A inacreditável entrevista de Cristina Kirchner

Por Sylvia Colombo

Todos os que cobrimos política argentina nos últimos tempos nos espantamos com a notícia do fim de semana no país-vizinho: Cristina Kirchner havia dado uma entrevista. Uma longa entrevista. E mais, a presidente argentina não falara a um meio “oficialista” ou a um canal estatal, mas a uma independente e respeitada publicação estrangeira. Além disso, abordara temas espinhosos, como a atual situação econômica do país e a morte misteriosa do promotor Alberto Nisman, que a acusava de encobrimento no caso da investigação da bomba que matou 85 pessoas em uma instituição judaica, em 1994. Desde que assumiu o poder, em 2007, a mandatária havia falado com apenas três jornalistas, todos eles kirchneristas.

As circunstâncias da divulgação do vídeo acima são curiosas, e restam ainda bastidores por descobrir. A gravação foi ao ar no sábado, mas não no site da revista “The New Yorker”, e sim no da própria Presidência. Orgulhosa de seu desempenho, Cristina mesma divulgou a conversa, por meio de sua conta de Twitter, elogiando o “multipremiado” jornalista que a conduzira, o norte-americano Dexter Filkins, um veterano de coberturas no Oriente Médio. Na revista impressa que chegou às bancas, a entrevista não surge editada como tal. Apenas algumas aspas do papo são usadas numa reportagem (“A Deadly Conspiracy in Buenos Aires?”) que é apenas um bom resumo do caso do promotor Nisman, mas que não traz nenhum fato novo sobre a complicada novela.

Entre as várias perguntas por responder neste episódio estão: por que Cristina deu a entrevista para a “New Yorker” depois de negar-se a falar com jornalistas argentinos e estrangeiros por todos esses anos? A revista tinha intenção de publica-la em vídeo em algum momento? (parece que não, pela postura física do repórter durante a gravação, pelo modo como a elogia longamente a fim de conquistar sua simpatia para as respostas, pela maneira como interrompe várias de suas declarações). Por que o jornalista em questão preferiu fazer uma entrevista elogiosa em vez de indaga-la mais diretamente sobre temas como inflação, enriquecimento ilícito da família Kirchner e acusações de corrupção de membros da alta cúpula do governo?

O repórter norte-americano Dexter Filkins entrevista a presidente Cristina Kirchner (Foto Casa Rosada)
O repórter norte-americano Dexter Filkins entrevista a presidente Cristina Kirchner (Foto Casa Rosada)

O que parece claro até aqui é apenas a motivação de Cristina para colocar o vídeo no ar antes que a revista saísse: defender-se do que surgiria na versão impressa e intimidar o próprio jornalista. Provavelmente informada do tom negativo da matéria, a presidente parece ter tentado, assim, minimizar as críticas que surgiram na reportagem propriamente dita. No papel, Filkins diz que a atual gestão é “ditatorial”, “corrupta” e “agressiva”. Mais letal para a mandatária, provavelmente, terão sido seus comentários estéticos, chamando-a de pessoa obcecada com a imagem, com referências a seu uso excessivo de botox e de maquiagem. Soltando o vídeo da gravação, Cristina expõe Filkins e suas contradições. Ao vivo, na cara dela, o repórter foi ameno e levantou a bola da presidente. Ao escrever, carregou a mão nos ataques a sua gestão e observações algo maldosas sobre sua aparência.

 

Do ponto de vista do conteúdo, contudo, há elementos a destacar. Vamos a eles.

