Nicanor Parra chega aos 100 dando vida à poesia

Por Sylvia Colombo
O poeta chileno Nicanor Parra, 100 (Foto: Berta López Morales)
O poeta chileno Nicanor Parra, 100 (Foto: Berta López Morales)

O Chile é terra de grandes poetas. Basta dizer que possui dois prêmios Nobel de literatura (contra nenhum do Brasil), e ambos foram entregues a eles, Pablo Neruda (1904-1973) e Gabriela Mistral (1889-1957). Quem aterrissar em Santiago hoje, porém, dará de cara com a imagem de uma outra grande figura dessa escola. Cartazes, mostras, exposições e outras homenagens exibem o rosto franzido e enrugado, rodeado de uma vasta cabeleira branca, do sobrevivente de uma incrível geração de poetas, da qual fazia parte também Vicente Huidobro (1893-1948). Seu nome é Nicanor Parra, um gigante das letras latinoamericanas, que completa 100 anos de vida. Vencedor do prêmio Cervantes de 2011, o mais importante da língua hispânica, traduzido para mais de 30 idiomas (por incrível e injusto que pareça, o português não é uma delas), Parra segue recolhendo elogios da crítica internacional. O norte-americano Harold Bloom vê nele um sucessor de Walt Whitman (1819-1892).

Nascido em uma família de oito filhos, com pai professor e mãe costureira, matemático e inventor da “anti-poesia”, Parra é irmão da também poeta e cantora Violeta (abaixo, filme de Andrés Wood de 2012 que trata da trajetória dos irmãos). A dupla percorreu o Chile realizando um verdadeiro inventário da cultura regional dos rincões, que depois incorporaram em seu trabalho e o divulgaram com grande repercussão na Europa e nos EUA.

Numa época em que posicionar-se politicamente era visto como uma obrigação do artista, Parra não se deixou levar pelo calor das discussões. Por isso, foi e é constantemente cobrado. Primeiro, não ofereceu seu apoio ao presidente socialista Salvador Allende (1908-1973). Quando o general Augusto Pinochet (1915-2006) tomou o poder, após um golpe militar, foi flagrado tomando chá com o presidente Richard Nixon (1913-1994), quando já se documentava que a participação dos EUA no golpe era um fato. Por outro lado, visitou a então URSS e Cuba e apontou críticas ao socialismo real. E, enquanto os poetas e intelectuais chilenos exilavam-se em outros países, Parra ficou no Chile, dando aulas e trabalhando normalmente. A quem o acusa de conivência, porém, Parra se diz um livre-pensador e nega ter se aliado ao conservadorismo. E, justamente, apontam a outra direção o trabalho de resgate do conhecimento popular e o tom engajado e humanista de seu trabalho com a irmã, Violeta _autora de “Gracias a la Vida” e “Volver a los 17″. Há alguns anos, mostrando seu tom irônico para tratar o poder, fez uma instalação gigantesca em Santiago que mostrava todos os mais de 30 presidente chilenos dependurados.

Parra depois sairia, a estudar Shakespeare (a quem traduziu) em Oxford. Mas gosta mesmo é de viver em Las Cruces, sua casa próxima ao mar e distante 100km da capital chilena. Quando tem de se movimentar pela cidadezinha de 2 mil habitantes ou ir ao centro de Santiago, o faz com seu fusca, que diz não ter intenção de deixar de dirigir apesar da avançada idade. Com seu jeito extravagante e postura rebelde, Parra vem ganhando mais e mais adeptos entre as novas gerações, apresentadas a elas com novo viés por escritores chilenos de “culto”, como Roberto Bolaño (1953-2003). No Brasil, segue o imperdoável silêncio com relação à sua obra.