“A ideia de que os militares poderiam colocar ordem na casa se dissolveu na Argentina”

Por Sylvia Colombo
O escritor argentino Martín Kohan (Foto: Divulgação)
O escritor argentino Martín Kohan (Foto: Divulgação)

Martín Kohan é um tipo muito especial de intelectual pouco comum no Brasil. Professor acadêmico aplicado, romancista de primeira linha e ensaísta político, possui um conhecimento histórico e um equilíbrio que o permitem fazer análises detalhadas da complexidade da situação argentina sem perder o foco. E sem, principalmente, tomar um lado de maneira muito enfática ou visceralmente apaixonada, como é muito recorrente no país vizinho. Kohan, 46, tem alguns títulos publicados no Brasil, como “Ciências Morais” e “Segundos Fora”, ambos pela Companhia das Letras e que têm o passado ditatorial argentino como pano de fundo, mas sem cair em descrições estereotipadas. O olhar de Kohan é geralmente “fora do eixo”, típico de uma geração que não chegou a se envolver diretamente no embate, mas estava muito próximo dele para observá-lo e viver na pele algumas consequências. Como dá aulas na Patagônia, o autor tem grande sensibilidade para sentir seu país desde outros centros mais óbvios como Buenos Aires, onde também vive. Seus livros estabelecem um profundo diálogo com a história e a literatura do país, mas sempre evocados a partir de questões do presente.

Conversei com Kohan na Feira do Livro de Guadalajara, que terminou na semana passada no México, e que neste ano homenageou a Argentina. Kohan foi ao evento mostrar “El País de la Guerra”, livro que lança pela Eterna Cadência. Trata-se de uma espécie de continuação de um trabalho anterior seu, “Narrar a San Martín” (Adriana Hidalgo, 2005), em que estabelece um diálogo com o século 19 argentino para entender a cultura política em que vive a sociedade hoje. Século de guerras, de embate entre projetos útopicos, românticos e urbanos com as forças caudilhescas e coloniais do interior, até hoje repetidas, de certo modo, no debate político. San Martín (1778-1850), prócer da Independência, é talvez a única figura do passado do país-vizinho aceita e celebrada tanto pela direita como pela esquerda, enquanto outros líderes entram e saem do panteão dos preferidos, e são amados ou execrados dependendo do partido que esteja no poder. Sarmiento, Mitre e Roca, por exemplo, são identificados com as soluções liberais que, em tempos de populismo e nacionalismo exacerbados como o atual, são apontados como vilões em detrimento de caudilhos “patriotas” como Juan Manuel de Rosas. Não era assim no começo dos anos 80, quando os peronistas não estavam no poder, e essas figuras hoje julgadas de modo negativo eram apontadas como idealizadores de um grande país. Para entender esse vai-e-vem de paixões, Kohan se apoia em textos literários e produzidos pelos protagonistas daquele século.

Folha – Por que voltar a San Martín com “El País de la Guerra”?

Martín Kohan – Há uma linha de continuidade com “Narrar a San Martín” porque este livro começa onde o outro acaba. O primeiro termina quando trato da consolidação de San Martín como pai da pátria, e este estuda o que implica ter como prócer nacional e praticamente inquestionado, um herói puramente militar. A ideia é estudar os mecanismos de construção da nossa identidade. Outros países tem militares como próceres, como Bolívar (Venezuela), Washington (EUA) ou O´Higgins (Chile), mas estes tinham também um projeto político, de idealizar a constituição do novo país. San Martín, não. Finda a guerra, terminada a ação militar de expulsar os espanhóis, ele se retira. Por que temos como herói nacional um líder militar estrito, que se dedicou à batalha, mas não à política do pós-guerra é a pergunta que tento responder.

Folha – Depois de certo tempo no exílio em Paris, San Martín tenta voltar, mas ao chegar a Buenos Aires, sequer deixa o barco, e resolve voltar à França. Como interpreta esse episódio?

Kohan – Este é um episódio quase literário, e cheio de significados. No desejo de retornar à Argentina, não com um projeto político, mas de retiro mesmo, San Martín faz uma viagem longuíssima, semanas em barco, para voltar logo na sequência, algo que não faríamos hoje em avião, mas ele realmente se surpreende quando chega em Buenos Aires (em 1828). Haviam acabado de assassinar a Manuel Dorrego [governador da província de Buenos Aires, morto pelos chamados “unitários”] e ele tinha de tomar uma posição. O país vivia uma instabilidade política muito grande, e sua figura era esperada para apoiar um ou outro lado na disputa. Ele não queria aquilo, para ele seu papel estava terminado, considerava encerrada a intervenção militar. E sustentou isso. Como não poderia ficar neutro no país, decide ir. Não chegam a amarrar o barco, e já tomam o caminho de volta [San Martín jamais regressaria e morre no exílio].

