Um papo com Edgardo Cozarinsky, em Buenos Aires

Por Sylvia Colombo
O escritor e cineasta argentino Edgardo Cozarinsky (Foto: Eterna Cadencia)
O escritor e cineasta argentino Edgardo Cozarinsky (Foto: Eterna Cadencia)

Quando se pensa em literatura argentina do século 20, o nome de Edgardo Cozarinsky, 76, não é o primeiro a surgir na mente do leitor brasileiro. Não apenas porque este autor de culto portenho seja pouco traduzido no Brasil (apenas “Borges Em e Sobre o Cinema” e “Vodu Urbano” foram editadas em português, pela Iluminuras). Mas também porque o autor evita os círculos literários tradicionais e sempre esteve dividido entre distintos mundos: França e Argentina, o cinema e a literatura, a ficção e um ensaio. Difícil de classificar e rotular, num país em que o posicionamento político é uma constante exigência social a um intelectual, Cozarinsky saiu do país durante a ditadura (1976-1983), e nunca se identificou com o peronismo. Apesar de dizer-se respeitoso com relação aos que morreram na luta contra o regime militar, não simpatiza com o modo como os guerrilheiros de então vivem hoje da nostalgia daqueles tempos, ou estão metidos no “negócio dos direitos humanos”.

Em tempos de Feira do Livro de Buenos Aires, publico aqui um papo que venho tendo com o autor há um par de meses, parte em conversas de café na cidade que tanto amamos, parte por e-mail, como prefere responder aos questionários de jornalistas. Cozarinsky acaba de lançar um filme, “Carta a Um Pai” (o seu era um judeu ucraniano que chegou à Argentina no fim do século 19), e tem um romance em gestação.

Folha – Em “Carta a Um Pai”, há dois aspectos que gostaria que comentasse. Primeiro, porque o chama “a um pai” e não “a meu pai”? Como é relatado no filme, ele morreu jovem e você não pôde fazer-lhe muitas perguntas. Em que sentido esta é uma investigação para conhecê-lo melhor? Em caso positivo, acredita que conseguiu?

Edgardo Cozarinsky – Escolhi chama-lo de “Carta a Um Pai” e não “ao pai” porque várias pessoas me perguntaram se estava baseado no famoso texto de Kafka e tive que explicar que não tinha nada a ver. Nunca pensei em chama-lo “a meu pai” porque, a pesar da carga de subjetividade do projeto, ou talvez por causa dela, quis separar o personagem de mim, objetivá-lo. É “um pai”, e queria que o vissem como indivíduo autônomo.

Sobre conhecê-lo melhor… Creio que acabei conhecendo a mim mesmo melhor. Sempre senti que não chego a conhecer totalmente os outros, sobretudo aqueles a quem quis muito, naquilo que têm de mais íntimo.

E esse mistério, esse segredo de todo indivíduo é o que me atrai, o que põe em movimento seja meu afeto, ou minha vontade de escrever ou filmar.

O que posso ter em comum com meu pai e com meu avô os outros podem ver melhor. Eu apenas vejo as diferenças, e são muitas, ainda que, com os anos, começo a descubrir alguns pontos em comum.

Folha – Você passou parte da vida fora da Argentina, em Paris. Como se sente hoje?

Cozarinsky – A França foi importante para mim num momento, mas hoje é Buenos Aires. E digo Buenos Aires e não a Argentina, porque me sinto antes de tudo uma pessoa urbana e um portenho.

Folha – Como vê o uso do humor em sua obra, e na tradição literária argentina?

Cozarinsky – A ironia é algo profundamente enraizado na sensibilidade de Buenos Aires, assim como, no extremo oposto, está o sentimentalismo e o patetismo do tango.

Borges me parece um autor irônico em sua atitude diante da erudição e da História.

Comigo o humor foi muito pontual, transmitiu uma vontade de provocar, invocando Marcel Proust e Henry James para dizer que todo romance surge da piada, e indo à Idade Média, e ao personagem da bruxa que o historiador Jules Michelet estudou, para buscar sua origem nesse saber feminino que está vedado aos homens.

Folha – Você diz que as batalhas dos anos 70 não foram as suas, mas que as respeita. Como vê o fato de que o debate cultural argentino esteja ainda tão marcado pelo que aconteceu nessa época? Ainda, em “Vodu Urbano”, você diz que a Argentina é “um país onde a História, longe de ser reescrita, é habilmente escamoteada, mumificada, e pode terminar como um país sem história nenhuma”. O que o incomoda na relação dos argentinos com a história?

