Uruguai, aula de consenso para a região

Por Sylvia Colombo

“A imprensa do mundo todo fica impressionada com o modo como debatemos aqui no Uruguai”, disse Luis Lacalle Pou, candidato do partido nacional (Blanco), na noite do último domingo, após conhecer o resultado do primeiro turno das eleições, que apontam para um segundo turno, a ocorrer no próximo dia 30 de novembro.

De fato, durante a cobertura do pleito de anteontem, era lugar-comum entre os colegas jornalistas estrangeiros o consenso de que os uruguaios se respeitam entre si como poucas sociedades no mundo atual. Bastou colocar os pés em São Paulo, e ler e ouvir tantas manifestações de preconceito, divisão e até separatismo, após o resultado da votação aqui no Brasil, para confirmar a sensação que se tem de que o Uruguai tem um nível de discussão política mais elevado do que aqui, e mesmo do que na Argentina, onde a mesma é muito bem informada e politizada, mas extremamente passional e visceral.

Junto com a votação para presidente, o Uruguai teve também um referendo, para decidir sobre a redução da maioridade penal. Particularmente, eu esperava ver mais temperatura nessa discussão, cujo tema é bastante polêmico e sensível. Mas o assunto foi debatido como os demais. Havia cartazes nas ruas, passeatas, posicionamento dos candidatos (partidos blanco e colorado a favor e a Frente Ampla contra), mas o nível era extremamente brando. Ninguém parecia defender a causa de um ponto de vista pessoal ou vingativo, tampouco revoltar-se contra ela desde uma perspectiva romântica ou revolucionária. Era apenas mais um tema. Assim como foram apenas temas da agenda outras questões tão sensíveis que acabaram virando lei: o aborto e a maconha. Pesquisas indicam rejeição alta a essas legislações, porém, o respeito ao fato de terem sido aprovadas por meios democráticos imperam. Até o candidato mais à direita, Pedro Bordaberry, filho de um ex-ditador uruguaio, disse em entrevista à Folha que era contra o aborto, mas que não iria contra a lei, pedir sua revogação nem nada, caso fosse eleito. “Está aprovada, podemos retocar, reformar, mas não podemos derrubar”.

Os dois discursos, de ambos os candidatos, no domingo à noite (veja os vídeos neste post), giraram em torno da ideia de consenso. Tabaré Vázquez subiu ao palco primeiro, logo após conhecer sua dianteira na corrida contra o partido blanco. Para milhares de pessoas que o foram ver na 18 de Julio, principal avenida de Montevidéu, disse que o caminho para o segundo turno será de “diálogo, tolerância e de ouvir todas as forças políticas”, mencionando, inclusive, a Bordaberry _só a título de comparação, se algum líder peronista argentino mencionasse que estava conversando sobre alianças com o filho de um ex-ditador, isso marcaria simplesmente o fim de sua candidatura. Tabaré ainda observou que prolongar a campanha mais um mês podia parecer “tedioso e chato”, mas que essa “era a lei, e a lei está acima de tudo”, no que foi intensamente aplaudido, e que só acreditava poder montar um governo progressista se este fosse de consenso.

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Já Lacalle Pou, que antes de discursar viu respeitosamente pela televisão o ex-presidente falando, disse que seu objetivo “não é tirar a Frente Ampla, mas de chegar ao poder, e aí incluir a todos”. Defendeu que a tradição do consenso era um orgulho para o Uruguai e que isso sim deveria ser mantido e defendido. “Ninguém deve dizer que o outro é mau”, concluiu.

Obviamente, pode-se dizer que são discursos políticos e eleitoreiros, que não passam de estratégias para cooptar a oposição. A questão é que os uruguaios agem assim mesmo. Em uma semana no país, foi impossível encontrar quem fosse contra o atual governo ou as leis aprovadas e que quisessem tira-los do caminho por uma via que não fosse a do consenso e a da democracia _parece o óbvio, mas em outros países defende-se isso, pelo menos nas manifestações informais.

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Ao fim da noite, as pessoas voltavam para casa, bandeira embaixo de um braço, garrafa de mate debaixo do outro, cruzando-se pelas ruas. Montevidéu, cidade de 1 milhão de habitantes, é pequena e todos se cruzam o tempo todo. O ato de Tabaré foi no centro, o de Lacalle Pou, num local da “rambla”, era possível ver apoiadores de ambas as agrupações caminhando juntos. De ficar de queixo caído, nada mais.