O México discute a morte de seus jornalistas

Por Sylvia Colombo
Imagens de exposição em homenagem a jornalistas mortos (Associated Press)
Imagens de exposição em homenagem a jornalistas mortos (Associated Press)

De todos os sérios problemas que enfrenta a mídia latino-americana em suas relações com o poder ou com facções criminosas nada se equivale em gravidade com a situação dos jornalistas mexicanos. Nem as expropriações de meios na Venezuela ou no Equador, ou as medidas para sufocar economicamente os jornais na Argentina ou a manutenção das hegemonias das famílias que também ocupam o poder político, como no caso da Colômbia, podem ser comparadas com a situação mexicana. Ali, profissionais da notícia são censurados, coagidos, sequestrados e mortos, ao tentar contar o que passa de um lado e de outro na guerra do governo contra o narcotráfico, conflito que, desde 2006, já causou mais de 60 mil mortes e 150 mil desaparecimentos. Entre eles, 56 jornalistas perderam a vida, no local considerado hoje mais perigoso para o desempenho da profissão, segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas, baseado em Nova York. Se se conta desde 2000, quando teve início a alternância democrática com o fim da hegemonia do PRI, são 127 jornalistas mortos.

Para discutir essa terrível situação, o projeto NAR (Nuestra Aparente Rendición) se reuniu no último mês em Barcelona para o encontro “México em Trânsito”. Trata-se de uma associação voluntária de jornalistas que visa divulgar as histórias dos profissionais mortos e cobrar a elucidação dos fatos (http://nuestraaparenterendicion.com/), numa espécie de mapa da tragédia atualizado por meio de palestras, ciclos, reportagens e livros. Se há algum aspecto positivo numa situação tão desoladora é o fato de que vários jornalistas e cronistas do continente têm se dedicado a investigar o narcotráfico e suas consequências, oferecendo uma série de reportagens ou livros que ajudam a dar visibilidade ao tema.

“Se escreveu muito e se segue escrevendo, há trabalhos excelentes que chamam à reflexão”, conta à Folha a jornalista mexicana Lolita Bosch, radicada em Barcelona, em conversa por Skype. “Quando muitos dos grandes meios fecharam acordos com o governo para não publicar notícias negativas sobre a guerra, ou estão impedidos pela autocensura a que se impõem os mesmos jornalistas desses meios, é alentador ver trabalhos como os livros-reportagem que vêm saindo”.

É o caso dos convidados ao encontro. Sergio González Rodriguez, ganhador do prêmio de ensaio da Anagrama, pelo livro “Los Huesos en el Desierto”, sobre as matanças de mulheres na Ciudad Juarez. Alejandro Almazán, vencedor do prêmio Gabriel García Márquez com a crônica “Carta desde la Laguna”, publicada na revista “Gatopardo”, sobre a briga entre cartéis nos Estados de Coahuila e Durango. Marcela Turati, fundadora do projeto Red de Periodistas de a Pie (www.periodistasdeapie.org.mx). Edgardo Buscaglia, de “Vacíos de Poder”, sobre o colapso das instituições nos locais afetados pelo narcotráfico. Cecília González, que investigou os laços entre o narcotráfico argentino e o mexicano, em “Narcosur”. E muitos outros.

“É importante levar o que passa ali para o exterior, os cidadãos mexicanos aqui na Espanha e em todo o mundo precisam saber”, completa Bosch. Num momento em que o PRI volta ao poder e não sinaliza uma mudança na política de ação bélica contra o crime organizado, a jornalista crê que o debate se faz mais necessário. “Creio que aos poucos os países latino-americanos tendem a descriminalizar a maconha, já com a cocaína é muito mais difícil, principalmente porque virou um excelente negócio. Uma das coisas que sempre reforço quando falo sobre o tema é que é preciso deixar de pensarmos nos narcotraficantes como sujeitos mal-vestidos, mestiços e pobres. É uma visão equivocada, além de racista. Hoje estão no narcotráfico empresários, gente rica e de boa posição, que não se esconde em buracos, mas vive normalmente nas cidades”.