Donald Trump segue avanço contra os mexicanos

Por Sylvia Colombo

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O magnata Donald Trump iniciou, em junho, sua campanha para candidatar-se a presidente dos EUA pelo partido republicano usando uma declaração preconceituosa e xenófoba. “Quando o México manda seu povo [aos EUA], manda pessoas que têm um monte de problemas e que trazem esses problemas para nós. Eles trazem as drogas, trazem o crime, são estupradores. E alguns deles, eu admito, são boas pessoas.” Desde então, o multimilionário perdeu vários negócios, contratos e alianças empresariais que possuía com mexicanos. Na lista dos que reviram ou cancelaram vínculos com Trump estão Univision, NBC, Televisa e a rede Macy´s.

O caso é que a novela está longe de terminar, e pode ter impacto direto no modo como os latinos, agora importante fatia do eleitorado norte-americano, irão votar nas próximas eleições. Hoje vivem nos EUA quase 34 milhões de mexicanos, que trabalham em diferentes áreas da economia. Existem nada menos do que 600 mil negócios pertencentes a mexicanos no país hoje, produzindo um total de mais de US$ 17 bilhões a cada ano. De fato, há um sério problema nas fronteiras relacionado ao narcotráfico, e também muita violência e mortes causadas pelo trânsito de imigrantes ilegais. Ambos assuntos, porém, não se resolvem, como Trump propõe, proibindo a entrada de mexicanos nem de quaisquer outros latino-americanos no país, mas sim na esfera política e na elaboração e incremento de leis. A realidade também é um pouco mais complexa do que a equação de Trump sugere _o narcotráfico e a imigração ilegal apenas seguem existindo porque existem agentes e forças também do lado norte-americano, participando e lucrando com as atividades ilegais.

Mas Trump não está interessado em parecer equilibrado. Em entrevista a uma rádio de Nova York, no último fim de semana, o magnata voltou a reafirmar o que já havia dito. E foi além, pedindo um verdadeiro “boicote” ao México, além do “fechamento da fronteira”. “Temos que construir um muro. E eu posso construir um muro melhor do que todo mundo”, afirmou.

Valeu-se, ainda, da fuga cinematográfica do narcotraficante Joaquín “Chapo” Guzmán, na semana passada, de uma prisão mexicana, como “exemplo dos problemas do país”. E completou que o episódio apenas reforça suas declarações sobre a necessidade de selar de vez a fronteira.

Enquanto especialistas apontam a quase impossibilidade de se construir um muro com essas características ao longo da imensa linha (1.900 milhas), Trump recebeu críticas sarcásticas de analistas e de veículos de comunicação. Um de seus arqui-inimigos, o apresentador mexicano-americano Jorge Ramos, âncora da Univision e considerado uma das pessoas mais influentes nos EUA hoje, convocou os funcionários mexicanos de Trump a não trabalharem por um dia, para ver se suas empresas não quebrariam. Outro que não o perdoou foi o comediante Jon Stewart (http://thedailyshow.cc.com/videos/iumigd/slandero-gigante), com um divertido esquete ironizando o pré-candidato. Já o rapper cubano-americano Pitbull disse que Trump deveria “ficar de olho e tomar cuidado com o Chapo”, enquanto o espanhol Antonio Banderas disse, na entrega de um prêmio: “Nós, latinos, estamos unidos, ainda que Trump nos chute o traseiro”.

Mais do que risadas, porém, a intolerância da mensagem de Trump aos latino-americanos nos EUA é motivo para reflexão. Quem pensa que sua intenção de voto caiu por conta de seus ataques racistas se engana. Pelo contrário, pesquisas divulgadas no fim da semana passada o colocam adiante na corrida pela vaga republicana na corrida eleitoral. Sua mensagem parece falar diretamente a um eleitorado conservador e mais velho da sociedade, que ele chamou de “maioria silenciosa”, ou seja, brancos de classe média e alta, de meia-idade para cima, com medo de mudanças e da tendência de transformação dos EUA num país ainda mais diverso e multicultural.

Histriônico, evocando os trunfos dos EUA do passado e com um discurso muito nacionalista, Trump vai se firmando como um populista conservador com reais condições de falar direto ao coração de parte do eleitorado. Ainda que analistas apontem que suas chances de chegar mais longe sejam reduzidas, concordam que sua pré-candidatura possa compor um risco para as tentativas de aproximação dos republicanos aos votantes de origem latina.

É curioso, ainda, observar que quando surgem na América Latina líderes demagógicos, folclóricos e populistas como Trump, o fenômeno seja associado a certo atraso e primitivismo político existentes apenas aqui, ao sul do hemisfério. O sucesso do discurso de Trump nos EUA mostra que a questão é um pouco mais complexa.