O Bolívar que vai ao Oscar

Por Sylvia Colombo

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“O senhor é o Libertador?”, pergunta a senhora obrigada a abandonar sua casa em Caracas junto com o exército de Simón Bolívar (1783-1830). Quando descobre que se trata do próprio, cospe-lhe na cara e diz: “Pode ser que os espanhóis nos tenham conquistado, nos oprimido e nos roubado, mas pelo menos tínhamos nossas casas e nossa família. Meus filhos morreram em sua guerra”. Acalmada, ela segue o rumo da população obrigada a evacuar a que se tornaria capital da Venezuela. Em outra cena, Bolívar tem suas botas roubadas, persegue o ladrão, um menino pobre e mulato. Quando o agarra, começa a espancá-lo até que uma mãe desesperada vem em seu socorro. Bolívar, então, assustado com a própria atitude, com “vergonha da própria cegueira”, leva o menino no colo para que receba cuidados. Ainda em outro take, confrontado por Santander (1792-1840), que não quer cruzar uma fronteira por respeitar a legalidade dos mapas coloniais, Bolívar já surge sem nenhuma dúvida quanto ao que queria fazer: “Isso não é uma fronteira. Isso é um rio. Não nos deixemos separar”, e assim comanda todas as forças anti-espanholas para lutar por sua utopia de unidade dos países sul-americanos.

O filme “Libertador”, do diretor venezuelano Alberto Arvelo, entrou para a primeira “shortlist” do Oscar de melhor filme estrangeiro (o Brasil está ausente) trazendo um retrato de Bolívar como um herói cheio de contradições, que muito teve de amadurecer para se transformar de aristocrata rico e petulante em prócer da Independência de tantos países, e mesmo assim claudicou e enfrentou desacordos em sua base de apoio. Enquanto localmente as distintas correntes ideológicas se engalfinham para jogar Bolívar para cá e para lá no espectro político, celebra-lo ou demoniza-lo, “Libertador” coloca o foco na construção de sua personalidade a partir das contradições com as quais se deparou. É, ainda, uma super-produção, o mais caro filme independente da história do cinema latino-americano (US$ 50 milhões) e trata de mostrar como foi, desde um ponto de vista físico e geográfico, a guerra pela Independência. Bolívar caminhou mais de 120 mil quilômetros e lutou mais de 100 batalhas _a reconstrução da de Boyacá, quando entram em Bogotá e passam a mandar no jogo, é excelente. A reconstrução de época e as cenas exteriores são de cair o queixo, as paisagens dos entornos montanhosos de Caracas, o leito do Orinoco tomado por soldados indo à batalha, a imensa linha de homens exaustos mas determinados atravessando os Andes.

A produção acompanha 30 anos de sua vida. Começa quando Bolívar traz da Europa, onde é visto jogando badminton com o príncipe espanhol, uma linda esposa, que logo morre de febre amarela. De luto, entrega-se a uma vida desregrada de volta ao Velho Continente, até ceder à pressão de Simón Rodriguez (1769-1854), seu tutor, e então engajar-se pela libertação da América do Sul. Infelizmente, o filme compacta demais a campanha. Com isso, a construção de alianças, com os ingleses, com o quase-inimigo Santander, com o leal Sucre (1795–1830) e com a heróica Manuela Saenz (1795-1856) não são mostradas em grande complexidade. Ainda assim, dá para ter uma ideia de como a cada movimento militar da campanha de expulsão dos espanhóis de terras americanas correspondeu a uma jogada política.

Não creio que “Libertador” tenha muitas chances na disputa. O argentino “Relatos Selvagens” e o polonês “Ida”, aparecem como favoritos. Mas essa superprodução venezuelana-espanhola tem o mérito de retratar um personagem heróico do século 19 sem cair na caricatura, nem parecer novela de má qualidade. O tom geral é, sim, celebratório, mas as contradições do personagem, e seu lado negativo, aparecem com destaque no filme, que também não comete o erro de ser anacrônico, rotulando Bolívar de comunista ou de conservador tendo em vista o embate entre esquerda e direita nos dias de hoje.