Argentinos encontram no México território propício para discutir Malvinas

Por Sylvia Colombo
Cena do filme "Iluminados por el Fuego" (Foto: Divulgação)
Cena do filme “Iluminados por el Fuego” (Foto: Divulgação)

É comum estrangeiros não entenderem como é possível que os argentinos sigam discutindo tão apaixonadamente o tema das ilhas Malvinas. Como um episódio histórico pode estar tão vivo no imaginário cultural e político? Como as pessoas podem chegar a definir suas relações com amigos e familiares a partir de sua opinião particular sobre esse arquipélago gelado no Atlântico sul? Pois quem estava na plateia do debate hoje sobre a Argentina e as Malvinas, na 28a edição da Feira do Livro de Guadalajara, pôde entender a razão. Um debate de alto nível, com defensores de distintas visões sobre a guerra e a reivindicação argentina pelas ilhas, demonstrou que o assunto não só é parte essencial da cultura de nosso vizinho como discutir sobre ele é uma forma de exercer o pensamento crítico até limites não alcançados quando o assunto é outro, e aí pode-se incluir também passagens importantes, o peronismo, a ditadura militar, a guerra entre unitários e federales no século 19, e por aí vai.

Compunham a mesa Edgardo Esteban, um ex-combatente e autor do livro que deu origem ao filme acima, “Iluminados por el Fuego”, o escritor Carlos Gamerro, autor do romance “Las Islas”, o escritor, crítico, ensaísta e professor universitário Martín Kohan, autor de “Ciencias Morais” e “El País de la Guerra”, e o ex-senador e ex-ministro da Educação, Daniel Filmus, figura política de peso nos governos Néstor e Cristina Kirchner. A plateia contava com outros personagens ilustres, a líder das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, o ex-chefe de gabinete de Cristina e filho de montonero, Juan Manuel Abal Medina, o líder do movimento Carta Abierta, de apoio ao kirchnerismo e hoje à frente da esquisita Secretaria do Pensamento Nacional, e a secretária de cultura e cantora Teresa Parodi.

Esteban iniciou o debate, apresentando um relato humano de sua experiência como soldado na Guerra das Malvinas (1982) e reivindicando em tom emotivo que a luta prossiga, por vias pacíficas, mas que a Argentina nunca desista das ilhas, evocando sua semelhança com a Patagônia, suas riquezas naturais, as vidas de seus companheiros que morreram lutando. Gamerro, que estava no México quando o conflito começou, falou de todo o ceticismo que sentia com relação ao conflito, primeiro, pelo fato de estar sendo levado adiante por um governo ditatorial, em segundo, pelo absurdo que lhe parecia ir a uma guerra desigual, que ia sendo contada desde o início como uma ficção. O escritor lembrou as manchetes de uma famosa revista de então que trazia as manchetes: “Estamos ganhando”, até repentinamente começar a informar sobre a derrota. Apoiou-se na visão do escritor Rodolfo Fogwill (1941-2010), que no clássico “Los Pichiciegos” relata o drama dos desertores, escondidos em buracos nas ilhas, fazendo o possível para aguentar até o fim do conflito. “Ali se vê que não havia uma questão de certos e errados para quem estava no campo de batalha, e sim com quem se devia negociar para continuar vivo.” Seu tom, no geral, foi crítico ao conflito. Kohan seguiu um pouco nessa linha, mas reforçando as contradições e incômodos que a guerra causava em distintos momentos _quando uma multidão foi às ruas pedir a invasão das ilhas, depois a mesma multidão voltou à praça para pedir o fim da ditadura. “Me encontro num momento em que estou celebrando a guerra, porque fez com que a ditadura acabasse. O que me faz sentir-me incômodo.” Kohan pediu um passo adiante aos compatriotas, no sentido de não pensar mais em heróis, homenagens e estátuas, mas lembrar o episódio de modo crítico e olhando para a frente.

Já Filmus, ali representando o olhar do governo, tentou justificar que a Argentina siga querendo as ilhas pelo fato de serem parte da cultura e história do país há mais de 150 anos. Evocou uma carta do libertador San Martín, um discurso de Sarmiento, passagens de José Hernandez e um poema de Borges, a “Milonga del Muerto”, para a qual chamou Parodi que o lera. Foi quando o debate esquentou, pois Kohan tomou a palavra para rebater Filmus, sem menosprezar os textos citados, Kohan disse que a derrota na guerra mudava tudo, e que mesmo sendo parte da cultura e do imaginário argentinos, que a postura deveria ser outra, sugerindo respeitar a auto-determinação dos habitantes das ilhas. Nesse momento, Esteban irritou-se e, ao tomar a palavra, disse que o discurso todo sobre Malvinas desde o ponto de vista literário o “confundia”, e conferiu-se mais autoridade que os demais por ter estado nas trincheiras e visto a morte de perto. O público reagia a cada mudança de corrente na mesa, e em alguns momentos, longos silêncios pareciam antecipar uma altercação em maior volume. Ao final, contemporizando, Filmus disse que achava ótimo poderem ter uma discussão assim tão discordante, porém respeitosa, longe de casa. “Imagino que na Argentina não conseguiríamos debater assim, algo aconteceria. Para um tema como as Malvinas, nós argentinos temos de vir até o México para leva-lo até o fim”, disse, arrancando risadas nervosas do público.

Parodi, Filmus, Kohan, Gamerro e Esteban, em Guadalajara (Foto: Sylvia Colombo)
Parodi, Filmus, Kohan, Gamerro e Esteban, em Guadalajara (Foto: Sylvia Colombo)