Um artesão da crônica latino-americana em São Paulo

Por Sylvia Colombo

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Criador da principal revista de crônicas latino-americana, a “Etiqueta Negra” (www.etiquetanegra.com.pe), Julio Villanueva Chang é um editor-professor-viajante. Desde que começou a publicação, no princípio da década passada, o escritor peruano começou a rodar o continente dando aulas sobre como escrever um perfil e discutindo o atual estado do jornalismo narrativo, hoje espalhado por vários países. Acabou transformando-se também, informalmente, num amigável construtor de pontes entre jornalistas, autores e artistas da região. Entre os dias 17 e 19 de novembro, Villanueva Chang dará um curso sobre como construir perfis jornalísticos, em São Paulo. Mais informações sobre valores e inscrições podem ser conferidos no flyer abaixo.

Conversei com Villanueva Chang por e-mail esses dias. Aqui, um resumo do nosso papo.

Folha – Que balanço você faz da crônica latino-americana desde que começou a editar “Etiqueta Negra” e a dar oficinas sobre o tema mundo afora?

Julio Villanueva Chang – Somos vizinhos do Brasil por séculos, mas ainda não nos entendemos. Por exemplo, a palavra “crônica” não significa o mesmo para os brasileiros do que para o resto dos latino-americanos. Para os brasileiros, crônica é o que o resto dos latino-americanos chamamos de “coluna”. Mais, uma coluna na qual existe certa licença para incluir ficção.

Completei dez anos dando oficinas enquanto viajo entre a América e a Europa, e meus alunos estão em todas as partes: desde os valentes repórteres de Elfaro.com, de El Salvador, até os inteligentes e corretos alunos da universidade de Yale, nos EUA. Não é frequente encontrar brasileiros em minhas oficinas.

Há uma semana, em Barcelona, tive uma aluna brasileira que é editora e poeta. Antes, tinha ditado outras oficinas no Brasil, uma na Feira Internacional do Livro de Paraty (onde nos anos anteriores os mestres tinham sido Gay Talese e Jon Lee Anderson e tive a honra de ser o seguinte), e um no Instituto Cervantes de São Paulo. Além disso, outros dois para editores e repórteres de um jornal do Rio de Janeiro.

Como editor de uma revista de crônicas, cada oficina é um modo diagonal de descobrir autores a quem eu gostaria de publicar. Ainda assim, meu próprio insitinto de busca foi mudando com os anos e o acúmulo de minhas viagens, ao mesmo tempo em que foi mudando meu modo pessoal de ler e escrever crônicas. No lugar de ser mais conciliador, fui ficando mais intolerante quando leio. A palavra “intolerância” pode gerar mal-entendidos: agora gosto muito menos do que leio e escrevo, mas ao mesmo tempo gosto mais de ler e escrever crônicas. Na vida, para ganhar algo é preciso perder muitas outras coisas.

Folha – Como você vê o mercado de revistas de narrativa e crônica latino-americanas? Melhor do que quando começou com “Etiqueta Negra”?

Villanueva Chang – O mercado cresceu inversamente ao meu otimismo por achar um cronista fora de série…

Folha – Que papel tem a internet e as redes sociais nisso?

Villanueva Chang – A princípio, não nos esqueçamos de que o ofício de publicar perfis, reportagens sobre pessoas, é um trabalho de indiscrição, e que nesses casos a internet se presta à maravilha e ao horror.

Para bem ou para mal, a internet vulgarizou a palavra “curiosidade”. Digo, agora convivem na rede milhões de formas de ser curiosos a respeito da vida e do pensamento do outro. Para mim, mais do que para ler, a internet me serve para editar e intercambiar o pulso com meus autores em tempos de multi-tarefa e procrastinação: todo o tempo converso com autores em todo o mundo via Skype, gmail, Facebook, Whats App. A internet, obviamente, nos facilitou encontrar alguém e a informação sobre esse alguém em uma velocidade muito alta. Nos facilitou fazer contatos, mas não trouxe necessariamente mais entendimento, e também acrescentou muita confusão.

Vivemos o paradoxo de que há mais informação disponível nos dias de hoje, mas também menos conhecimento. Ainda que estejamos lendo mais do que fazíamos antes com relação a dados, informações, agora, no meio da saturação, nunca nos esquecemos tão rápido do que acabamos de aprender. O desafio é ter calma no meio de tanta velocidade e distração.

Folha – Quem são suas principais referências no gênero hoje?

