ramos repercutiu nesta quarta (26) durante todo o dia e pode marcar o início da derrocada de Trump. Ramos é segunda liderança latina mais reconhecida dos EUA, ficando atrás apenas da juíza da Suprema Corte, Sonia Sotomayor, e seu telediário é visto todos os dias por 2 milhões de pessoas.

Como relatou o “New York Times”, que já chamou Ramos de Walter Cronkite do mundo latino, grande parte da mídia hispânica dos EUA saiu em defesa do apresentador. Enquanto isso, o “Los Angeles Times” apontou as razões pelas quais  Trump parecia ter escolhido “a estrela errada da mídia” para atacar, sendo a última delas o fato de que o mexicano-americano é um “glutão do conflito e não dá marcha atrás”.

Já a repórter da CNN Christiane Amanpour escreveu que, “se há alguém que pode girar a chave nessas eleições, esse alguém é Ramos. Além disso, ele deve faze-lo”.

Não faltaram colegas, porém, que criticaram sua militância excessiva pela causa da imigração e que afirmam que seu modo de assediar os políticos é anti-jornalístico. Há os que consideram que o ego de Ramos hoje é maior do que seu compromisso com os fatos. E causa surpresa reparar na gravação que os jornalistas de outros meios presentes na coletiva não fizeram nada para defende-lo, nem mesmo se levantaram com ele, mostrando algum tipo de repúdio pelo comportamento do bilionário.

Em seu blog, “The Intercept”, Glenn Greenwald, o jornalista que revelou os segredos de Edward Snowden saiu em seu favor. “O que Ramos fez é puro jornalismo em sua clássica e nobre expressão: Ele confrontou agressivamente um político que está dizendo que vai fazer coisas horríveis”.

A saudável falta de unanimidade dos colegas mostra que há, também, uma discussão sobre a cobertura jornalística da campanha norte-americana neste momento. Resta saber para que lado irá e o episódio de terça deve sugerir um caminho.

Em entrevista ao então correspondente da Folha em Washington, Raul Juste Lores, há alguns meses, Ramos explicou porque achava que os jornalistas latinos iam ter voz expressiva nesse momento. “Há 55 milhões de latinos nos EUA, mas 16 milhões devem votar na eleição de 2016. As pessoas sem voz esperam que nós, jornalistas, falemos por elas. Obama ganhou por 5 milhões de votos. Quem pode ignorar 16 milhões?”.