O que diria Bioy Casares se baixasse em Buenos Aires hoje, dia de seus 100 anos?

Por Sylvia Colombo
O escritor Bioy Casares (Foto: Divulgação)
O escritor Bioy Casares (Foto: Divulgação)

Imagino Adolfo Bioy Casares, sentado numa poltrona impecável estilo Recoleta em algum lugar do Além, lendo os cadernos culturais do mundo neste último fim de semana. As homenagens ao centenário de seu nascimento, que se comemora hoje, foram muitas. Creio que deva ter ficado feliz ao ver uma celebração literária e apolítica de seus textos em jornais argentinos, brasileiros, colombianos, mexicanos, espanhóis e outros. Nela se confirma a presença de sua obra no cânone do século 20, se resgatam itens de início considerados menores, se eleva sua parceria com Jorge Luis Borges (1899-1986) e, mais, se festeja seu caráter profundamente distinto a de seu amigo. O autor de “A Invenção de Morel” (1940) e vencedor do prêmio Cervantes (1991) era festeiro, bon vivant e encantador de mulheres.

Tudo teria parecido lindo ao Bioy de além-túmulo, não fossem as notícias perturbadoras sobre o que, de fato, vem acontecendo com seu legado do ponto de vista material. O abandono de sua biblioteca e a disputa acirrada de herdeiros por seu imenso patrimônio seria o grande problema concreto de Bioy caso baixasse em Buenos Aires amanhã. Não poderia, infelizmente, curtir uma caminhada pela elegante calle Posadas, apoiado em sua fina bengala, nem parar num de seus sebos preferidos. Seria, provavelmente, levado a algum escritório de advocacia no barulhento Microcentro para tentar colocar um pouco de ordem nas coisas.

A confusão começou logo depois de sua morte, em 8 de março de 1999, conta uma esclarecedora reportagem publicada ontem no jornal “Clarín”. Estupefactos, os herdeiros do escritor descobriram que ele deixara 20% de seus bens à enfermeira que dele cuidara em seus últimos anos, Lidia Ramona Benítez. Mais, os outros 80%, divididos em duas metades, ficariam uma parte com um filho tido fora do casamento, Fabián Bioy Demaría, e a outra, para os três netos, filhos de Marta Bioy Ocampo. A esta altura, já haviam morrido sua esposa de toda a vida, Silvina Ocampo e sua filha. Alguns anos após sua própria morte, o filho Fabián também desaparece de forma trágica, com apenas 42 anos.

Desta forma, o imenso patrimônio imobiliário de Bioy, que incluem o apartamento de 700m2 em que viveu por 50 anos no elegante bairro da Recoleta, a fazenda em Pardo onde cresceu e um apartamento em Cagnes-Sur-Mer, na França, entre outros, os direitos para as reedições de suas obras e seus livros e pertences estão, em grande parte, nas mãos de uma das amantes do escritor, a mãe de Fabián, Fina Demaría. Os netos, que preferem não falar, discordam da sucessão e reclamam do desgaste de mais de 20 anos de indecisão sobre o que pertence a quem, além de apontarem que, com as mudanças da política de valor da moeda argentina dos últimos tempos, já não se sabe bem quanto vale a herança e quanto se perdeu nesse meio tempo.

Enquanto isso, a situação de sua biblioteca não tem destino mais fácil. Bioy havia declarado em vida que gostaria de deixar seus livros ao país, e de fato a Biblioteca Nacional fez esforços para adquirir a coleção, também pretendida pela Universidade de Princeton, dos EUA, mas desavenças fazem com que o acervo siga amontoado num conjunto de 400 caixas fechadas até os dias de hoje. Além de valiosa pelos títulos, reúne livros com anotações do próprio Bioy e de Borges nas margens dos textos. Tudo se deve, segundo o “Clarín”, à pressa de esvaziar o apartamento, o que motivou um inventário incompleto e falho, e a precipitação em guardar os livros. Guardados num depósito, e sem que se saiba com exatidão a lista de títulos e o valor dos livros, estão à mercê de decisões judiciais, que ordenam que eles sejam repartidos por lotes do mesmo valor e entregues aos herdeiros, perdendo a ideia de conjunto. A Biblioteca Nacional ainda não desistiu, e agora tenta comprar os lotes para tentar manter o acervo unido e, assim, transporta-lo para a consulta pública como um todo orgânico. Do modo como a disputa segue, porém, é provável que se passem mais algumas décadas, às quais não resistirão muitas das páginas amarelas por conta da ação do tempo.

Na entrevista deste link, pode-se ver Bioy em seus últimos anos de vida, sendo entrevistado em seu apartamento na calle Posadas. Eram os anos Menem, mas o escritor recusa-se a fazer qualquer comentário político. Tendo atravessado o peronismo, a ditadura, a redemocratização e os chamados anos neo-liberais, Bioy não se abala por essas mudanças de rumo. Apenas diz: “não creio que a Argentina hoje seja muito diferente do que sempre foi”.