“Antes de dormir, em minha cabeça, dava um tiro em Videla”

Por Sylvia Colombo

Na madrugada do dia 23 de outubro de 1976, cinco homens vestidos de civis entraram na casa de Graciela Fernández Meijide, uma professora de francês, de classe média, em Buenos Aires. Além da família, estavam no apartamento alguns amigos de seus três filhos. Os repressores perguntaram por Pablo, que tinha 17 anos e dormia num dos quartos com os colegas. O menino levantou-se assustado, identificou-se, e logo os agentes o trouxeram para a sala, de pijama, e disseram que ele teria de acompanha-los. Vestia apenas um pijama. Desesperada e sem poder fazer nada, Graciela viu que estavam levando seu filho sem dizer para onde. A última coisa que se lembra foi de ter entregado um pulôver para que o menino se agasalhasse. Pablo não era um guerrilheiro, apenas andava com um grupo de amigos filiados à uma agrupação de esquerda.

Graciela, hoje aos 83, nunca mais viu Pablo e até hoje não sabe o que aconteceu com ele. Supõe que tenha sido levado para um centro clandestino no Campo de Mayo e aí, assassinado.

A história terrível desta mulher é, infelizmente, parecida com a de muitas mães argentinas que tiveram seus filhos sequestrados e mortos durante a ditadura militar (1976-1983). Estimativas apontam para mais de 20 mil vítimas fatais do aparato repressor do Estado. Muitas dessas mulheres enlutaram-se para sempre. Outras, foram à luta de diferentes maneiras.

Com a mesma idade hoje de Estela de Carlotto, a líder das Avós da Praça de Maio que na última semana recuperou seu neto, 36 anos depois do assassinato da mãe, a montonera Laura Carlotto, Graciela Meijide é hoje a principal voz quando se fala em direitos humanos na Argentina. Logo após a democratização do país, em 1983, Graciela integrou a Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas). Entregue em 1984, o relatório “Nunca Más”, realizado pela comissão, chefiada pelo escritor Ernesto Sábato (1911-2011), foi o mais completo e confiável relatório dos crimes ocorridos no período. Sem esse importante documento, não teriam sido possíveis os julgamentos das Juntas e todas as condenações realizadas recém-instalada a democracia.

A escritora e ativista Graciela Fernández Meijide (foto: "La Nación")
A escritora e ativista Graciela Fernández Meijide (foto: “La Nación”)

De lá para cá, a história dos direitos humanos argentina teve idas e vindas. O processo iniciado por Raúl Alfonsín (1927-2009), infelizmente, travou por pressão política e militar. Em 1986 e em 1987, o presidente, já caindo em descrédito, teve de promulgar as leis de Obediência Devida e Ponto Final, eliminando as penas a militares de menor escalão, que estavam “cumprindo ordens”. Nos anos 90, dentro de uma política de conciliação nacional promovida por Carlos Menem, indultos foram concedidos a militares e ex-guerrilheiros. Com a chegada dos Kirchner ao poder, em 2003, todas essas leis foram anuladas e iniciou-se um período de amplos julgamentos, mas somente do lado dos militares.

Meijide seguiu em seu ativismo pelos direitos humanos, mas nunca compartilhou com o maniqueísmo da visão dos Kirchner e na transformação dos montoneros em heróis. Em “Eran Humanos, no Heroes” (Sudamericana), defende que se busque entender a geração de jovens engajados da qual participou seu filho como um fenômeno histórico, integrado ao contexto da América Latina de então, e não simplesmente como mártires inquestionáveis, como faz o governo Cristina Kirchner. Meijide reforça o exemplo de governantes como o uruguaio Mujica, a brasileira Dilma ou a chilena Bachelet, que fizeram a autocrítica da luta armada e optou pela via institucional. Para Meijide, Cristina prega um clima de revanchismo e vingança, tentando identificar-se com um passado montonero do qual, por mais que enfeite o discurso, não fez parte.

No ano passado, Meijide viajou ao Brasil para gravar com o ex-montonero radicado em Santa Catarina Hector Ricardo Leis. Em “El Diálogo”, os dois debatem como aquela época cindiu a Argentina de nossos dias. Gravado na casa do ex-guerrilheiro, no Campeche, o filme é um exemplo de diálogo construtivo entre partes que não concordam entre si. Um exemplo em tempos de tanta polarização e intolerância política. Não só na Argentina.

O longo depoimento de ambos traz à tona detalhes de como atuavam as equipes de repressão, os bastidores das decisões dos montoneros e deixa no ar uma pergunta e um apelo: é preciso ouvir os que participaram das ações, antes que morram e levem as respostas para a tumba, como fez o general Jorge Rafael Videla (1925-2013), que morreu na cadeia.