* A poucos meses de deixar o cargo, Cristina reforça os pontos principais do chamado “relato” _conhecido como a versão oficial de intenções e atos kirchneristas. Diz-se diretamente envolvida com a militância e a resistência à ditadura (1976-1983), ao lado do marido, Néstor (morto em 2010), quando quem vivenciou o período diz que não foi bem assim, o casal Kirchner teria tido atuação discreta durante o regime, refugiando-se em seu mundo de negócios, na Patagônia. Afirma que os anos de democracia desde 1983 até a chegada de Néstor ao poder, em 2003, foram na verdade “pré-democráticos”, o que enfurece os defensores do legado de Raúl Alfonsín, e refere-se à década de 90 como a de um capitalismo selvagem que teria destruído a economia nacional, esquecendo-se de que se tratou de uma gestão do seu próprio partido e de que aquele que estava diante dele, Carlos Menem, é hoje um aliado importante do kirchnerismo. Também volta a reforçar que considera a atual política de direitos humanos uma invenção de seu marido, minimizando os julgamentos realizados anos 80 e o trabalho da Justiça e de entidades de familiares de vítimas até então.

* Com relação a economia, Cristina defendeu as políticas de Néstor e dela, discurso com o qual tentará cristalizar o final de seu mandato. Em suas palavras, teria sido a “década ganada”, com média de crescimento do PIB, uma postura rebelde com relação ao FMI e aos EUA, com um Estado muito intervencionista, um foco no aumento da capacidade de consumo da população, uma minimização do impacto negativo da inflação e muito protecionismo, embalado em discurso nacionalista. Cristina sugere, na entrevista, que a Argentina tem a fórmula para gestões falidas na área econômica na Europa.

* Sobre os ataques à embaixada de Israel (1992) e à AMIA (1994), sua resposta é confusa e conspirativa. Aqui, porém, parece dizer nas entrelinhas algo muito sério. Sem afirmar com todas as letras, mas pedindo que se considere o contexto do mundo de então, Cristina sugere que quem colocou as duas bombas que mataram mais de 100 pessoas foram israelenses ultradireitistas que não estavam de acordo com a política de Yitzhak Rabin de alcançar a paz com os árabes. Seguem os trechos: “Em 1992, quando explode a bomba na embaixada, esse foi o ano em que Rabin, um grande estadista israelense, fez sua campanha e chegou a primeiro-ministro de Israel. Todo o eixo de sua campanha em 1992 foi alcançar sua paz com Arafat e a OLP (…), coisa com a qual muitos não estavam de acordo.” E, mais adiante: “justamente no ano de 1994, onde justamente se estavam levando a cabo as negociações [com países árabes], ocorre a explosão da AMIA e, mais tarde, quase no ano seguinte, quando se assina a paz entre Shimon Peres, Rabin, Arafat, se produz depois de tudo isso o assassinato por parte de ultradireitistas israelenses desse grande estadista que foi Rabin”. Se a interpretação é essa mesma, caberia a Filkins ser mais incisivo e pedir que a Cristina expressasse isso de forma mais clara. E a ela, bancar a afirmação internacionalmente.

* Sobre a morte misteriosa do promotor Alberto Nisman, Cristina apenas desestima as acusações, diz que tudo se deve a um acerto de contas dentro do próprio serviço secreto (SIDE) e faz ironias desrespeitosas ao morto, dizendo que parece ser um caso digno de “Sherlock Holmes”. Segue o melhor trecho: “Sinceramente, escutei dizer que foram comandos iranianos, escutei dizer que foram crimes passionais, mas não escutei ninguém dizer que eu tivesse realmente algo que ver com isso. Realmente me parece que é uma visão absolutamente interessada e que não responde à realidade, em absoluto. Por uma razão muito simples, e já que estamos em ´Sherlock Holmes´, vamos fazer uma pergunta a la Sherlock Holmes. Diga-me ´a quem prejudicava mais a morte do fiscal Nisman logo depois de ter denunciado a presidente, seu chanceler e um deputado de traição a seu país e de conspirar com iranianos? A quem prejudicava mais a morte do fiscal Nisman? Conte-me você, Sherlock Holmes´.”

Se esta foi a última entrevista de Cristina Kirchner antes de deixar o poder, muitas perguntas continuam no ar.