E o cinema argentino não para

Por Sylvia Colombo

Ainda não vi “La Patota”, o remake argentino que ganhou o prêmio da Crítica em Cannes, nesta semana. Mas quero reforçar que o filme original, de 1960, é de uma importância vital para entender a longevidade de alguns problemas sociais e políticos nas grandes cidades latino-americanas, assim como o peso da mão-forte do moralismo religioso ibérico no nosso imaginário. O link para ver o longa de Daniel Tinayre no Youtube está abaixo, e vai exigir um pouco de quem quiser assistir, afinal, é uma película de 55 anos atrás, filmada em preto-e-branco e sem legendas. Ainda assim, trata-se de um thriller do qual é difícil se desenroscar até que se produza o desenlace.

Conto um pouco da trama. A jovem Paulina Vidal Ugarte (Mirtha Legrand) é a filha de um severo juiz aposentado (José Cibrián) que não quer que a filha trabalhe. Paulina, porém, formada com louvores em filosofia, quer sair um pouco do bairro rico de Buenos Aires onde vivem para ajudar os menos afortunados. Está prestes a se casar com Alberto (Ignacio Quirós), uma espécie de noivo dos sonhos _às vésperas de formar-se em medicina, rico, respeitoso, bonito, e que tem um carrão. Depois de um verão de planos para um futuro juntos, Paulina vai até a escola para a qual foi destinada. Ali, é recebida pela diretora, uma senhora religiosa que reforça que o colégio é laico, mas que ela mesmo assim exige que os professores sejam católicos. E adverte que aquele bairro não é frequentado pelo “mesmo tipo de rapazes” com quem ela está acostumada, portanto aconselha que ela use roupas mais discretas para não provocar problemas. A moça faz pouco caso e, mesmo assim, resolve sair caminhando, já noite fechada. Um grupo de rapazes a vê de longe e decide atacá-la. A cena de estupro, para uma película de mais de meio século atrás, é bastante forte, e obviamente determina o rumo do filme. A moça decide seguir a vida sem buscar criminalizar os que a atacaram, como que sugerindo uma certa solidariedade social, e recusa a “ajuda” do pai, que a considera responsável por ter “dado mole” e se exposto. O velho juiz, escandalizado, quer que ela aborte às escondidas e suma por um tempo (“que tal um ano na Europa? Evitamos o escândalo”). Ela então sai de casa e vai para uma pensão, afasta-se também do noivo e quer manter a gravidez, perdoando seus agressores. As coisas se complicam quando ela se dá conta de que se trata de um grupo de seus próprios alunos. Legrand, uma mítica atriz e apresentadora argentina, hoje com 88 anos e ainda na ativa, tem excelente atuação, revelando, em sua própria postura contida, a imensidão da dor do personagem.

O cartaz do "La Patota" original, de 1960 (Foto Reprodução)
O cartaz do “La Patota” original, de 1960 (Foto Reprodução)

A nova versão do filme é dirigida por Santiago Mitre, do ótimo “El Estudiante” (2011), sobre a força da ideologia no debate político argentino, retratado a partir do ponto de vista universitário. O novo “La Patota” é uma co-produção Argentina-Brasil, que conta com a Videofilmes carioca. Nessa nova versão, a trama é atualizada para os dias de hoje e se passa em Misiones, província ao norte do país, na fronteira com o Brasil, onde Paulina (agora Dolores Fonzi) se radica para dar aulas numa escola rural. O pai da moça aqui é Óscar Martínez, talvez o melhor ator veterano argentino hoje em atividade (é o pai de Santiago, o menino que atropela a grávida, em “Relatos Selvagens”), enquanto o noivo é vivido por Esteban Lamothe, protagonista de “El Estudiante”.

Não é bom sinal que questões como crimes contra a mulher e a condenação do aborto ainda sejam graves e cercadas de tabus, mesmo passados 55 anos. Tampouco que as diferenças sociais e econômicas sigam sendo tão latentes. Resta saber o que Mitre aportou ao drama de 1960. Em Cannes, pelo visto, já foi aprovado.