Há algo errado com Cristina Kirchner?

Por Sylvia Colombo
A presidente argentina, Cristina Kirchner (Foto: AP)
A presidente argentina, Cristina Kirchner (Foto: AP)

A pergunta não é nova. A preocupação com a saúde mental da presidente argentina veio à tona pela primeira vez em 2010, logo após a morte do ex-presidente e marido da mandatária, Néstor Kirchner (1950-2010). Em correspondência revelada então pelo Wikileaks, a Secretaria de Estado dos EUA e a embaixada desse país em Buenos Aires debatiam questões como as seguintes: “Como controla Cristina Fernández de Kirchner seus nervos e sua ansiedade? Toma alguma medicação? Em que circunstâncias controla melhor o estresse? Como suas emoções afetam as emoções em sua tomada de decisões?”. Os relatórios falavam de “intolerância às críticas”, “paranóia” e “ineptitude para as relações exteriores e a economia”.

Se o episódio marcou o início de um estranhamento na relação Argentina-Estados Unidos (que até aí era boa, enquanto Néstor estava no cargo), internamente os informes deram o que falar. A oposição de direita usou-os como justificativa para atacar o governo, e refletiu-se na expressão, hoje comum de se ouvir nas ruas de Buenos Aires: “Cristina está loca”. Já os apoiadores e meios governistas saíram com o discurso anti-imperialista, que tanto sucesso faz entre a esquerda argentina, e passaram a martelar a ideia de que havia uma conspiração internacional do Primeiro Mundo capitalista contra o país. Evidências médicas faltavam, e nenhum dos lados pôde apoiar-se em uma avaliação isenta. Mas a dúvida fora lançada, e retornou em vários momentos ao longo desta sua segunda gestão, sempre que faz comentários exagerados em rede nacional, ou respondeu agressivamente e fora do tom (como fez com os estudantes de Harvard, em 2013 ou com colunistas que tachou de “nazistas”), ou quando insistia em não tirar o preto do luto pelo marido, passado mais de um ano de sua morte. Também quando desaparece por largas temporadas por conta de acidentes domésticos mal-explicados.

A tese da “loucura” de Cristina foi motivo de acalorados debates e investigações, como fizeram os jornalistas Miguel e Nicolás Wiñazki (pai e filho), no best-seller “La Dueña”, e motiva um folclore popular que ganha um novo ingrediente cada vez que Cristina solta uma de suas tiradas tresloucadas típicas. Nas últimas semanas, porém, com a explosão do caso Nisman e a imensa comoção nacional que causou, a ideia de que Cristina pode estar sofrendo de um agravamento de alguma doença psiquiátrica ganhou força. Para muitos argentinos, seria a única explicação para tantas declarações desastradas _como afirmar inicialmente que achava que o promotor havia se suicidado para dois dias depois achar que alguém tinha “se livrado dele”_ e reações políticas pouco hábeis num momento em que era essencial ser transparente e manter a calma institucional no país.

O estopim da nova onda de especulações sobre sua saúde mental foi o vergonhoso tuíte “em chinês”, que Cristina lançou, durante visita àquele país para firmar tratados econômicos de suma importância para uma Argentina em crise. Em lance que a revista “The New Yorker” definiu como “novo recorde em eficiência ofensiva racista”, a mandatária “conseguiu insultar um quinto da humanidade em menos de 140 caracteres”. Isso porque ela, achando que estava contando uma simples piada _e como se a situação em que está, imputada por um crime, fosse propícia a piadas_ brincou com o modo como orientais pronunciam a letra “r”. “Serán todos de La Campola y vinieron solo por aloz e petlóleo?”. Arrogante, a mensagem fazia menção às críticas que Cristina recebe na Argentina toda vez que um evento lota por conta da militância do La Cámpora, trazida e muitas vezes bancada pelo governo. O tiro saiu tanto pela culatra que até mesmo internautas chineses que têm pouco ou nenhum acesso ao Twitter responderam: “Este é o Q.I. de um presidente?”, ou outro, mais irônico: “No llolles por mi Argentina, la veldad es que China no te lesgatalá glátis” (não chores por mim, Argentina, a verdade é que a China não te resgatará grátis).

Mas a hipótese do desequilíbrio psiquiátrico, e até de uma doença mental mais séria, ressurgiu, juntando pistas que surgiram nos últimos anos. Uma das teses é que Cristina sofreria de uma chamada “síndrome de Pick”, um mal neurodegenerativo que teria sido diagnosticado durante uma intervenção cirúrgica realizada de emergência na Fundação Favaloro de Buenos Aires, em outubro de 2013, após um acidente caseiro ter causado um hematoma numa região da cabeça muito próxima do cérebro. A síndrome danifica as ligações nervosas do órgão e uma das consequências é que a habilidade social do paciente se fragiliza.

A voz mais respeitável a assomar-se na discussão é a do jornalista Nelson Castro, um veterano da mídia local, que também é médico. Diferentemente de muitos de seus colegas _Castro escreve no “Clarín” e tem um programa no canal TN, pertencente ao grupo_, Castro é de um equilíbrio e ponderação reconhecidos à esquerda e à direita. Em outros episódios misteriosos relacionados à saúde da presidente _como o câncer de tireóide que, ao final, não era câncer e sim um erro de diagnóstico_ foi o único a informar com conhecimento técnico e respeito à pessoa de Cristina.

Pois Castro está escrevendo um livro sobre a saúde da presidente, e defende a tese de que esta sofre, na verdade de uma doença chamada síndrome de Hubris, um transtorno que faz com que a pessoa passe a dar um enfoque desmedido a si mesma, ficando com uma espécie de ego super-inflado e provocando o surgimento de comportamentos excêntricos. Abaixo, no vídeo, o próprio Castro explica em seu tom professoral e respeitoso o que acreditava estar acontecendo, já no final de 2013.

A mesma “New Yorker”, ao tratar do tema, diz: “Até recentemente, o comportamento disfuncional de Cristina chamou pouca atenção. Mas, mês a mês, discurso estranho após discurso estranho, ela está evoluindo no sentido de se transformar num Chávez da Argentina, alguém que coloca o poder antes do país, confunde teoria da conspiração com política, e crê que economia e diplomacia são inconvenientes.”

Num momento de campanha eleitoral, em que a maioria dos pré-candidatos hesita em adotar uma posição de aberto confronto com a presidente, por conta de seu, ainda, considerável apoio popular, a saúde mental de Cristina não apenas ganhará peso no debate como pode definir como e quando se dará a transição.

Mais do que nunca, parece que as perguntas feitas por Washington à sua embaixada em Buenos Aires, há cinco anos, são relevantes. Também as preocupações e indícios levantados por Castro. Num ambiente em que se fala, nos bastidores, de laudos destruídos e médicos oficialistas escondendo informação sobre a saúde da presidente, seria importante pedir mais transparência à Casa Rosada. Afinal, os ocultamentos e encobrimentos de provas e evidências, como mostra o desastre da investigação do caso AMIA e de tantos outros episódios misteriosos da política argentina, não ficam por isso mesmo. O futuro cobra a conta e, às vezes, de modo sangrento.