A encruzilhada de Mauricio Macri

Por Sylvia Colombo
Mauricio Macri, no dia em que foi liberado pelos sequestradores, em 1991 (Foto: La Nación)
Mauricio Macri, no dia em que foi liberado pelos sequestradores, em 1991 (Foto: La Nación)

Numa madrugada fria do inverno portenho de 1991, o filho de Franco Macri, um dos empresários mais poderosos da Argentina, chegava à sua casa, em Barrio Parque, área nobre de Buenos Aires. Abordado por desconhecidos, primeiro levou um soco na cara. Depois, foi obrigado a tirar a roupa. Encapuzado e amordaçado, meteram-no numa kombi e o levaram dali.

Aos 32, o engenheiro Mauricio Macri começara havia pouco a trabalhar numa das empresas da família [o Grupo Macri, que atua nas áreas de construção, indústria automobilística, alimentação e coleta de lixo, na Argentina, no Brasil e no Uruguai].

Nos doze dias em que passou em cativeiro, conta que falava apenas com o homem que lhe trazia comida e que gostava de conversar sobre futebol. O sujeito dizia ser torcedor do Boca Juniors, o clube mais popular da Argentina. Numa dessas ocasiões, para ganhar sua confiança, Macri lhe disse: “Sabe de uma coisa? Quando eu sair daqui, vou ser presidente do Boca.” O sequestro terminou quando seu pai pagou o resgate de US$ 6 milhões.

Quatro anos depois, Macri de fato se sentaria na cadeira de presidente do Boca, de onde só sairia em 2007. Durante uma gestão considerada vitoriosa pelos torcedores, criou um fundo para compra de jogadores e reformou parte do estádio da Bombonera. Mas o que o tornou realmente popular entre os “xeneizes” foram os 17 títulos que o clube obteve _onze deles internacionais.

A partir daí, Macri já não seria apenas o filho de um empresário famoso, e o sucesso no comando do Boca o animou a candidatar-se, primeiro, a deputado. A imprensa da época, então, começou a compará-lo ao italiano Silvio Berlusconi, ex-primeiro-ministro e dono do Milan.

Politicamente, passou a se vender como um homem que, sozinho, fora capaz de superar uma adversidade pessoal, alcançar seu sonho e ser um bom gestor.

Sua identidade política passaria a estar, para sempre, ligada à ideia de meritocracia. Isso se reforçava pelo exemplo familiar, o pai era um imigrante italiano que chegara à Argentina sem dinheiro e que, por conta do próprio esforço, logo se transformara num dos principais empresários do país.

Em 2005, Macri criou o PRO (Proposta Republicana), que se propunha a ser uma alternativa moderna, não-ideológica, contrapondo-se aos partidos tradicionais argentinos (o peronista e a União Cívica Radical). Oportunamente, o grupo pegou carona no grito das ruas. O que se pedia nos protestos que tomaram Buenos Aires durante a grave crise econômica de 2001 era que todos os políticos tradicionais simplesmente dessem o fora (“que se vayan todos”).

Pois Macri e o PRO cresceriam nesse vazio, defendendo um discurso de eficiência de gestão, no lugar da tradicional política, apontada por eles como corrupta e baseada em velhos conchavos.

Em 2007, esse discurso o elegeu pela primeira vez como chefe de governo da cidade de Buenos Aires. O cargo é muito mais relevante que o de um simples prefeito. A capital argentina tem status de “cidade autônoma” e seus próprios ministérios de economia, saúde e segurança.

Em termos de prestígio e poder econômico, estar adiante da cidade é mais relevante do que governar qualquer outra das 23 províncias do país. Buenos Aires tem a renda per capita mais alta da Argentina e uma das mais altas de toda a América Latina.

À frente dela, Macri apostou em reformas urbanas modernizadoras, não sem um tanto de polêmica.