Villanueva Chang – A pergunta é cósmica. Vou a copiar minha lista de leituras que, obviamente, transgridem o gênero. Aqui respondo sua pergunta reproduzindo o que respondi no livro “Domadores de Histórias”:

Perguntar como você aprendeu a escrever é obrigar-lhe a sair da cova do instinto onde a escuridão resulta ser o mais natural e desejável. Não sei. Não recordo minha primeira vez escrevendo, mas sim recordo quando alguém percebeu que eu escrevia: foi minha mãe, e o primeiro impulso foi esconder-me. Hoje ainda sobrevive algo desse pudor. Escrever histórias é um ato de instinto verbal, mas também de grande incerteza. O mais normal é não estar de acordo comigo mesmo e por isso tenho a mania de reescrever. Mais que dúvidas visíveis em minha escritura, devo mais sobretudo ao ato de ler, que é um modo de aprender a estar sozinho.

Tenho ganhado a vida mais lendo do que escrevendo. Minha lista não consiste, assim, nas dúvidas de um escritor, mas no agradecimento de um insone.

Cito de memória e em excesso: o livro dos recordes do Guinness que minha mãe me presenteou quando era criança. Tchecov e seus contos onde os personagens dialogam sobre coisas aparentemente sem importância. Os paradoxos e jogos de linguagem de Lewis Carroll. Hermelinda Linda, um comic em que uma bruxa gorda e feia faz feitiços por dinheiro, e cujos resultados não sempre são felizes para seus clientes. A desesperada intimidade das cartas de Kafka a Felice Bauer. Os contos fantásticos de Julio Ramón Ribeyro, que li como uma tarefa feliz no colégio. A curiosidade alegre de Ítalo Calvino, talvez o único escritor que gostava que o interrompessem. Dostoiévsky e a confissão em tom de acusação contra si mesmo em “Memórias do Subsolo”. Quase todas as biografias de Stephen Zweig e quase todas as críticas às biografias nos livros de Janet Malcolm. Vallejo e sua revolução do idioma. Vargas Llosa na “Guerra do Fim do Mundo”. Pessoa e sua integridade para ser outros sendo a si mesmo. Barthes de “Mitologias”, onde cria novos significados pop olhando, por exemplo, para um filé com batatas fritas. Hannah Arendt e seus perfis intelectuais. A atmosfera de fatalidade e do imprevisível em García Márquez de “Crônica de uma Morte Anunciada”. Revistas como “The New Yorker” e “The Believer”. O encanto do sentido comum nas crônicas para mulheres de Clarice Lispector. Theodor W. Adorno traduzindo para nós a arte em “Teoria Estética”. Todas as verdades triviais nos artigos de Charles Lamb, Roberto Arlt, Luis Tejada, Giovanni Papini, Salvador Novo e Joaquín Edwards Bello.

Thomas Bernhard e sua extrema experiência da doença em livros como “Respiração”, Sherlock Holmes e a obsessão com a evidência. Todos os filmes de Werner Herzog e o diário onde escreve sua teoria sobre a crueldade da natureza . O antropólogo Clifford Geertz em “O Antropólogo como Autor”. As crônicas esportivas de Nelson Rodrigues. Ou de Santiago Segurola, Enric González e Ramón Besa no “El País”. Carlo Ginzburg e a militância pela verdade. Jon Lee Anderson e seu vício de narrar furacões e tempestades . David Foster Wallace e essa naturalidade para pensar em prosa vertiginosa e com excesso de informação, enquanto nos conta o que acontece com uns milionários em uma piscina. Martin Caparrós e o mundo visto desde seus bigodes. Juan Villoro e o namoro implacável entre inteligência e sorriso. Gay Talese e seu estilo para dizer a verdade sem ofender .

A todos esses autores, e outros de quem me esqueço nesses minutos, lhes devo o prazer haver estado só e bem acompanhado. Quem sabe o que lhes devo quando escrevo.

Se nos últimos anos tive alguma influência em minha escritura, creio que foi a de minha mãe. Pelas madrugadas, quando o câncer não a deixava dormir, ela aparecia detrás de minhas costas enquanto eu escrevia.

Folha – Como vê o cenário da crônica no Brasil? Qual a nossa particularidade, no gênero, em relação aos outros países?

