Jon Lee Anderson e Ariel Dorfman comentam o caso “Quemados”

Por Sylvia Colombo

 

Carmen Gloria Quintana e um cartaz com a imagem de Rodrigo Rojas (Foto Reprodução)
Carmen Gloria Quintana e um cartaz com a imagem de Rodrigo Rojas (Foto Reprodução)

Depois que fechei a matéria sobre o caso “Quemados”, do Chile, publicada neste domingo, em Mundo, chegaram as respostas de duas pessoas a quem respeito muito e que gostaria de ter incluído na reportagem. Não deu, mas aqui reproduzo, então, seus depoimentos. São o escritor chileno Ariel Dorfman e o jornalista norte-americano, Jon Lee Anderson.

Ariel Dorfman, autor de “A Morte e a Donzela” e “Além do Medo”, amigo da família e um dos últimos a ver Rodrigo com vida. Saiu do Chile durante a ditadura e até hoje vive nos EUA.

 

“Rodrigo era nosso amigo em Washington e o vimos crescer longe de seu país, sempre com vontade de voltar. Esteve conosco alguns dias antes de sua morte. Nos surpreendeu a notícia do atentado terrorista contra ele (pois se tratava disso, aterrorizar a população que pedia a saída de Pinochet e que estava cada vez mais rebelde). Nós tínhamos, então, três objetivos: o primeiro era conseguir que Rodrigo e Carmen Gloria fossem atendidos em um hospital onde fosse possível salva-los. O segundo era que o governo permitisse que Verónica viesse dos EUA ao Chile (ela estava proibida de entrar no país) para estar com seu filho. E o terceiro era que se pudesse saber o que realmente acontecera. Ainda que, finalmente, Rodrigo tenha recebido atenção médica, terminou morrendo, mas ao menos Verónica pôde passar as últimas horas com ele, massageando seus pés, que eram a única parte do corpo que não estava queimada. O terceiro objetivo demorou todos esses anos em realizar-se. Pudemos, desde o princípio, recolher os depoimentos sobre o que havia ocorrido _mas as autoridades mentiam descaradamente, diziam que Rodrigo se havia auto-incendiado com um coquetel molotov! Que estejam fazendo Justiça agora não traz de volta um jovem bonito, cheio de projetos, dúvidas e um olhar sonolento, mas pelo menos aqueles que o queimaram vivo terão de enfrentar os olhos do mundo. Não queria chamar isso de consolo, mas é algo que nos permite respirar mais tranquilos. No caso de minha família, pelo fato de que denunciamos esse crime nos EUA, tivemos nossa pequena tragédia. Ao retornar ao Chile, eu fui preso. Depois, deportado, junto a meu filho de seis anos. Com isso, interromperam nossos planos de voltar ao Chile. Que os responsáveis por esse ato de terror sejam castigados é um ato de equilíbrio do universo moral.”

Jon Lee Anderson, autor de “Che” e jornalista da “The New Yorker”, cobre assuntos latino-americanos desde os anos 80.

“Os novos esclarecimentos no caso ´Quemados´ são muito benvindos. Como a própria presidente Michele Bachelet disse no começo da semana, é tempo de o Chile passar a limpo o passado e revelar os segredos da guerra suja que ainda existem. Apenas sociedades que realmente confrontam seu passado, ainda que este seja desagradável, podem ir adiante. No caso do Chile, esse caso assinala um horrível padrão de comportamento assassino das forças de segurança no regime de Pinochet, baseado em pressupostos ideológicos que passaram a fazer parte de seu DNA. Apenas identificando, isolando e extirpando essas monstruosidades, e com legítima vontade de que isso aconteça, é que é possível construir um Estado de Direito completo. Existe, talvez, uma analogia possível entre essa situação e o comportamento violento crônico e racista de policiais brancos com relação à população afro-americana, especialmente no sul dos EUA. Será tão surpreendente que esse comportamento exista hoje quando sabemos que, há duas gerações, ele era rotina? Leis podem mudar no papel, mas, se não forem implementadas com reais consequências para aqueles que as quebram, não podem impedir que os antigos hábitos se imponham e vivam para sempre.”