Indígena de direita derrota Evo Morales en La Paz

Por Sylvia Colombo
A prefeita eleita de El Alto, Soledad Chapetón (Foto: La Razón)
A prefeita eleita de El Alto, Soledad Chapetón (Foto: La Razón)

A gestão de uma década do líder indígena Evo Morales sofreu, no último fim de semana, seu primeiro baque de popularidade. Apesar de ainda manter 70% de aprovação nacional, o presidente boliviano recentemente reeleito para seu terceiro mandato viu seu partido perder postos importantes nas eleições municipais. Entre as baixas, as mais sentidas são as de La Paz, que ficou com o oposicionista Félix Patzi, e a de El Alto, vencida por Soledad Chapetón. O que há de amargamente irônico para Morales nos dois casos é que ambos são também indígenas da etnia aymara, a mesma do presidente. Enquanto Patzi apoiou sua campanha num discurso mais à esquerda, expondo o que considera ser um discurso duplo do presidente com relação ao ambiente, e em defender uma “terceira via” apoiada nas relações coletivistas dos antigos povos precolombianos, Chapetón ganhou o eleitorado indígena mais urbano, com uma plataforma de centro-direita, e atacando duramente a corrupção.

Chapetón pode ser considerada a maior surpresa da eleição, podendo transformar-se numa pedra no sapato do líder cocaleiro. Primeiro, porque elegeu-se pelo principal partido opositor ao MAS, o Unidad Nacional, do empresário Samuel Doria Medina, segundo colocado na eleição presidencial. Aos 34 anos, sorridente e muito firme, Chapetón conquistou um território considerado chave do ponto de vista eleitoral e simbólico. El Alto tem 800 mil habitantes e fica na área metropolitana de La Paz. Concentra, tradicionalmente, imigrantes de outros departamentos que vêm buscar chances na capital, e é ali que vivem os trabalhadores mais politicamente engajados de todo o país. Por conta do êxito econômico dos primeiros anos do governo de Morales, a população de El Alto melhorou muito de nível de vida. A nova classe média formada ali deixou, inclusive, de querer mudar-se para os bairros mais ricos de La Paz e construiu, em El Alto mesmo, casas de luxo (os “cholets”) em meio a um cenário antes constituído apenas de casas humildes.

O discurso de Chapetón é mais liberal e agradou o eleitor urbano de origem indígena, principalmente os que deixaram a pobreza recentemente e buscam mais participação no mercado e na política. Enquanto Morales segue compromissado e vinculado às bandeiras assumidas com as comunidades menos favorecidas e distantes da capital, Chapetón abriu espaço entre os que passaram a outro estrato. A questão do lugar das mulheres na nova formação da sociedade vem à tona com mais força. Apesar de promover políticas de defesa da mulher camponesa e de ter estimulado o aumento do número de deputadas e senadoras na atual gestão, Morales desagrada o eleitorado urbano feminino e as feministas de um modo geral. O presidente é conhecido por suas “gafes machistas” e criticado por não promover a igualdade de gênero nem combater os crimes contra a mulher, índice no qual a Bolívia é a campeã na América do Sul. Chapetón também não usa vestimentas indígenas nem fala aymara. Diz que não se trata de preconceito, mas sim que, quando criança, os pais acharam melhor que ela não aprendesse a língua de seus ancestrais para não ser discriminada.

Ainda é cedo para avaliar o potencial eleitoral dos vencedores do último domingo. Mas sem dúvida é o primeiro de vários obstáculos que Morales deve enfrentar num mandato que será mais difícil que os dois primeiros, por conta do fim da bonança das “commodities” e das dificuldades econômicas que a região enfrentará em 2015.