Gustavo Cerati, a irreverência do pós-ditadura

Por Sylvia Colombo
O artista Gustavo Cerati, morto na última quinta-feira (Foto: Divulgação)
O artista Gustavo Cerati, morto na última quinta-feira (Foto: Divulgação)

 

De repente, era possível cantar outra vez. Usar roupas coloridas. Construir canções usando frases dúbias, se expressar por meio de ironias. Ser extravagante. O músico Gustavo Cerati, morto na última quinta-feira, em Buenos Aires, foi um símbolo da Argentina que voltou a sorrir após a ditadura militar (1976-1983). Primeiro, com a volta à democracia com Raúl Alfonsín e o fim da repressão, depois, com os tempos de economia dolarizada de Carlos Menem. Era um período de otimismo.

Não que o universo que Cerati criou, primeiro com o Soda Stereo, depois para sua carreira solo, fosse alienado politicamente. Pelo contrário, suas letras eram tão sofisticadas que chamavam à experimentação, à desenvoltura, ao mesmo tempo que carregavam referências amargas do que o país viveu durante um regime que acabou com mais de 20 mil vidas.

É comum que se compare o Soda Stereo e os Fabulosos Cadillacs com nossas bandinhas dos anos 80, Paralamas, Capital Inicial. Se tiveram influências compartilhadas, principalmente o pós-punk britânico, as diferenças eram muito latentes. As bandas argentinas eram musicalmente mais sofisticadas. Enquanto as letras, assim como hoje se nota na produção do cinema local, eram mais poéticas e elaboradas, reflexo de um país que sempre privilegiou a educação mais do que o Brasil e que formava com mais solidez seus adolescentes.

Nos últimos quatro anos, a clínica Alcla, no bairro de Belgrano, era local de peregrinação sempre que havia a uma efeméride relacionada a Cerati. Seu aniversário, o da banda, ou o da terrível noite de 14 de maio de 2010, quando o cantor deixou o palco da Universidade Simón Bolívar, em Caracas, para nunca mais emitir nenhuma palavra, entrando num longo e dolorido coma.

O fato de a fatalidade ter ocorrido na Venezuela expõe outra característica-símbolo de Cerati. Em geral, os artistas argentinos são vistos de forma isolada no panorama latino-americano, ou se internacionalizam à europeia, como os escritores Borges e Cortázar. Cerati não. Preferiu cultivar um público latino-americano amplo. As mais de 10 turnês do Soda e as outras tantas que deu sozinho privilegiaram as capitais do continente. E, apesar de mostrar-se como um produto típico da Argentina pós-ditadura, a música de Cerati evocava uma utopia latino-americana setentista renovada através do pop e da experimentação.

Que tenha se calado num momento duro para a Argentina, de crise política e pessimismo com relação à economia, coloca apenas um pouco mais de dramaticidade ao difícil processo que vive o país nesses tempos. Desde que Fito Paez passou a se dedicar ao panfletarismo kirchnerista, mais que nunca o país precisa de um poeta pop capaz de emocionar multidões.