Neto recuperado deve dar sobrevida ao kirchnerismo

Por Sylvia Colombo

A recuperação de Guido, neto perdido de Estela de Carlotto, é a mais importante notícia para os argentinos nestes últimos tempos. Nem a Copa do Mundo nem o default podem competir com a comoção que tomou ontem o país com o aparecimento do filho da militante montonera Laura de Carlotto, sequestrada quando estava grávida, em 1977. Para entender porque a história desta mulher de 87 anos pode mudar os acontecimentos políticos na Argentina neste ano pré-eleitoral é preciso saber o peso simbólico que tem os bebês desaparecidos durante a ditadura (1976-1986).

Contabilizados pelas organizações de direitos humanos e pelo governo em mais de 400, essas crianças foram tiradas de seus pais, militantes da resistência, logo após nascerem. Entregues a famílias de oficiais ou de gente da polícia, mudaram de nome, identidade e muitas vezes de cidade e estado. A maioria nunca mais recuperou sua identidade. Mas graças ao trabalho desta mulher, que fundou a associação Abuelas de la Plaza de Mayo, já 114 pessoas, agora com idades na faixa dos 30 anos, descobriram a verdade. As Abuelas fazem um trabalho seríssimo, que envolve um imenso banco de dados genético, advogados, psicólogos e um grande aparato de ajuda a reintegrar os que foram perdidos à sua identidade original.

Entre os netos, há um pouco de tudo. Desde os que não aceitam saber a verdade, aos que assumem imediatamente e passam a militar na associação ou politicamente. Pouco antes de morrer, o general Jorge Rafael Videla, chefe da primeira junta militar que governo ou o país nos anos 70, admitiu pela primeira vez que as mortes dos montoneros eram “necessárias” para a manutenção do regime e que o sequestro de bebês havia sido uma ação sistemática.

O filme “A História Oficial”, que ganhou o Oscar nos anos 80 ao contar a história de uma mulher que descobre que sua filha adotiva é, na verdade, filha de militantes comunistas, é um bom retrato desse processo. A questão dos bebês desaparecidos é talvez o único argumento que une argentinos de esquerda e de direita. Muito mais que as Malvinas, o futebol ou a YPF. Para a grande maioria dos argentinos, o sequestro de bebês foi um crime de lesa humanidade gravíssimo, o mais grave cometido contra a sociedade argentina, e que justamente a pessoa que iniciou e comandou a luta para sua recuperação, hoje, receba a notícia que seu neto foi encontrado, é de uma simbologia muito poderosa. Achava-se que ela morreria sem ver o neto, e sua história é muito bem contada no filme acima, “Verdades Verdaderas”, de Nicolás Gil Lavedra, com Susú Pecoraro, importante atriz veterana argentina, no papel principal.

Alinhadas com o kirchnerismo desde o princípio, as organizações de direitos dos desaparecidos se transformaram em instrumento de propaganda do atual governo. É inegável que os mais de 700 julgamentos, a prisão de Videla (morto no ano passado) e a investigação de diversos crimes da repressão é louvável e coloca a Argentina na vanguarda dos direitos humanos e da Justiça de reparação às vítimas. Porém, o uso político que o governo faz do sofrimento dos parentes das vítimas é vergonhoso. Entre outras coisas, acabou desacreditando as próprias Mães da Praça de Maio, envolvidas em escândalos de corrupção, e transformou filhos de desaparecidos em fantoches políticos, que ganham cargos no governo e juntam associações cujo fim é fazer propaganda do governo.

A arma política que Cristina Kirchner tem na mão agora é poderosa. Com o neto de Carlotto recuperado, pode dizer que seu governo foi o que mais justiça fez às atrocidades dos anos 70. Pela importância e o apelo desta história para todos os argentinos, o episódio pode se transformar no instrumento que faltava à Cristina para poder virar o jogo da derrocada anunciada do kirchnerismo. O candidato que ela escolher, que hoje podem ser o ministro dos Transportes (Randazzo) ou o da Economia (Kicilloff), terão essa importante carta na manga para usar. Não é pouca coisa