Patricio Pron, literatura, Malvinas e futebol

Por Sylvia Colombo
O escritor argentino Patricio Pronn (Divulgação)
O escritor argentino Patricio Pron (Divulgação)

A primeira vez que ouvi falar de Patricio Pron foi pelas mãos do amigo diplomata Gustavo Pacheco, então responsável pela área cultural da embaixada brasileira em Buenos Aires, e agora exercendo o mesmo papel na Cidade do México. Estranhei não ser um nome muito citado ali, no circuito editorial portenho, nem parecia ter vínculos fortes com os autores de sua geração. Fui dar uma olhada em seus livros, e o que primeiro me saltou aos olhos foram os fantásticos e atraentes títulos que eles tinham: “La Vida Interior de las Plantas del Interior”, “El Espíritu de Mis Padres Sigue Subiendo el la Lluvia” e “El Mundo sin las Personas que lo Afean y lo Arruinan”. Logo imaginei estar diante de um autor distinto, de quem se diz ter herdado a originalidade do chileno Roberto Bolaño (1953-2003) e que aos 40 anos já coleciona fartos elogios da crítica europeia e estava entre os selecionados da revista “Granta”.

A distância que guarda do círculo literário de Buenos Aires, descobri, pouco depois, vem do fato de que Pron está há muitos anos longe de seu país. Nascido em Rosário, viveu e fez seu doutorado na Alemanha, e agora mora na Espanha desde 2008. Quando finalmente o conheci pessoalmente, durante a Feira Internacional do Livro de Bogotá (em maio), demorei para identificar o sotaque. Ainda sem saber de quem se tratava, achei que era algum jovem escritor espanhol, até que finalmente alguém me disse tratar-se de Pron, com seu corte de cabelo muito particular, as pernas finas marcadas pelas calças justas e vestindo tênis All Star.

Depois de ler “El Espíritu de Mis Padres…”, envolvente livro que mistura memória e jornalismo para tratar dos anos da ditadura argentina, durante a qual cresceu esse filho de militantes de esquerda, engatei no seu mais recente trabalho. Em “Nosotros Caminamos en Sueños”, Pron oferece uma abordagem ao tema da Guerra das Malvinas (1982) irônico e ácido, questionando os nacionalismos, e seguindo um pouco o espírito de um clássico sobre o episódio, “Los Pichiciegos”, de Rodolfo Fogwill (1941-2010).

Leia, a seguir, a entrevista que fiz com o escritor. Infelizmente, nada dele está por enquanto disponível em português.

Folha – Há dez anos, entrevistei Juan José Saer (1937-2005), como você, um escritor argentino que radicou-se por muitos anos na Europa (França), e que via a “argentinidade” de um modo distinto, até pelo fato de, também como você, ele não ser portenho. Você vê algum paralelo no modo como você se relaciona com a Argentina?

Patricio Pron – Para todos os efeitos, eu sou um escritor argentino, ainda que seja parte dessa linha de sombra que conformam os que fomos viver fora, como Saer, que era fantástico. De fato, durante longos períodos, viver fora da Argentina foi a forma mais habitual de ser um escritor argentino. Dessa forma, não me sinto deslocado.

Folha – “El Espíritu de Mis Padres Sigue Subiendo en la Lluvia” é uma autobiografia que remonta a um tempo muito duro na Argentina e que costuma ter ainda muito peso no debate cultural e político do país. Escritores jovens têm oferecido um olhar mais oblíquo e menos maniqueísta do assunto. Você acredita que no âmbito da literatura essa discussão sobre os anos 70 é mais complexa do que no da política, que tende à polarização?

Pron – Penso que a polarização que você menciona contribui para uma visão simplificada da história, mas também acredito que a tarefa dos autores jovens consiste em oferecer visões alternativas da história, talvez mais complexas, mas também mais interessantes e, de uma forma um pouco indireta, mais relacionadas com o que aconteceu ou poderia ter acontecido. Visões mais produtivas na hora de gerar um debate sobre o que acreditamos que ocorreu e de que forma isso nos concerne, aqui e agora.

Folha – Pertencer a um local, mas ser universal na escritura, é algo comum na sua geração, basta pensar nos autores dos movimentos MacOndo e do Crack. Como você vê essa questão e a herança do “boom” latino-americano?

Pron – Talvez a diferença principal entre as duas gerações literárias, a do “boom” e a atual, é que os autores mais jovens não nos sentimos obrigados a explicar nosso país a uma audiência europeia e norte-americana, mas tampouco fingimos que vivemos em Miami, ou algum lugar assim. Vejo uma constatação, uma descoberta para alguns, de que a literatura sempre fala, entre muitas outras coisas, do lugar e da época em que foi escrita, de modo que não é necessário exagerar ambas as coisas, exceto que se esteja buscando uma estratégia comercial. Ao meu redor vejo muitos que querem ser como Carmen Miranda, mas Carmen Miranda não é um produto latino-americano, mas sim norte-americano.

Folha – Qual foi o impacto de haver sido selecionado pela revista “Granta” como um dos melhores escritores jovens de língua hispânica?

Pron – Foi parecido com uma gripe persistente, você pensa que nunca sairá dela, mas logo ela passa e sequer você se lembra que alguma vez a teve.

Folha – Você é muito conectado, atua em blogs, vai a festivais. Como vê a necessidade de os escritores, hoje, terem de viajar e estar presentes na rede para conectar-se com seu público?

Pron – Não creio que seja tão necessário. No meu caso, viajar a festivais, ter um diário público de leituras, etc… São formas de contribuir à criação de uma comunidade de leitores, o que é, penso eu, uma tarefa da literatura, e de tratar de que se produzam mais e melhores diálogos entre os autores e os leitores.

Folha – Você segue conectado com a universidade, ou se dedica completamente à literatura?

Pron – Atualmente me dedico apenas à literatura, a pagar impostos e a evitar que meu gato não se eletrocute. Leio com entusiasmo a produção acadêmica, mas já não trabalho mais para nenhuma universidade.

Folha – Você gosta muito de futebol, e hoje em dia a literatura latino-americana está cheia desses escritores fã do esporte, como Juan Villoro, Martín Caparrós e muitos outros. A ideia de que intelectuais vejam o futebol como algo alienante e raso é ultrapassada?

Pron – O futebol é algo assim como uma religião laica. Na falta de outras, viáveis ou não, uma pessoa abraça a religião futebolística e deixa de lado o preconceito de seus pais, que consideravam esse esporte o “ópio do povo”.

Folha – Como vê a literatura brasileira e a ideia de chegar a esse mercado? Gosta de algum escritor em particular?

Pron – Sou um entusiasta da literatura brasileira, e gosto especialmente dos autores contemporâneos: João Gilberto Noll e Daniel Galera são alguns deles. Gostaria de ir ao Brasil, entre outras coisas, para ampliar essa lista de entusiasmos com novos autores. Por outro lado, jamais pensaria no Brasil como um mercado. Para mim, o Brasil é uma espécie de civilização, uma que às vezes parece milenária, e já quase praticamente desaparecida, enquanto às vezes parece que já está num futuro ainda por acontecer.