México cala a cultura para conter a violência, será que é por aí?

Por Sylvia Colombo
O artista austríaco Herman Nitsch, cuja exposição foi proibida no México
O artista austríaco Herman Nitsch, cuja exposição foi proibida no México (Foto: Divulgação)

Estes não são os melhores dias para a cultura mexicana.

Três notícias em áreas muito distintas dão conta do impacto que a violência diária tem tido no modo como o país se expressa, se interpreta e se define. Da música popular às artes plásticas, a identidade mexicana vai renovando sua relação histórica com a guerra e com a morte.

A primeira delas foi a do cancelamento da etapa mexicana do Hay Festival de literatura, que ocorria anualmente há quatro anos em Xalapa, capital do Estado de Veracruz. O evento foi derrubado depois que escritores e intelectuais pediram que o festival fosse transferido a outra cidade, para evitar que o noticiário positivo sobre o evento amenizasse a enxurrada de más notícias que a região, uma das mais violentas do país, vem colecionando no dia-a-dia: as mortes causadas pelo enfrentamento entre Exército e cartéis e os assassinatos de jornalistas.

O cartaz do Hay Festival de Xalapa (Foto: Divulgação)
O cartaz do Hay Festival de Xalapa (Foto: Divulgação)

Na dúvida, a organização achou melhor acabar de vez com festa. Os intelectuais e autores, então, se dividiram. Uns acharam correto, não há nada que se possa celebrar em meio a tanta violência, tampouco haveria clima para falar de outros assuntos. Já outros pensam justamente o contrário. Seria necessário manter vida normal, celebrar o diálogo e chamar a atenção do olhar estrangeiro. Não esmorecer frente a crueldade dos cartéis e a brutalidade do Exército. Mais, usar o festival como palco para expor a falência do Estado Nacional de levar tranquilidade até aquela região. Tendo a concordar mais com o segundo grupo. O silêncio parece ser uma resignação _comportamento que não combina com os mexicanos.

A segunda notícia foi o cancelamento da exposição do austríaco Hermann Nitsch (foto acima), que mobilizou a imprensa local e internacional. O artista é célebre por realizar obras que usam sangue animal e humano para hiperbolizar as sensações causadas de superexposição à violência. Nitsch até tentou explicar que sua obra não matava seres vivos, usava material de açougues, e que era importante refletir sobre as questões que expunha no México de hoje. Não funcionou. A direção do museu, pressionada por movimentos de defesa dos direitos dos animais, não achou adequado exibir o trabalho num momento tão sensível do país, que entra em seu nono ano seguido de guerra entre forças militares e os cartéis, somando já mais de 60 mil mortos e 23 mil desaparecidos.

A terceira veio da cidade de Chihuahua, capital do Estado homônimo, e trata-se de uma proibição da execução de “corridos” que tratem do narcotráfico.

Gênero vindo do norte, parente da música ranchera e da polka, com a melodia apoiada no som de acordeões e teclados, os “corridos” existem no México desde a Revolução (1910). Naquela época, costumavam retratar os heróis da guerra civil e seus feitos, e já desde então cantavam temas muito violentos.

Nos anos 60, os Tigres Del Norte estouraram, atualizando as crônicas musicais para temas do dia-a-dia de sua região. Os Tigres estão entre os principais artistas populares do México ainda hoje, tendo vendido mais de 40 milhões de discos.

O caso é que, nos últimos tempos, vem-se popularizando um tipo de “corrido” muito laudatório dos feitos dos integrantes dos cartéis. Os chamados “narco-corridos” dividem-se em três subgêneros, a “arremangada”, cujo tema são as festas, a bebida, mulheres e maconha; o outro dedica-se a contar a história de um personagem, geralmente bandido ou empresário famoso. E o terceiro é o “enfermo”, que trata da morte violenta de alguém.

Há bandas que se especializam nos narcos mais ousados, chamados de “alterados”, que tratam apenas de degolas, execuções e enterros. A coisa ultrapassou tanto os limites do bom senso, que parte da sociedade começou a pedir sua proibição. Em 2011, o governo nacional transformou-a em lei, e as rádios e TVs estão proibidas de executá-los. Mesmo transformada em lei, os “narco-corridos” seguiram sendo executados de alguma forma no interior, sob propina ou de um modo alternativo, por meio da pirataria e da internet. Na semana passada, a cidade de Chihuahua anunciou que acirraria a ofensiva contra os artistas, proibindo execução das músicas e os shows, geralmente bancados pelos barões da droga e não raro palco de “balaceras” e assassinatos.

O prefeito da cidade diz que busca evitar que crianças e adolescentes sintam-se seduzidos pela vida narco, e que a violência seja naturalizada para a sociedade. De fato, os exércitos dos cartéis são formados por jovens, que cedo se transformam em sicários, encantados pela ideia de possuir um carrão, mulheres, e poder. Mas os artistas não se conformam, alegam que trata-se de censura da liberdade de expressão e ameaçam recorrer à Suprema Corte _como fizeram os cantores de “narco-corridos” de Sinaloa há meses atrás, ganhando a causa.

Proibições de músicas e cancelamentos de feiras literárias ou exposições são ataques à liberdade de expressão e enfraquecem a imagem de um país tão aberto e multicultural como o México. Um período tão sensível como esse, de abertos enfrentamentos civis e militares, tanto sangue derramado, tantos desaparecidos, deveria ser espaço para mais manifestações artísticas que refletissem e ajudassem a entender o que está acontecendo. Não o contrário. O silêncio das rádios, o vazio nas paredes dos museus e o silêncio nos auditórios onde deveriam estar escritores debatendo literatura são o convite para a instalação de um poder cada vez mais autoritário e uma sociedade mais resignada. Que esses três casos não sejam sinais de uma tendência.