Sendero Luminoso, a volta dos que não foram e a eleição de 2016

Por Sylvia Colombo
O líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán (Foto Reuters)
O líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán (Foto Reuters)

“Por que você pergunta sobre a ´volta´ do Sendero Luminoso, se eles nunca foram embora?”. Ouvi muitas variações dessa mesma resposta quando percorri o interior dos Estados de Arequipa e Ayacucho, no Peru, em abril de 2014. Tinha ido, entre outras coisas, fazer uma reportagem sobre novos indícios de que a supostamente eliminada facção guerrilheira seguia na ativa (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/05/1448473-novo-sendero-luminoso-se-alia-ao-trafico.shtml). Os relatos que escutei tristemente confirmavam a hipótese. No interior do Peru, boa parte da população ainda teme e é subjugada a grupos de remanescentes do que foi a guerrilha responsável por um conflito com saldo de 70 mil mortos.

O grupo reapareceu no noticiário nesta terça-feira, com a liberação de 39 pessoas (13 mulheres e 26 crianças) que estavam em poder do grupo, segundo os relatos, em condições de escravidão. Enquanto isso, mais e mais evidências surgem de que o Sendero, agora transformado em poderoso cartel da droga, tem atuado em conexão com grupos de crime organizado de outros países da região.

Por que, então, o fim da guerrilha é tido por muitos como fato? É preciso voltar um pouco no tempo. O Sendero Luminoso surgiu no fim dos anos 1960, como uma dissidência do partido comunista peruano. Seu líder, o professor de filosofia Abimael Guzmán, havia visitado a China e voltara influenciado pelas ideias de Mao. Em sua ótima biografia do personagem (“A Quarta Espada”, Objetiva), o jornalista Santiago Roncagliolo conta que a agrupação de seguidores fanáticos formada por Guzmán era apenas uma entre as muitas surgidas no fim dos anos 60 entre estudantes universitários do interior do país. Em seus princípios, e ainda com poucos integrantes, avançaram contra o Estado peruano sem ter muito com o que lutar. O poder de convencimento ideológico e a sedução do discurso de Guzmán imprimiram ao movimento um impulso de violência tão fora do comum e muitas vezes suicida, que o Exército peruano, num primeiro momento, não soube como reagir e registrou numerosas baixas. As execuções  provocadas pelo bando podiam alcançar requintes de crueldade jamais vistos no Peru _há registros de apedrejamentos até a morte e de inimigos queimados em água fervente.

A guerra entre o Estado e a guerrilha se estendeu até 1992, quando o ditador Alberto Fujimori finalmente conseguiu prender o líder máximo da guerrilha, Abimael Guzmán. Acabar com o grupo terrorista havia se transformado em obsessão do então mandatário e as vitórias contra o grupo se transformaram em seu principal instrumento de propaganda política. Em nome de vencer a guerra, Fujimori por sua vez tomou decisões polêmicas e cometeu abusos de poder [assim como Guzmán, Fujimori está preso, em Lima]. Uma dessas decisões foi usar uma força paramilitar, as chamadas “guardias rurales”, para enfrentar o Sendero. Com Guzmán preso, Fujimori armou um espetáculo. Primeiro, vestiu-o com um uniforme de faixas pretas “como os que usam os prisioneiros em filmes do cinema”, em suas próprias palavras, e depois o exibiu detrás das grades. A imagem de “salvador do Peru” e do homem que encerrou o longo enfrentamento armado deram suporte político a seu sistema ditatorial, e até hoje sustentam a base dos fujimoristas que ainda existem, na sociedade e no Congresso.

Publicidade de Keiko Fujimori (Foto Divulgação)
Publicidade de Keiko Fujimori (Foto Divulgação)

Divulgar o fim do Sendero, portanto, era um discurso que interessava a uma ideia de consenso nacional apoiada por muitos peruanos, a partir dos anos 90. Com a real diminuição do número de mortes no interior, e o surgimento de outras crises políticas, desta vez ligadas a corrupção nos governos subsequentes de Alan García e Alejandro Toledo, o senderismo deixou de ser o protagonista do debate e da mídia _apesar de seguir sendo uma realidade ameaçadora às populações do interior. Os críticos do atual presidente, Ollanta Humala, o acusam, por sua vez, de não ter uma atitude agressiva com relação ao Sendero. No passado, porém, Humala integrou uma milícia nacionalista-indigenista que enfrentou o bando de Guzmán. E, já presidente, impediu que o braço político do Sendero, o Movadef, se registrasse oficialmente como partido. O fato é que suas ações não parecem suficientes, e notícias como as desta terça (28) comprovam que a região conhecida como VRAEM (Vale dos rios Apurimac, Ene e Mantaro) não parece estar controlada pelo Estado. E isso pode ter consequências políticas muito em breve.

Em abril do ano que vem, os peruanos irão as urnas para escolher o sucessor de Humala, e adivinhem quem é a favorita nas pesquisas? Ninguém menos que Keiko Fujimori, que com o discurso de linha-dura em matéria de segurança, deseja transmitir ao povo peruano que com o fujimorismo se vivia melhor. O Peru, apesar do ótimo crescimento econômico dos últimos anos (taxas mais altas da América do Sul em termos de crescimento do PIB na última década) não conseguiu fazer com que a boa performance melhorasse a vida da maioria da população mais humilde. Se, em Lima, veem-se novos empreendimentos imobiliários luxuosos pela orla, lindos shoppings e restaurantes para turistas estrangeiros, no interior a realidade difere pouco da dos anos 80. Diferentemente de outros países de grande população rural indígena, como o Equador, o crescimento econômico não se refletiu em planos significativos que permitissem um combate mais efetivo da pobreza _que vem caindo, mas a passo lentíssimo.

Se nos centros urbanos e entre uma população mais esclarecida, Fujimori é quase sinônimo de um palavrão, no interior do país, para muitos, ainda é um “pai dos pobres” e o defensor contra a extorsão e as mortes cometidas pelo Sendero. A ação do governo, agora, com relação à guerrilha, é crucial para a sucessão presidencial. Assim como atentar para os graves problemas de injustiça social e econômica ainda existentes no interior do país. Humala está impedido pela lei de se reeleger, mas pode evitar que o país caia de novo no fujimorismo. E mais, pode também, pelo menos, não ter de deixar o cargo como um dos presidentes menos populares da história do Peru democrático. Seu índice de aprovação, neste momento, está em torno de parcos 18%.