Folha – A figura do que abandona o Exército, o desertor, é essencial na narrativa argentina também. Do “Martín Fierro” (José Hernandez, 1872), sobre o soldado enviado ao Sul do país, aos “Pichiciegos” (Rodolfo Fogwill, 1983), sobre os rapazes que fogem da tropa e se escondem num buraco esperando a Guerra das Malvinas terminar. É o outro lado do heroísmo militar evocado pela figura de San Martín, não?

Kohan – A questão dos desertores é essencial e complexa. No “Martín Fierro” se lê como se forja um soldado, e como de “gaucho” o personagem se transforma em delinquente, é expulsado da lei, para logo ser trazido para a violência da própria lei, tendo de ir caçar os índios, que por definição estão fora da lei. Algo que Jorge Luis Borges (1899-1986) trabalhou muito bem foi o sentido dessa deserção. Martín Fierro deserta e vai aos índios, esse é um ponto chave da constituição da identidade argentina na literatura. Já a literatura sobre a Guerra das Malvinas (1982) também dedico muito espaço, porque foi na ficção que logo apareceu, quase que junto à derrota, o relato literário que foi a “contracara” do relato canônico, oficialesco. O “pichiciego” é uma figura interessantíssima, porque não é um anti-herói, todo anti-herói pressupõe um paradigma de heroicidade, mas é um não-herói. Também me dedico a observar com atenção os romances que tem voluntários ou paródias de voluntários como protagonista. Rodrigo Fresán tem um personagem excelente, que é o garoto fã dos Rolling Stones, que se alista torcendo para que a Argentina perca a guerra e ele seja levado como prisioneiro a Londres, e por fim pode conhecer seus ídolos.

Folha – San Martín é o herói nacional, mas a sociedade argentina hoje tem uma visão muito negativa do militar. É um paradoxo?

Kohan – O paradigma militar tem uma queda vertiginosa com a última ditadura (1976-1983) e a derrota nas Malvinas. Esse episódio mudou tudo. O modelo que levou anos de elaboração, da construção do prestígio do Exército, e do envolvimento dos militares com a ideia de pátria, fez com que se tornasse comum a ideia de que as armas poderiam ser a salvação moral. A ideia de que a política era “contaminada”, mas que o Exército poderia reorganizar algo bagunçado pelos políticos. Surgiam não só como fundadores mas como salvadores da pátria. Isso foi muito forte na Argentina, e todos os golpes de Estado do século 20 tiveram um apoio civil baseado nessa ideia, de que diante dos descalabros cometidos pelos políticos, apenas os militares poderiam colocar ordem nas nas coisas. Mas então veio a Guerra das Malvinas, e esse paradigma se destroçou rapidamente.

Folha – O que se consolidou no lugar?

Kohan – Ficou muito claro que esse Exército, tão cruel e prepotente para matar civis, estava sendo derrotado e envergonhado por um Exército mais poderoso. Veio um resgate da política, ainda que com o custo de suas imperfeições, recuperou-se a ideia de responsabilidade social. Em 2001, quando caiu o governo de Fernando De la Rúa [após uma série de massivos protestos de rua], foi que senti com mais clareza o contexto em que os golpes se legitimaram no passado e como isso tinha mudado. Eu pude entender como, em algum momento, os argentinos defenderam a ideia de que os militares podiam organizar algo desordenado pelos políticos, mas como isso já não aconteceria de novo. Ninguém, em 2001 e na crise que veio na sequência, em que tivemos vários presidentes em curto espaço de tempo, ninguém pensou que a solução para aquele problema podia se dar pelo lado de fora da política e das instituições. Os militares já não podiam aproveitar esse momento de desequilíbrio para voltar, já não seriam aceitos. Acho que, nesse sentido, a situação argentina se insere em um processo que já estava acontecendo em toda a América Latina.

Folha – Como será o ano que vem, eleitoral, na Argentina?

Kohan – Mais uma vez estamos vendo o peronismo se repartindo em todas as posições, mas curiosamente a vertente que está no poder, o kirchnerismo, não soube construir um sucessor. Deve acabar apoiando uma solução do peronismo mais tradicional, que é Daniel Scioli [governador da província de Buenos Aires] e veremos algo que parece raro. O grupo de Cristina não soube criar um herdeiro, mas aquele que escolhe para apoiar tem altíssimas chances de vencer.