Óscar Romero, e porque El Salvador precisa de muito mais do que um santo

Por Sylvia Colombo
Muro com grafite do Monsenhor Romero, em El Salvador
Muro com grafite do Monsenhor Romero, em El Salvador

É bastante raro que o povo de El Salvador tenha grandes alegrias coletivas. País que viveu afundado numa sangrenta guerra civil, entre 1979 e 1992, e que desde então elegeu governos democráticos corruptos que impossibilitaram a estabilização de suas instituições, El Salvador não deixou um minuto de ser pobre e violento.

O confronto entre guerrilhas e repressão militar dos anos 80 foi imediatamente substituído por outro, desta vez entre gangues formadas principalmente por ex-deportados dos EUA e com laços com o crime organizado em Los Angeles _cidade com a maior população salvadorenha fora do país.

O embate entre os bandos Mara Salvatrucha (MS-13) e Barrio 18 esteve suspenso entre 2012 e o fim do ano passado, mas a trégua foi recentemente quebrada, fazendo com que esse país de apenas 6 milhões de habitantes afundasse novamente em sangue.

Em El Salvador são assassinadas, diariamente, dezesseis pessoas, fazendo com que este seja um dos países mais perigosos do planeta, fora zonas onde há guerra declarada.

Nesse contexto, foi bonito ver a multidão em festa nas ruas de San Salvador neste último sábado. A população de origem mais humilde saiu às ruas para celebrar a beatificação do arcebispo Óscar Arnulfo Romero, assassinado por membros de um esquadrão da morte em pleno altar, em 1980, quando celebrava uma missa na capital.

A retomada do processo de canonização, iniciada por Bento 16, é uma vitória do papa Francisco, que conseguiu descongelar um debate travado por setores mais conservadores do Vaticano, que identificavam Romero com a Teologia da Libertação, coisa que jamais foi verdade.

A trajetória de Romero, aliás, é envolta em mitos e ainda causa muita controvérsia em El Salvador. Conservador em seus anos de formação e no começo de sua carreira eclesiástica, Romero chegou a ser um duro crítico da aproximação de padres da região com o marxismo. Em um sermão de 1978, declarou: “Uma igreja marxista não apenas seria autodestrutiva, mas também deixaria de ter sentido, porque o materialismo marxista destrói o significado transcendente da Igreja”.

Nos anos seguintes, porém, Romero mostraria simpatia pela mensagem de muitos membros da Teologia da Libertação, que viajavam às regiões remotas e pobres do continente para dizer aos fiéis mais humildes que sua pobreza não era uma vontade de Deus, mas consequência de uma injustiça política e social e que, portanto, não havia que resignar-se.

O jornalista Carlos Dada, do site “El Faro”, que desvendou detalhes do homicídio, contou em artigo recente na “New Yorker” que, quando era adolescente, lembrava-se dos sermões de Romero sendo transmitidos pelo rádio, ecoando em manchetes de jornais e na televisão. Seu nome ia projetando-se, enquanto setores conservadores da sociedade passavam a hostiliza-lo. O mesmo Dada conta que, na noite do assassinato, ouvia-se fogos e comemorações nos bairros ricos de San Salvador.

Em seus últimos sermões, Romero vinha pedindo abertamente que os militares parassem com as desaparições, as torturas e os assassinatos. “Em nome de Deus e dessa população que sofre e cujos gritos sobem aos Céus todos os dias, eu peço, eu ordeno que vocês, em nome de Deus, parem com a repressão”, disse em sua última missa.

Não adiantou, em seu funeral, o Exército abriu fogo contra a multidão de mais de 100 mil pessoas que o acompanhava. Não há número oficial de quantos morreram aí. Ao todo, a estimativa é de mais de 75 mil mortos durante o período da guerra civil.

Seria interessante que a beatificação de Romero não fosse apenas celebrada como uma vitória do setor progressista da Igreja. Na verdade, El Salvador não vive dias muitos melhores hoje em comparação com os anos da ditadura. A realidade de pobreza e de violência denunciadas então pelo religioso segue praticamente inalterada. Talvez pior, porque as milhares de mortes daqueles tempos não foram esclarecidas nem levadas à Justiça. O trauma da guerra civil, portanto, jamais foi superado, enquanto outra guerra segue dividindo a sociedade.

A imprensa do mundo todo viajou a San Salvador para cobrir a festa. Porém, esse episódio só terá sido realmente histórico se transcender a questão religiosa e aguçar um debate crítico sobre o passado recente de El Salvador, e se o país não voltar ao esquecimento da opinião pública internacional nem bem termine a festa. A guerra civil não irá acabar só porque Romero pode virar santo. Ali, é preciso mais do que a esperança de um milagre.