Final da Copa América revive rivalidade histórica que quase virou guerra

Por Sylvia Colombo
O papa João Paulo 2, na assinatura do acordo que evitou a guerra entre Argentina e Chile (Foto Reprodução)
O papa João Paulo 2, na assinatura do acordo que evitou a guerra entre Argentina e Chile (Foto Reprodução)

Muita gente pensa que a maior rivalidade na América Latina é entre Brasil e Argentina, porém isso não é verdade. A final da Copa América que se joga nesta tarde em Santiago coloca frente a frente dois países que passaram sua história nacional cutucando-se, quando não chegaram às portas de um conflito armado seríssimo. Por sorte, os tempos são outros, e chilenos e argentinos já convivem bem melhor e pacificamente. Mas da história muita gente não esquece e muitos, infelizmente, ainda guardam rancor, dos dois lados da fronteira andina.

A bronca vem desde os tempos de formação de ambos os Estados nacionais, no século 19, com uma disputa acirrada pela fronteira patagônica. No centro do conflito, e dividida entre os dois países, ficou a imensa nação mapuche, que até hoje luta pela soberania de seu território.

Mas a coisa ficou séria mesmo no fim dos anos 1970, com o chamado “conflito de Beagle”, quando Argentina e Chile não chegaram a um acordo sobre a que pertenciam as ilhas que estão dentro e ao sul do canal. O conflito foi ficando tão sério que os dois países chegaram a posicionar suas Forças Armadas para uma invasão. Pergunte a seus amigos argentinos ou chilenos que viveram aquele tempo, e eles se lembrarão de uma espécie de pânico que tomou conta das populações, já certas de que viveriam uma guerra e suas consequências.

O conflito foi o primeiro desafio do papa João Paulo 2, recém-empossado, que acabou sendo o mediador, após a morte de João Paulo 1. Tanto Argentina como Chile viviam ditaduras de forte influência católica. Ou seja, apenas o papa parecia ter a autoridade necessária para enfrentar os generais Videla (Argentina) e Pinochet) e evitar o derramamento de sangue.

 

O segundo capítulo se deu em 1982, quando a Argentina invadiu as ilhas Malvinas (ou Falklands), dando início ao conflito que terminou com a derrota do país-vizinho. Enquanto vários países latino-americanos apoiaram a Argentina, o Chile fez diferente. O general Pinochet (que seguia no poder) ofereceu ajuda logística para as Forças Armadas britânicas, enviadas por Margaret Thatcher. Os dois, aliás, ficaram então bastante amigos, e Thatcher visitaria Pinochet quando este foi preso em Londres, em 1998. Até hoje, muito da subsistência das ilhas depende de um essencial apoio chileno _o suprimento de comida, frutas e remédios vêm dali, assim como os voos que conectam as ilhas ao continente partem da cidade sulina chilena de Punta Arenas.

Não se deve esquecer o passado, portanto há que se valorizar ainda mais a capacidade de um jogo como o de hoje, com estrelas como Alexis Sánchez, Vidal, Messi e Agüero, de reforçar os laços de boa vizinhança entre os dois países.