Folha – Como surgiu a ideia de filmar “El Diálogo”?

Graciela Fernández Meijide – Conheci Leis por meio da internet, quando ambos estávamos escrevendo nossos livros. Discutíamos, principalmente, os pontos nos quais discordávamos. Sua visão é a de um ex-montonero, a minha, de uma mãe que perdeu um filho. Eu sabia que ele estava muito doente, mas me decidi por ir visitá-lo, com Pablo Avelluto, que produziu o filme. Ao projeto, se somaram dois cineastas, Pablo Racioppi e Carolina Azzi. Não íamos com a ideia de fazer um filme, porque não sabíamos como ele estava. Chegando lá, a conexão entre nós foi tão boa que acabamos conversando e filmando durante seis dias, são quase 22 horas de gravação o que temos. Hoje isso já não seria possível, porque está muito doente. Leis foi montonero em 1976, atuou na luta armada, e no ano seguinte refugiou-se no Brasil, onde acabou instalando-se. Além do filme, que é obviamente uma versão resumida do encontro, sairá um livro pela editorial Sudamericana.

A principal mensagem é essa, que dois pontos-de-vista diferentes sobre os anos 70 podem conversar e discordar. Isso num período que era tão dividido entre peronistas e não-peronistas como hoje, entre kirchneristas e não-kirchneristas. Serve de alerta a essa sociedade de nossos dias sobre o que acontece quando se instala a ideia de que quem está comigo é um amigo, quem não está é automaticamente um inimigo.

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Hoje, quando ouvimos Cristina, Hebe de Bonafini (líder das Mães da Praça de Maio) ou Estela de Carlotto (das Avós), vemos que com eles é assim. O que pensa diferente é o inimigo. Penso que não é assim que devemos construir a história.

Folha – No filme, a sra. diz que, nas primeiras semanas depois do sequestro de Pablo, sonhava toda noite que daria um tiro em Videla, Massera e Agosti [integrantes da primeira Junta Militar que governou a Argentina depois do golpe de 1976]. Mas que depois isso mudou e a sra. se engajou numa luta por meio da institucionalidade. Como foi esse processo?

Meijide – Sim, nos primeiros tempos eu pensava isso, e todos os dias repassava o momento do sequestro na minha cabeça. Mas me dei conta de que, pela gravidade da situação, a minha e a do país, não serviria de nada que eu ficasse para sempre como a mãe de Pablo. Muitas mães e avós fizeram isso. Mas eu sabia que se apenas me deixasse levar pelas minhas lágrimas e pelo meu luto, os militares teriam ganhado. Então comecei a me mexer, a buscar as outras histórias, a investigar, e isso me levou a integrar a Conadep, que permitiu reunir as informações e os documentos que serviram de base para os julgamentos dos anos 80, logo depois do fim da ditadura.

Folha – Como recebeu a notícia do encontro de Guido, neto de Carlotto?

Meijide – Fiquei muito feliz, como fico sempre que se encontra algum filho de desaparecido. É curioso notar a diferença de encontrar esses netos agora de como era no passado. Os primeiros a aparecer eram pequeninos, ainda crianças, e sabíamos que era um processo traumático para quem tinha 4 ou 5 anos, ter que aprender que os pais verdadeiros eram outros. Hoje, vermos o reencontro com esses netos que já são mais velhos (Guido tem 36 anos) traz um outro elemento. Vemos como é para eles dar-se conta de que têm outra história e tomar a iniciativa de ir fazer os testes e conhecer seus verdadeiros familiares. Estamos aprendendo muito, sobre o sofrimento causado pela repressão e sobre a superação e esforço de cada um.

Folha – O que isso significa para o atual momento da história dos direitos humanos?

Meijide – É importante que a política fique de fora, e que as instituições, a Justiça prevaleçam. Sei que é difícil que o kirchnerismo não tente usar isso como instrumento político e de campanha para o ano eleitoral (2015). Porém, quero crer que o símbolo das Avós e o que elas conquistaram até hoje fique por cima disso. É certo que Carlotto se alinhou com o governo e está sempre apoiando Cristina, mas as conquistas são independentes. Há um banco de sangue, advogados, uma equipe que construiu um trabalho conjunto. Além disso, Carlotto se posiciona contra posturas mais radicais das Mães _ela e Hebe de Bonafini se odeiam. Acho que o episódio deve servir para estimular que outras pessoas que tenham dúvida sobre sua identidade busquem investigar seu passado. Isso sim é que é o importante. O governo pode tentar usar politicamente o episódio, mas a verdade é que a busca pelos netos atravessou vários presidentes e de diferentes partidos, e vai continuar. Isso interessa acima de tudo.