Criou ciclovias e faixas exclusivas de ônibus, melhorando o fluxo do trânsito na região central _o Metrobus, na avenida 9 de Julio, é o principal exemplo. Também alterou regras de zoneamento e favoreceu uma explosão imobiliária em toda a cidade, inclusive em bairros caracterizados por possuírem um casario histórico típico da cidade.

Com o argumento de melhorar o trânsito, Macri fez acordo com empresa ferroviária chinesa. Com isso, tirou de circulação vagões tradicionais do metrô de Buenos Aires _o mais antigo da América Latina, de 1919_ substituindo antigos e pitorescos vagões por modernas unidades asiáticas. A medida provocou protestos de organizações de proteção ao patrimônio.

Entre suas obras elogiadas na cidade está a reabertura do teatro Colón [fundado em 1857 e uma das principais casas de ópera e música clássica da América Latina], em 2010, após uma reforma de quase quatro anos, cheia de percalços políticos e dificuldades econômicas.

ANTI-CRISTINA

Do ponto de vista político, Macri utilizou sua gestão à frente da cidade para fazer a mais eficiente oposição aberta ao governo da presidente Cristina Kirchner.

De seu escritório de prefeito _que até o início do ano estava localizado num edifício que dá de cara à Casa Rosada, do outro lado da Plaza de Mayo_ Mauricio lançou ataques à política econômica intervencionista dos Kirchner, ao cerco do governo ao dólar e às estatizações promovidas no período, especialmente da petrolífera YPF, que à época chamou de “confisco”.

O mau desempenho econômico do país, atualmente com quase 30% de inflação, possibilitou que Mauricio concentrasse o sentimento anti-kirchnerista. Ao mesmo tempo, porém, o prefeito perdeu apoio de parte importante do empresariado aliado ao kirchnerismo. Basta dizer que mesmo seu próprio pai, hoje aos 85, não o apoia publicamente. O velho Franco Macri sempre preferiu que as empresas da família estivessem de bem com os presidentes da Argentina, fossem da procedência que fossem.

MATURIDADE POLÍTICA

O principal problema de Macri, porém, é a dificuldade que possui, por conta de seu estilo pessoal, para convencer o eleitorado de que é maduro para o cargo, apesar de já ter 56 anos e ser pai de quatro filhos.

Durante momentos tensos vividos pela cidade, durante os comuns “apagões” ou quedas de energia elétrica no verão, Macri se mostrou pouco ágil, quando não estava simplesmente de férias fora do país, assistindo a concertos de suas bandas de rock favoritas ou vendo partidas da Liga dos Campeões, na Europa.

Fã do ex-vocalista do Queen, Freddy Mercury, Macri por muito tempo ostentou um bigode como o do cantor. Quando eleito, em 2007, pagou uma promessa cantando “We Will Rock You” em péssimo inglês, em performance ridicularizada pela mídia e nas redes sociais.

Em 2011, chegou a manifestar sua vontade de se candidatar contra Cristina Kirchner, mas desistiu de repente, preferindo concorrer à reeleição na cidade, conquistada com 64,25% dos votos. A vitória não apagou a ideia de que tinha “amarelado” da competição principal.

Durante a campanha, Macri vem concentrando seus esforços em projetar sua candidatura para além da cidade de Buenos Aires e da classe média urbana, que compõe o grosso de seu eleitorado.

Para conquistar o apoio da população mais humilde e beneficiada pelos planos assistenciais do governo, principal base de apoio do kirchnerismo pelo país, prometeu manter a Assignação Universal por Filho, que têm 3,5 milhões de beneficiários.

Também mudou seu discurso com relação a alguns pontos, chegando a ser acusado de se “peronizar” um pouco. Passou a dizer que não alteraria o status estatal da YPF e da Aerolíneas Argentinas.

Em resumo, passou a “fazer política”, algo a que sempre se negara. Até que ponto isso não lhe custará o apoio de quem simpatiza com sua ideia de “governar sem ideologia”, é que as primárias mostrarão neste domingo.