“Road movie” expõe complexidade do México

Por Sylvia Colombo
Cena do filme mexicano "Güeros" (Foto: Divulgação)
Cena do filme mexicano “Güeros” (Foto: Divulgação)

Para entender uma cidade tão intensa, gigante e multicultural como o México DF, o diretor Alonso Ruizpalacios escolheu uma história que parece simples, mas que expõe a essência desse tão particular universo, desde como se estabelecem as relações ao modo como as pessoas se tratam, usam o idioma e distribuem-se na megalópole.

“Güeros”, premiada em Berlim e em San Sebastian, agora está em cartaz no circuito comercial mexicano, e tive a sorte de poder vê-la em uma das melhores salas da capital, no complexo Cineteca Nacional. Trata-se da história de quatro jovens que se encontram como que suspendidos no tempo. Três deles porque sua universidade está em greve (a inspiração para a história veio da grande greve da UNAM, em 99), o quarto, bem mais jovem, porque a mãe o mandou para longe de casa. Esse garoto, Tomas (Sebastian Aguirre), é quem dá movimento à história. Chega na Cidade do México vindo de Veracruz, para passar uma temporada com o irmão, o Sombra (Tenoch Huerta).

Os dois irmãos são muito diferentes fisicamente, Sombra é moreno, ou “prieto”, como dizem aqui, enquanto Tomas é um “güero”, ou seja, clarinho. Em comum, eles guardam uma recordação do pai morto, uma fita cassete de um artista esquecido chamado Epigmenio Cruz, de quem se dizia que havia feito, numa ocasião, Bob Dylan chorar. Na casa de Sombra, Tomas se inquieta pelo estado de prostração e pobreza de recursos na qual vivem Sombra e o parceiro, Santos. Ambos não se engajam nem mesmo na luta dos estudantes ou nas marchas de protesto. Estão, como diz Sombra, “em greve da greve”. Um dia, Tomás lê no jornal que o mítico Epigmenio está internado. Decide, então, que irá visitá-lo, para que lhe autografe seu velho cassete antes de morrer.

Começa, então, uma espécie de “road movie” dentro da própria Cidade do México. Do subúrbios, eles passam pelo centro, pelo campus da universidade em polvorosa, por uma festa de estreia de um filme mexicano cheia de convidados afetados, pelo zoológico de Chapultepec e por um bairro pobre tomado por uma gangue. Com seu olhar assustado e inquieto, Tomas fotografa, os locais e os rostos de seus companheiros de viagem.

Filmado em preto e branco, também como uma crítica a cineastas mexicanos que assim fizeram no passado para agradar em festivais europeus, “Güeros” tem uma fotografia e uma direção de arte lindíssimas. O roteiro reforça a poética da fala “chilanga” e há referências literárias e cinematográficas locais. Parte dos sonhos dos personagens se concretiza, como a obsessão de Sombra com um tigre. A viagem termina na presença do próprio Epigmenio que, diferente do que se imaginava, não os recebe bem e prefere não sair de seu universo fechado, fumando e agonizando numa velha “pulqueria”. É a melhor cena do filme, em que Sombra consegue dar voz às angústias de todo o grupo.

“Onde estamos?”, perguntam, mais de uma vez, os personagens. E a resposta é sempre “na Cidade do México”. Apesar de percorre-la toda, os personagens não alcançam compreende-la na sua totalidade e em certo momento se dão conta de que isso não é possível, nem necessário, e que sua saga dentro dela é o máximo que podem experimentar. Já é muito.