Francisco Goldman, a dor e o renascimento nas ruas da Cidade do México

Por Sylvia Colombo
O escritor norte-americano Francisco Goldman (Foto: Divulgação)
O escritor norte-americano Francisco Goldman (Foto: Divulgação)

Quando Francisco Goldman, 61, estava procurando entender como se orientar na megalópole que é a Cidade do México, alguém lhe recomendou o Guía Roji, um catálogo que apresenta, em 220 páginas de mapas, mais de 99 mil ruas e 6.400 bairros. O escritor tentou usa-lo mais ou menos como o “I Ching”: “abrir uma página qualquer, colocar meu dedo ali, e tentar dirigir até onde fosse. Era um jogo de acaso e destinação, se não de destino”, conta, em “The Interior Circuit” (Grove Press). Para isso, porém, ele teria de aprender a dirigir ali, o que, como conta no livro, não é o mesmo do que simplesmente dirigir.

O sexto livro desse interessante autor norte-americano parecerá familiar a quem leu “Diga o Nome Dela” (Companhia das Letras), obra em que relatou a morte de sua mulher, Aura Estrada, num acidente ocorrido no mar, numa viagem de passeio, pela costa mexicana. Em “The Interior Circuit” também é a trajetória pessoal do autor, desta vez desbravando a cidade em que escolheu viver, que guia a narrativa. Tudo começa quando, tentando enfrentar a barra de voltar a morar na Cidade do México, agora sem Aura, Goldman decide buscar uma escola de direção e cursar aulas, que lhe serviriam como uma espécie de terapia de reconciliação com as ruas nas quais havia sido feliz com a mulher. Surgem com vida os bairros onde hoje pulsa a vibração, cultural e intelectual, do chamado DF (Distrito Federal): Condesa e Roma.

Coincidindo com seu novo despertar na cidade, Goldman acompanhou a turbulenta campanha eleitoral de 2012. Enquanto o país elegia novamente um representante do PRI (Partido Revolucionário Institucional), marcando a volta do tradicional grupo ao poder (havia governado por 71 anos, e estado ausente nos últimos 12), as ruas da capital viram numerosos protestos e passeatas tentando impedir esse resultado. Cidade tradicionalmente de esquerda e mais progressista, o DF denunciava a estrutura corrupta do partido e criticava seu candidato, o atual presidente Enrique Peña Nieto. Goldman relata suas andanças em meio aos estudantes do grupo #yosoy132, e descreve o perfil político e social desses novos atores da história mexicana. Agora que o livro é lançado, a cidade volta a fervilhar por conta dos protestos contra o desaparecimento de 43 estudantes da escola rural de Ayotzinapa, supostamente mortos pela autoridade regional do Estado de Guerrero em ação com o narcotráfico. “Parece que isso estava sendo anunciado já em 2012″, diz.

Na entrevista abaixo, Goldman comenta o livro (ainda sem previsão de lançamento no Brasil), o momento atual do país, que terá eleições legislativas neste domingo (7), e ainda analisa as atuais manifestações na Guatemala, país onde viveu nos anos 80, assunto de seu livro “The Art of Political Murder: Who Killed the Bishop”. O país da América Central vive um período turbulento, com a denúncia de casos de corrupção que já derrubaram a vice-presidente e levaram a população às ruas para pedir a renúncia do primeiro mandatário, Otto Perez Molina. O autor foi professor na Universidade de Columbia, nos EUA, e atualmente escreve para a “The New Yorker”.

Folha – Em “The Interior Circuit”, novamente, sua experiência real conduz a narrativa.  É um recurso eficiente para explicar uma cidade tão complexa como a Cidade do México?
Francisco Goldman – Esse livro explora e narra meus “circuitos” pela cidade. Não pretendo ser um “expert” na Cidade do México, nem um grande conhecedor. Aqui, quis apenas contar minha relação e história com ela.
Folha – Como pensa que o movimento #yosoy132 impactou na forma de participação social dos mexicanos hoje? Quais são as semelhanças entre o que ocorreu nas ruas em 2012 e os protestos dos últimos meses, provocados pelos desaparecimentos de Ayotzinapa?
Goldman – Os manifestantes do #yosoy132 foram os primeiros a adivinhar o que ia significar o retorno do PRI ao poder, e gritaram isso aos quatro ventos. Ayotzinapa veio dois anos depois. É essencialmente o mesmo movimento _uma juventude que recusa o sistema político atual, esses partidos, autoritários, corruptos, submersos nos valores políticos do século passado, e que quer viver em uma sociedade moderna, com valores modernos e ideais democráticos _justiça, transparência, fim da impunidade, ênfase na educação, mais oportunidades. E que quer dizer que seus valores e desejos já estão neste século.
Folha – A região de Guerrero é uma das mais conflagradas, e hoje há muita insatisfação e revolta, principalmente depois do desaparecimentos dos estudantes. Como vê a situação ali?
Goldman – Guerrero vai seguir em convulsão. Muita gente ali está com raiva, e tem razão para isso. São muito lutadores, mas por outro lado, também, há sinais de cansaço, de uma sensação de derrota, de medo da violência. As autoridades e o crime organizado estão muito pesados lá. É muito difícil.
Folha – A cidade que escolhemos nem sempre é aquela em que nascemos ou na qual trabalhamos, como você se conectou de maneira tão intensa à Cidade do México?
Goldman – Foi o que tentei narrar em “The Interior Circuit”. São muitas coisas. Sempre me senti à vontade aqui. A Cidade do México me deu coisas que eu jamais encontrava em outras cidades, como Nova York. Aqui tenho tranquilidade e tempo para escrever. Há mais energia criativa aqui, mais espaço para viver a vida, nem tudo é dinheiro, como nos EUA. Você pode ser pobre e digno, algo que é impossível em Nova York. Obviamente, para a maioria das pessoas viver aqui é um desafio todos os dias, mas por toda a dificuldade que ela possa apresentar, isso também contribui para a grande energia criativa que existe aqui.
Essa cidade forjou uma identidade muito particular, de heróis “chilangos” [gíria para definir habitante do DF], sobreviventes, a cidade que, dentro do México, é o local da oposição, do futuro, da tolerância, do protesto, com uma visão moderna e global, mas também muito local. No plano pessoal, aqui encontrei grandes amigos e amores. Aqui perdi Aura, e isso me amarrou ainda mais a essa cidade. Aqui também conheci Jovi [atual companheira].
Folha – Você tem acompanhado os protestos na Guatemala, país onde nasceu sua mãe e onde você passou um tempo trabalhando?
Goldman – Estou acompanhando o que está acontecendo pelos jornais e pelo que contam os amigos, quero ir no mês que vem. Sem dúvida o país está vivendo um grande momento, sem precedentes. Este governo é criminoso. Obviamente eu sabia muito bem quem era Otto Perez Molina desde meus anos investigando e escrevendo “The Art of Political Murder: Who Killed the Bishop”. Todas as evidências, e as acusações do testemunho-chave indicam que ele foi um dos cérebros desse crime. Ali, agora, na Guatemala, o papel da comunidade internacional,  da Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala, é muito importante. Não há nada parecido no México.
Folha – E, enfim, você aprendeu a dirigir na Cidade do México?
Goldman – Eu sabia dirigir, mas não sabia faze-lo aqui, tinha muito medo. Agora já sei como, mas prefiro evitar. É horrível ter de dirigir aqui. O melhor é ficar em sua zona, caminhar ou usar a bicicleta.
Capa de "The Interior Circuit" (Foto: Divulgação)
Capa de “The Interior Circuit” (Foto: Divulgação)