Villanueva Chang – Ainda que, desde mais ou menos sete anos atrás, nos tempos do Lula, começou uma tentativa de romper as barreiras linguísticas, o Brasil continua sendo esse vizinho gigante e misterioso, tão próximo quanto desconhecido, mas cuja mera pronúncia de seu nome nos faz sorrir.

Como não sou um especialista, e meu português ainda é o de uma criança de cinco anos, não posso dizer nada sério sobre o jornalismo brasileiro, exceto que crescemos com o rumor da qualidade exemplar de suas investigações.

Sobre o jornalismo narrativo brasileiro _só para que nos entendamos, porque detesto essas classificações de “narrativo” e “investigativo”, como se um não tivesse nada a ver com outro, o grande trabalho de uma revista como a “Piauí” deveria ser traduzido ao espanhol e ao inglês em caráter de urgência.

E tenho tentado ler cronistas brasileiros do passado, como Machado de Assis e João do Rio, além de Nelson Rodrigues, a quem publicamos recentemente na “Etiqueta Negra”.

Folha – Como é sua oficina de texto? Qual a preparação necessária?

Villanueva Chang – “De Perto Ninguém É Normal” é uma proposta para resolver problemas de apuração, escrita e edição a quem queira aprender a escrever um perfil. Resumindo: Tudo o que queremos publicar _desde o relato de um crime a um fenômeno de internet, desde um descobrimento científico acidental até a súbita ascensão de um presidente_ se trata de algo tão enigmático como simples: entender e traduzir as pessoas. Há dois mil anos, Plutarco advertia que os atos mais destacados de uma pessoa nem sempre revelam sua bondade ou sua maldade. A pergunta é: quem é essa pessoa? O que diz, o que oculta e o que faz? Assim como há críticos de vinhos, dizia Helen Benedict, quem publica um perfil é um crítico de pessoas. Quem escreve um perfil atravessa uma montanha, ou um deserto, de arquivos, entrevistas e cenas das quais é testemunha, e que, desde seu olhar seletivo que tenta entender alguém, desde a presidente a um carniceiro. Trata-se de entender a uma pessoa em seus atos públicos e íntimos, uma pessoa com quem pode ter dialogado entre três minutos e dois anos, ou, inclusive, nunca tê-la visto. Trata-se de escolher entre pessoas públicas e anônimas alguém tão exemplar quanto excitante ou contraditório, e de fazer uma excavação em sua vida e em sua personalidade.

O perfil é o gênero mais completo e ao mesmo tempo o mais falível: quem se propõe a publica-lo como um texto escrito para uma revista ou como um documentário audiovisual, enfrenta-se a um gênero tão ambicioso como decepcionante.

A oficina dura três sessões, um total de 13 horas juntos em três dias consecutivos. Leremos fragmentos de uns 20 episódios de perfis em espanhol e em inglês que entregarei como material de discussão.

Cada leitura será um caso universal para resolver problemas no trabalho de campo e no trabalho de escritório.

Além disso, leremos uma mostra de arquivos privados do processo de edição que tenho com os autores em “Etiqueta Negra”.

A partir desses textos publicados e dos arquivos privados, discutiremos como produzimos e vendemos nossas ideias de histórias, discutiremos como conseguimos o acesso a uma pessoa e ganhamos sua confiança, como saímos da situação teatral da entrevista, o que observar e o que narrar.

Folha – Como anda dividindo seu tempo? Está escrevendo algo?

Villanueva Chang – Agora mesmo estou em Paris e vim em busca de um jardineiro. Chama-se Gilles Clément e é professor da Escola Superior de Paisagem de Versalhes, mas, sobretudo, é um grande paisagista e criador de jardins públicos e privados na França.

Não sei o que sucederá com minha história quando o encontre. Só sei que espero que voltar para casa com vontade de plantar mais de uma árvore e de sujar-me com terra como o jardineiro de minha infância, que visitava minha casa todos os meses.

Nunca soube seu nome e suponho que essa história é uma dívida pendente com ele.

Quando vá a São Paulo, espero poder ver uma parteira brasileira que trouxe ao mundo mais de 5 mil crianças e cujas avó, mãe e filha foram parteiras. Esse perfil será também uma coisa muito pessoal porque eu não tenho filhos e não me entusiasma a ideia de tê-los.

Minha terceira história pendente é perfilar um fabricante de chocolate equatoriano que conheci aqui em Paris.

Sem querer, esses três perfis em progresso compõem uma história íntima do artesanado, de voltar a fazer o que é mais importante com nossas mãos em tempos de vício à tecnologia.

 

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