Caso “quemados”, justiça tardia no Chile

Por Sylvia Colombo

A ditadura chilena (1973-1990) durou muito tempo, a transição à democracia também foi lenta, e por conta disso, a discussão sobre a investigação e a possível punição dos abusos aos direitos humanos ocorridos no período vinha engatinhando, principalmente se comparada ao modo como ocorreu no país-vizinho, a Argentina, que já nos 1980 condenava pela primeira vez os chefes da repressão. Mas as últimas semanas têm trazido boas notícias a familiares e amigos de vítimas do terrorismo de Estado. No último dia 22, foram indiciados dez ex-oficiais militares pela morte do cantor e ativista Victor Jara, em 1973.

O fotógrafo chileno Rodrigo Rojas, queimado vivo em 1986 (Foto Reprodução)
O fotógrafo chileno Rodrigo Rojas, queimado vivo em 1986 (Foto Reprodução)

Já outro crime menos conhecido internacionalmente, mas igualmente doloroso, também teve um desfecho positivo nos últimos dias. Trata-se do medonho “caso quemados”, ocorrido em 1986. Nele, o jovem fotógrafo Rodrigo Rojas de Negri, de apenas 19 anos, foi incendiado enquanto registrava um protesto no bairro de Los Nogales, em Santiago. Rojas havia crescido nos EUA, para onde se mudara com a família, após a mãe, Verónica De Negri, uma apoiadora do governo deposto de Salvador Allende (1908-73), ser expulsa do país. Rojas estudara no Woodrow Wilson High School, em Washington, mas quis retornar ao país-natal para ver, fotografar e entender o que acontecia ali.

Sua história está bem contada, por amigos e familiares, no documentário “La Ciudad de los Fotógrafos” (Sebastián Moreno, 2006). Naquela tarde do dia 2, ele saíra junto com os manifestantes. Ao terem o protesto interrompido pelo Exército, a maioria deles fugiu, mas Rojas foi capturado junto à estudante de engenharia, Carmen Gloria Quintana, 18. Depois de apanharem, tiveram os corpos embebidos em gasolina. Segundo testemunhas que acompanharam a cena, os oficiais então colocaram fogo em ambos. Desesperada ao receber a notícia, De Negri tentou retornar Chile, mas foi impedida num primeiro momento. Chegou quando quase já era demasiado tarde, pôde passar apenas as últimas horas com o filho, que agonizava, até sua morte, em 6 de julho. Quintana sobreviveu, mas exilou-se no Canadá, onde passou por um calvário de cirurgias e terapias de recuperação. Ali vive até hoje. O filme, retrato sensível lançado no ano da morte do general Augusto Pinochet (1915-2006), expõe a peça-chave que foram os fotógrafos naqueles anos difíceis. Sem eles, seria dificílimo que o mundo soubesse o que acontecia no Chile.

Na última semana, o juiz chileno Mario Carroza, que também trabalha nas investigações da morte de Allende e do poeta Pablo Neruda (1904-73), pediu a prisão de sete oficiais, apontados por testemunhas como responsáveis pela morte de Rojas e os ferimentos a Quintana. A investigação revelou que a justificativa dada então por Pinochet (1915-2006), a de que ambos se haviam queimado sozinho, com material inflamável que poderiam eles mesmos estarem carregando, simplesmente não se sustentava. A morte de Rojas, que era residente nos EUA, colaborou para que este país começasse a mudar de posição e pressionar o regime chileno à abertura e à redemocratização.

No livro, “Condor”, sobre os crimes das ditaduras latino-americanas, do fotógrafo português João Pina, De Negri publicou um poema para o filho, que diz: “Chegou a hora de a sociedade/ Entender que, enquanto/ Não se castigarem os criminosos,/ Não houver Justiça,/ Não se conhecer a verdade,/ E não existir o respeito/ De compreender a dor/ dos outros em sua magnitude,/ de nada valem as definições.”