Cozarinsky – Sempre senti que a militância armada estava chamando a repressão, e por outro lado o projeto de quase todos esses grupos era um regime como o cubano, ou seja, uma sociedade na qual eu não queria viver.

Os militantes que não foram assassinados pela ditadura cívico-militar hoje vivem da nostalgia de um heroísmo muitas vezes fantasiado, ou se reciclaram no negócio em que se transformaram os direitos humanos.

Não posso generalizar sobre os argentinos e sua relação com a História, pude escrever isso que você cita há trinta ou quarenta anos. Hoje, sou mais cético, ainda na negatividade.

Folha – Com relação ao exílio, Paris foi uma espécie de capital argentina dos exilados . Como era sua relação com eles naquela época?

Cozarinsky – De indivíduo para indivíduo, nunca com um grupo. Além disso, o que me interessava em Paris era a quantidade de gente de todas as partes do mundo que se podia encontrar lá, como num cruzamento de caminhos, tanto sul-americanos como gente da Europa do Leste, por exemplo. Era algo inédito para um habitante de Buenos Aires. Ou seja, não eram meus compatriotas aqueles que mais me podiam atrair…

Folha – Você conta que, em Paris, esteve por começar mais a sério a vida acadêmica, sob orientação de Roland Barthes, mas que isso não foi adiante. Por que? Você é um cético do academicismo e da vida universitária? Como a vê hoje?

Cozarinsky – Quando estudei Letras se lia muita literatura e esta não era enquadrada num marco de ideias. Hoje se lê teoria e os autores que podem ser objeto de estudo crítico ou teórico. Não digo que o passado tenha sido melhor, apenas que estava mais de acordo com meu temperamento.

O estudo da literatura, por outro lado, anestesiou minha vocação de escritor, que só ressurgiu, e com força, muitos anos mais tarde, quando senti que não podia perder mais tempo sem fazer o que sempre quis fazer.

Folha – Você conta que quando soube que seu amigo, o escritor Ricardo Piglia, andava doente, teve estímulo para ir conhecer o Vietnã. Em várias de tuas entrevistas você menciona a doença que teve em 1999 como um momento importante que o fez parar de perder tempo com coisas menos essenciais e com o que os outros diziam sobre você. Esses momentos de confrontação com a ideia de finitude humana marcam também a tua relação com tua obra? Como?

Cozarinsky – Totalmente, hoje eu não passo um dia sem escrever algo, não necessariamente útil ou bom, mas algo que dias mais tarde posso jogar fora, mas é como uma ginástica em minha relação com a palabra escrita, a única que me importa.

Minha doença em 1999 foi o impulso, a “patada na bunda” que me despertou, que me pôs em movimento. Já que marcas deixa no que eu escrevo, mais uma vez, podem ver melhor os que estão fora.

Não sou um escritor “atual”, isso eu sei, nem na linguagem nem nos temas, mas persisto no que é meu. Seria ridículo se, agora, me pusesse a imitar o que se faz nos dias de hoje.

Folha – Como vê Buenos Aires atualmente? Seus novos bairros, a gentrificação de vários quarteirões, as mudanças causadas pela indústria do turismo. O que há de bom e de mau no atual momento?

Cozarinsky – Distingo o horror de Puerto Madero, essas torres para milionários e delinquentes (com frequência são as mesmas pessoas), que tapam a vista do Rio da Prata, e que com prazer eu veria derrubadas. Distingo também o horror da gentrificação de tantos bairros, que não são apenas para os turistas.

Buenos Aires, com o mau e o bom, continua tendo uma energia que não encontro, por exemplo, em Paris.

Folha – Como vê a relação cultural entre Brasil e Argentina, principalmente no campo da cultura? Crê que a distância literária diminuiu, que há mais traduções de ambos os lados, ou ainda falta muito?

Cozarinsky – Creio que os laços estão se estreitando. No Brasil se traduz mais literatura argentina do que o contrário.

Tirando clássicos como Guimarães Rosa, e consagrados como Clarice Lispector, nos últimos anos autores como João Gilberto Noll, por exemplo, ganharam seguidores argentinos.

A mim, o que mais agradou recentemente foi um romance de Bernardo Carvalho, “Nove Noites”. Foi o que mais me sacudiu, mais ainda também do que qualquer romance argentino recente.

Mas, com relação a clássicos, fico sem dúvida com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.