Murmúrios e almas penadas de Juan Rulfo completam 60 anos

Por Sylvia Colombo
Cena de "Pedro Páramo", levado ao cinema por Carlos Velo (Foto Divulgação)
Cena de “Pedro Páramo”, levado ao cinema por Carlos Velo (Foto Divulgação)

“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal Pedro Páramo. Minha mãe me disse. E eu lhe prometi que viria a vê-lo depois que ela morresse. Apertei suas mãos indicando que o faria, pois ela estava morrendo e eu, na situação de prometer-lhe tudo. ´Não deixe de ir visita-lo´, me recomendou. Seu nome é diferente. Estou certa de que ele gostará de te conhecer.´ Então não pude fazer outra coisa, mas dizer-lhe que assim o faria, e de tanto dize-lo, continuei dizendo, mesmo depois que minhas mãos tiveram trabalho para soltar-se de suas mãos mortas.” (*)

O principal romance da literatura mexicana, e um dos mais importantes do mundo no século 20, completa seis décadas de publicação. Enquanto no México o aniversário é celebrado, no Brasil só com muito custo podem-se encontrar exemplares de “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo (1917-1986). Nas principais livrarias virtuais, as edições lançadas pela Paz e Terra (trad. Eliane Zaguri, 1998) e Record (trad. Eric Nepumoceno, 2004) estão esgotadas, e não parece haver movimento para reeditar o livro na comemoração da efeméride.

“Pedro Páramo”, cujo título inicial era “Los Murmullos”, conta a história do jovem Juan Preciado, que viaja à cidade de Comala, a princípio a contragosto, para atender o último desejo da mãe, que acaba de morrer. Nada parece inusual, até que o viajante começa a perceber que seu caminho não apenas não tem volta, como destina-se a um local e tempo que não alcança entender. Às portas de Comala, cidade em ruínas, sabe mais detalhes sobre o pai. Páramo era um cacique local, um homem cruel que destratou mulheres e filhos, e que já estava morto havia muitos anos. O rapaz se espanta. Está num lugar desconhecido, mas todos parecem saber quem ele é. Entre as pessoas com quem fala, alguns também se dizem filhos de Páramo. Logo, vai dando-se conta de que não apenas o pai morrera, mas que todos os que encontra naquela localidade esquecida estão, também, mortos. E, como se não bastasse, quando o romance já vai pela metade, o próprio protagonista morre, e se desvanece na narrativa, enquanto a história se divide entre a Comala do tempo em que as pessoas nela viviam e a de agora, onde as almas apenas vagam sem rumo e sem destino. É o momento em que o leitor tende a ficar mais incomodado, e retornar ao parágrafo inicial confirma essa sensação. Preciado diz “vim a Comala”, e não “fui a Comala”. Ou seja, a narrativa vem das entranhas do mundo dos mortos, de onde o protagonista jamais saiu e provavelmente ainda está no momento em que o lemos.

O mundo que Rulfo retrata aí é o do abandono que predomina no México profundo até os dias de hoje. Tendo nascido no Estado de Guadalajara e crescido nos povoados do interior, o escritor vivenciou como predominavam a pobreza e a violência nessas regiões no período após a Revolução Mexicana (1910) e a Guerra Cristera (1926-1929). No original em espanhol, é possível notar como Rulfo incorporou o modo de falar, as palavras usadas na região e principalmente os silêncios que predominam na comunicação entre os que aí vivem. Em Comala, ninguém mais vive, estão todos condenados a um limbo em que nada ocorre, almas penadas que apenas repetem um tempo em que foram miseráveis e que jamais terá fim. Como comentou o escritor Juan Villoro certa ocasião, “Pedro Páramo” é um romance sobre “gente tão esquecida a quem está proibido até que mesmo que algo lhe aconteça”. Viajar pelo interior de alguns Estados hoje é entender a longa história e a atualidade desse texto de poucas palavras. 

Uma das incríveis capas de "Pedro Páramo", edição em inglês (Foto Divulgação)
Uma das incríveis capas de “Pedro Páramo”, edição em inglês (Foto Divulgação)

Houve quem localizasse a obra no nascedouro do “realismo mágico”, por ser uma inspiração e referência declaradas de Gabriel García Márquez (1927-2014). Também foi definido como livro fundamental de um chamado “modernismo gótico” local. Mais do que os rótulos, o romance interessa pelo diálogo direto com a relação peculiar que os mexicanos sempre tiveram com a morte. Ao mesmo tempo, é um retrato social das consequências da violência e da sequência de guerras que o país viveu desde o começo do século passado. Se o livro em português é difícil de achar, pelo menos o filme completo está no youtube.com e também é outro clássico (link abaixo). Lançado em 1967, dirigido por Carlos Velo, tem roteiro de Carlos Fuentes e cinematografia de Gabriel Figueroa.

Homem de poucas palavras, Rulfo escreveu pouco. Além de “Pedro Páramo”, lançado quando tinha 38 anos, publicou “El Llano en Llamas” (1953), fez roteiros e fotografou muito. Sua obra vale ser conhecida e celebrada.

(*) tradução minha mesmo, como não encontrei a edição esgotada em português, traduzo do original em espanhol