Peña Nieto encontra Obama, mas mexicanos seguem morrendo

Por Sylvia Colombo

“Supérenlo ya” (superem isso agora) havia dito Enrique Peña Nieto aos mexicanos no começo de dezembro.

O presidente se referia aos seguidos e multitudinários protestos que seguem acontecendo em diversas cidades mexicanas desde o trágico desaparecimento de 43 estudantes no Estado de Guerrero, em setembro do ano passado. O crime, que teria sido cometido pela polícia local, associada ao narcotráfico e com o endosso do poder público regional, expôs ao mundo a falência do modelo de ataque ao narcotráfico no México. Deixou claro que já não se trata de uma guerra entre bandidos e mocinhos, mas sim de uma situação em que a corrupção é generalizada e a atividade criminosa se transformou em uma lucrativa empresa que possui sócios no governo, no empresariado e no setor agrário, além das polícias e das Forças Armadas. Só quem está desprotegida é a população civil, em especial a mais desfavorecida economicamente. Ayotzinapa não é o primeiro caso em que jovens não-criminosos perdem a vida. Decapitações e assassinatos coletivos de civis vêm sendo regra nos últimos anos. Em geral, servem como mensagem ou ameaça entre um cartel e outro, ou entre um cartel e o Exército, uma demarcação de território. Tampouco é a primeira vez que a polícia é conivente ou mesmo parte da brutalidade. Em junho mesmo, na cidade de Tlatlaya, outra tragédia envolvendo forças policiais terminou com a morte de 22 civis, espantosamente não muito divulgada fora do México. A contagem das mortes, de um modo geral, desde que o governo de Felipe Calderón (2006-2012) resolveu investir no enfrentamento bélico com os cartéis, já beira os 70 mil, enquanto estimam-se que mais de 100 mil pessoas estejam desaparecidas.

“Supérenlo ya” saiu da boca de um mandatário assustado, que não esperava que essa tragédia causasse uma comoção tão grande. A declaração foi infeliz, e as redes sociais responderam, transformando-a em “hashtag” para chamar novas manifestações. Pouco habilidoso, Peña Nieto deixou mais evidente que não está fazendo muito mais além de sentar-se e torcer para que o problema seja esquecido de uma vez por todas.

Na última terça, Peña Nieto encontrou-se com Barack Obama. Até poucos meses atrás, o mexicano vangloriava-se de sua proximidade com o par norte-americano. Estaria indo à Casa Branca pela segunda vez (a primeira foi como presidente eleito), e poderia exibir-se com suas até então exitosas reformas energética, trabalhista e das comunicações. O crime de Ayotzinapa, porém, surgiu como lembrete amargo de que ele não pode liderar apenas o México que está com um pé na modernidade econômica, enquanto grande parte do país vive uma verdadeira guerra civil. Não é por menos, sua aprovação popular vem despencando, e a aliança formada com partidos da oposição no Congresso (Pacto por México), que o permitiram mudar leis, diluiu-se. Nas ruas da Cidade do México, cartazes e gritos o insultam. E, para piorar, surgem denúncias de corrupção contra sua mulher e seu ministro preferido.

Apenas enquanto os dois presidentes conversavam, morreram mais nove pessoas, vítimas dessa cruel guerra. Desta vez, em enfrentamento na cidade de Ayotzinapa, em Michoacán. Em fevereiro do ano passado, estive em Ayotzinapa no dia em que ela foi tomada pelas “autodefensas” _guardas paramilitares, formadas por habitantes locais. Na ocasião, esses civis armados e encapuzados tomaram as ruas da cidade e tocaram dali os narcos. O governo celebrou, e Peña Nieto apoiou as corajosas milícias, diante de uma oposição boquiaberta, que pedia um mínimo de respeito às instituições e alertava para o perigo de alimentar forças paramilitares sem controle do governo. Agora, as notícias locais dão conta de que a solução não deu resultados.

Calado, olhando para um canto no chão do Salão Oval, Peña Nieto ouviu uma pequena bronca de Obama, que mencionou a tragédia de Ayotzinapa como uma das preocupações dos EUA com relação à sua gestão. Do lado de fora e em outras onze cidades norte-americanas, houve protestos de cidadãos mexicanos residentes nos EUA. Assim como associações de direitos humanos (entre elas a Human Rights Watch), eles pedem que Obama suspenda a ajuda financeira dada ao país-vizinho. O dinheiro tem sido usado para armar o Exército e a polícia. Agora, que ficou claro que que estes estão envolvidos nas mortes de civis, fica mais difícil justificar o subsídio.

A pauta da conversa entre os dois presidentes, pelo menos oficialmente, foi a reforma migratória dos EUA, a cooperação econômica e os acordos energéticos. Sobre mudança de enfoque da guerra ao crime organizado, ou a possibilidade de discutir a regulação ou liberalização das drogas, não foi dita nenhuma palavra. Obama lamenta a violência, Peña Nieto diz que reformará a polícia, mas a única maneira de criar uma alternativa à atual política de derramamento de sangue na região é um compromisso entre os dois países de debaterem a questão do uso, transporte e consumo de drogas desde um ponto de vista não bélico. Enquanto isso, outras tragédias como a de Ayotzinapa, e outras cidades sitiadas pelo medo, como Apatzingan, seguirão sendo uma realidade, principalmente nos Estados mais empobrecidos do México.

Entrada de Apatzingan, controlada pela milícia (Foto: AFP)
Entrada de Apatzingan, controlada pela milícia (Foto: AFP)