O novo contra o velho: o Uruguai repete o Chile de 2010?

Por Sylvia Colombo

As próximas eleições uruguaias, em 26 de outubro, estão colocando a sociedade do país-vizinho num dilema parecido com o vivido pelo Chile em 2010. Naquela ocasião, o veterano líder de esquerda Eduardo Frei, então com 67, tentava manter a coalizão de centro-esquerda Concertación no poder por mais quatro anos. O partido, que governava desde o fim da ditadura (1990), apoiava sua campanha em seus logros passados, muitos deles alcançados durante a gestão do próprio Frei (1994-2000), segundo presidente pós-regime militar. Mas os avanços na economia (país cresceu 8% em seu governo), os tratados de livre-comércio e o fato de ter sido o presidente enquanto o general Pinochet (1915-2006) começava a enfrentar a Justiça não bastaram. Naquele momento, Frei representava uma velha esquerda vista como antiquada e com a qual a população jovem não se identificava. Seu adversário, o conservador Sebastián Piñera, então aos 60, apostou num discurso renovado, humano, que romperia com os vícios da Concertación na sua segunda década no comando do país e focaria em adolescentes e universitários. A campanha foi bastante marcada pela proposta de um rejuvenescimento, que fica evidente no spot reproduzido aqui. Tentou-se, ainda, evocar a famosa campanha do “não”, levada ao ar em 1989, antes do plebiscito no qual os chilenos escolheriam se queriam manter a ditadura Pinochet ou modernizar o país, abrindo-o para a democracia. O filme “No” (2012), dirigido por Pablo Larraín, mostra como montou-se uma estratégia publicitária apoiada em jingles alegres, coreografias coloridas, tipografia bem humorada. O mote era “La alegria ya viene” (a alegria já vem). Os envelhecidos militares não tiveram com que responder, além de estarem na mira das crícas das organizações de direitos humanos e dos meios internacionais por conta dos abusos e das mais de 3 mil mortes do regime (1973-1990). O alegre “no” ganhou por 54% e eleições foram convocadas.

 

Quem está com esse mesmo problema da renovação, agora, é Tabaré Vázquez. Primeiro líder de esquerda a chegar ao cargo máximo do Uruguai, em 2005, esse médico oncologista de 74 anos busca ganhar a eleição apoiado nos avanços que alcançou em sua primeira gestão. Dono de um carisma até maior do que o atual presidente popstar José “Pepe” Mujica, Tabaré pensava que sua tentativa de voltar ao cargo agora seria fácil. Mas, os dois velhos esquerdistas não contavam com um drible bem aplicado pelo jovem conservadorismo uruguaio. Apoiado também ele num discurso jovem, alegre e colorido, Luis Lacalle Pou, 41, o jovem filho de um ex-presidente candidato do partido Nacional, vem crescendo nas pesquisas, enquanto Tabaré cai. Fiz matéria sobre o assunto em Mundo há duas semanas, mas para resumir, basta dizer que Tabaré caiu de 42% para 39%, enquanto Lacalle Pou avançou de 27% para 30%, apontando seguramente para um segundo turno. A campanha do hoje deputado está bastante apoiada no bom uso do Twitter e do Facebook, enquanto a da vetusta Frente Amplia exibe spots publicitários em que “gauchos” vestidos a caráter defendem as coisas boas que há no interior do país. A provocação atingiu níveis de desrespeito, quando Lacalle Pou desafiou Tabaré a dar piruetas apoiado num poste do centro de Montevidéu, ou quando instou o ex-presidente, José Mujica e Julio Sanguinetti a formarem um “conselho de anciões” e desistirem dos cargos eletivos.

É no mínimo curioso analisar os vídeos, e refletir sobre o poder do discurso de renovação para qualquer campanha eleitoral, seja o candidato de esquerda ou de direita. A história recente da América Latina mostra que quem agarra bem essa bandeira, sai vitorioso. Vale a pena conferir o que acontecerá no Uruguai daqui a pouco mais de um mês.