Caubóis mexicanos x nazistas

Por Sylvia Colombo
Cartaz do filme "Matria" (Divulgação)
Cartaz do filme “Matria” (Divulgação)

A onda de violência na qual vive hoje o México não se justifica apenas a partir de fatos pontuais, como a decisão do então presidente Felipe Calderón, em 2006, de partir para cima do crime organizado com o Exército, ou como a formação de cartéis sanguinários e midiáticos. Se estes foram os detonadores da atual guerra, com mais de 60 mil vítimas fatais, é porque há um contexto histórico que explica o caráter violento dos confrontos do presente.

Imbuído deste espírito, o cineasta Fernando Llanos, 41, mergulha na história secreta de sua família para desvendar a que se dedicava, na verdade, seu avô, Antolín Jimenez, um homem-chave do México pós-revolucionário _lutou ao lado de Pancho Villa, maçom respeitadíssimo em sua sociedade, e tendo enriquecido nos anos após a Revolução, além disso, era um defensor da cultura “charro” (os cowboys de Estados como Jalisco, Durango, Chihuahua e Sinaloa). O fato mais anedótico e representativo da personalidade de Jimenez ocorreu durante a Segunda Guerra, quando liderou a formação de um exército informal de mais de 100 mil charros em distintas partes do país. O objetivo: defender o país de uma possível intervenção nazista.

Enquanto seguem presentes no imaginário popular do mexicano, e sua cultura -das vestimentas ao comportamento- continua viva, a existência dos “charros” é negada pelas Forças Armadas. Num dos momentos mais engraçados do documentário de Llanos, o cineasta pergunta a veteranos militares sobre a legião de charros _eles negam até mesmo o fato de terem existido.

O cineasta, porém, enfrentou muita resistência de sua própria família ao revirar o passado de sua linhagem. Mãe, tias e tios tentaram evitar que ele trouxesse à tona detalhes da vida de Jimenez. As razões ficam confusas, mas parecem não ter muito a ver com a guerra. A Jimenez, sua família se opunha por estar sempre ausente, por não encaixar-se no modelo de pai católico tradicional, por ter outra família clandestina. “Este sempre foi um projeto muito pessoal e às vezes isso incomoda. Neste caso, minha família sofreu diretamente. A metade dos meus tios não fala comigo, e não querem ver o filme”, conta à Folha.

Vencedor do Festival de Morelia, “Matria” será agora exibido em festivais _e busca espaço entre os brasileiros. É apoiado por figuras importantes do cenário cultural mexicano, como o artista Felipe Ehrenberg, a cantora Lila Downs (que aparece no documentário) e o roteirista Guillermo Arriaga. Por aqui, almejam ser vistos no É Tudo Verdade ou no Festival do Rio. Seria ótimo se, de fato, vierem a integrar a programação desses eventos (abaixo, o trailer).