O “Bogotazo”, ao vivo e a cores

Por Sylvia Colombo

“Cesó la Horrible Noche” é uma frase do hino nacional colombiano que faz referência ao eterno anseio deste país vizinho ao Brasil pela paz. Cindida pela violência, dos confrontos entre liberais e conservadores no século 19, ao embate causado pela desigualdade, por questões agrárias e pelo narcotráfico nos séculos 20 e 21, a história da Colômbia é um convite à reflexão sobre as estruturas sobre as quais se armaram as atuais sociedades latino-americanas.

O cineasta Ricardo Restrepo tomou a frase simbólica para dar título a seu documentário, que será exibido no Brasil na mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul, que ocorre entre 3 de novembro e 14 de dezembro. O evento é promovido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (mais infos aqui: www.mostracinemaedireitoshumanos.sdh.gov.br).

O filme é uma raríssima compilação de imagens de Bogotá nas semanas seguintes à explosão do chamado Bogotazo _onda de violência que destruiu parte da cidade a partir do assassinato brutal do líder liberal Jorge Eliecér Gaitán, em 9 de abril de 1948. Tido como provável próximo presidente da Colômbia e popular entre os trabalhadores, Gaitán foi assassinado à queima-roupa, em plena hora do almoço, no centro histórico da cidade. A revolta foi tal que destruíram-se casas, comércio e veículos. O assassino, de quem não se pôde recolher nenhuma informação sobre sua motivação, foi morto pela turba e seu corpo arrastado pelas ruas. Em seu livro autobiográfico (“Vivir para Contarla”), Gabriel García Márquez relata como foi a explosão, na qual a pensão em que vivia foi destruída. O período de enfrentamentos entre os dois grupos (conservadores e liberais) continuaria por dez anos, e ficaria conhecido como La Violencia.

Foi neste cenário que o médico Roberto Restrepo Ramírez, avô do cineasta, que havia comprado uma câmara 16mm em 1936, saiu as ruas para filmar e tentar entender a febre que tomava seu país. O que ele colheu é de uma riqueza e poesia imensas. Entre os escombros a que se reduziu o centro de Bogotá, caminham pessoas, bem ou mal vestidas, ricas e pobres. O foco vai para seus olhares, que mostram uma mistura de medo, altivez e tristeza. Quando miram a câmera, Restrepo desacelera, e é como se esses personagens do passado fizessem perguntas muito diretas ao presente.

“Há uma carga política e social muito grande nessas imagens, principalmente se fizermos a ligação com o que está acontecendo hoje. Eu compartilho os sentimentos de meu avô, que saiu às ruas com sua câmara não porque houvesse tomado um partido no conflito. Ele estava aterrado e envergonhado com o que acontecia”, diz Restrepo à Folha. A Colômbia vive um duro momento de seu processo de negociação de paz entre o governo e as guerrilhas _Farc e ELN_, numa tentativa de encerrar um conflito iniciado há 50 anos.

“Como meu avô, sou cético. Não acredito nesse processo e creio que o importante seria voltar às perguntas iniciais, sobre porque se iniciaram nossos conflitos históricos, e a resposta é a desigualdade social”, diz o cineasta. Essa desigualdade Restrepo evidencia ao focar os pés descalços dos trabalhadores, assim como as dobras das elegantes roupas da elite bogotana, reunida sorridente para bailes e situações festivas, no meio de tamanha convulsão.

“Peguei a frase do hino, porque a considerei emblemática desse contínuo desejo da paz por parte do povo colombiano. Só nas letras, na literatura ou na poesia podemos sonhar com o fim das noites azedas de violência e autodestruição”, conclui.

As imagens, coloridas, ficaram perdidas por mais de 30 anos. Coloridas, aproximam ainda mais a história dos dias de hoje e permitem que o Bogotazo não fique conhecido apenas como um capítulo embolorado de um livro de história.

Os brasileiros terão uma boa oportunidade de conhecer as raízes do longo e desgastante conflito colombiano, que traz por detrás uma história de desigualdades agrárias e de uma forte concentração de poder por parte de uma elite. Não serão poucos os que reconhecerão as analogias possíveis com o caso brasileiro. Fecho com uma imagem do local onde morreu Gaitán, clicada por mim em abril deste ano, em visita a Bogotá. A cena do crime virou local de reverência ao líder político e símbolo daquele difícil período. Fica bem no centro, ainda muito agitado e comercial, da cidade.

gaitan